Recesso?

August 15th, 2009

Não foi bem um recesso, mas quase um ano sabático (considerando a velocidade do tempo da internet). Entrando agora no dashboard, limpando a spanzada xanaxiana alozoprada, vi que descansei bastante da blogagem e volto com gosto pela brincadeira.

Julho foi o mês das conseqüências (aqui ainda vigora o trema) da mudança de casa. Carregamento de caixas e arrumação de coisas. Livros de papel (ainda existem!), entre outras (coisas). Papel não gosta de água e choveu. Alguns livros foram molhados e mofaram. A sabedoria do acaso fez com que os molhados fossem os piores, aqueles que já estavam mesmo dentro da boca do sapo, destinados ao lixo. Também acho que livros no lixo é uma visão triste. Os que estavam endereçados ao lixo eram ruins mesmo. Úteis como acendedores de churrasqueira. Daqueles que as editoras nos dão de presente a nós professores e que os autores, provavelmente, pagaram pela edição. Ainda vigora o fetiche de ter o nome impresso na capa de um maço de papel branco pintado com letras pretas. O Lattes agradece a preferência.

Lamentei que alguns bons tenham levado água. “Construção Nacional e Cidadania“, por exemplo. Mas os bons estão em quarentena, espero que, agora secos, se recuperem e voltem para a estante.

Começou, enfim, o semestre letivo. O 2009/2. As dificuldades retornam porque o eterno retorno traz de volta os problemas de sempre. Mas o que interessa são as renovadas alegrias que só acontecem numa sala de aula. Estava falando de um assunto quando uma aluna disse: “um filme de nome “Man Friday” ilustra bem esse ponto”. Não imaginava que mais alguém se lembrava desse filme. É a história de Robinson Crusoé contada do ponto de vista do Sexta-Feira. Assisti numa madrugada da Globo, há infinitos anos. A intervenção não poderia ser mais apropriada! Felicidade minha e da aluna pela coincidência.

Escrevi tudo aí em cima para dizer que o recesso terminou, agora resta -  nos próximos dias – cumprir a palavra e acabar, de fato, com o recesso.

O “Google Reader”? Ainda não me animei a entrar. Vou deixar de ler, sei disso, mais de mil coisas. Mas quem lê tudo o que escrevemos nessa vida?

Recesso

July 1st, 2009

Já está em curso, então vamos tornar oficial. O blog vai passar por um pequeno recesso, alguns dias apenas. Coisa de professor. Final de semestre. Férias de julho. Reuniões… Hora de ouvir e pensar. Melhor não escrever nessa hora.

A discussão sobre “o conhecimento nos dias de hoje e no futuro” ainda pode render. Estou de olho nos comentários. Volto ao tema em breve.

Quase uma década

June 25th, 2009

Recomendo que este post seja lido em associação com esse post da Flávia. Não espere conclusão ou coerência. A seguir, apenas algumas idéias desconexas.

Estamos próximos de completar a primeira década do século XXI. É impressão minha ou neste final de década as coisas estão se precipitando de uma forma torrencial? Pode ser que vários elementos que foram se configurando a partir da segunda metade dos anos 1990 estejam agora transbordando. Penso especificamente na revolução proporcionada pela WEB e num possível salto qualitativo que estaria acontencendo agora, debaixo das nossas barrigas. Para citar apenas três casos emblemáticos, podemos apontar a morte da indústria fonográfica, o estertor da mídia impressa e a crise dos direitos autorais sobre obras impressas em papel provocada pela facilidade da reprodução eletrônica.

Cortázar escreveu no maravilhoso “Histórias de Cronópios e Famas” (1962):

Cada vez más los países serán de escribas y de fábricas de papel y tinta, los escribas de día y las máquinas de noche para imprimir el trabajo de los escribas. Primero las bibliotecas desbordarán de las casas; entonces las municipalidades deciden (ya estamos en la cosa) sacrificar los terrenos de juegos infantiles para ampliar las bibliotecas. Después ceden los teatros, las maternidades, los mataderos, las cantinas, los hospitales. Los pobres aprovechan los libros como ladrillos, los pegan con cemento y hacen paredes de libros y viven en cabañas de libros. Entonces pasa que los libros rebasan las ciudades y entran en los campos, van aplastando los trigales y los campos de girasol, apenas si la dirección de vialidad consigue que las rutas queden despejadas entre dos altísimas paredes de libros.

Mas Cortázar não sabia dos HDs medidos em terabytes e das redes sem fio. Vivemos imersos em palavras, mas elas não estão apenas impressas em papel e não constituem o nosso piso e as nossas paredes. Estão e constituem o ar que respiramos. Circulam, fluem, nas redes wireless a partir de finíssimos discos magnéticos interligados.

É sabido que o conhecimento se distribui socialmente. Em qualquer época, alguns são produtores e outros são consumidores, uns têm acesso e outros não. No passado havia maior simetria. Produtores e consumidores formavam uma única comunidade. O acesso era muito restrito. Pense na reprodução manual de livros anterior aos tipos móveis. Poucos sabiam decifrar a escrita. Agora a alfabetização formal e as facilidades de acesso fazem com que poucos produtores sejam consumidos por uma massa gigantesca de meros consumidores/replicadores. Um zemané qualquer concebe uma boutade duvidosa qualquer e, imeditamente, ela inunda as caixas postais eletrônicas de centenas de pessoas que replicam aquela informação, que se torna rapidamente onipresente.

A assimetria entre produtores e consumidores/replicadores é mais uma ameaça ao pensamento autônomo. O pensamento hoje vem em pacotes fechados, transmitido via email, redes sociais, embutido em hardwares ou softwares. É desnecessário pensar para acessar o conhecimento. Basta apertar botões, com o dedo ou com o mouse. O copy & paste oferece a pá de cal do pensamento autônomo.

Sempre me intrigou a representação em filmes de ficção científica, como na seqüência “Guerra nas Estrelas”, de indivíduos (ou grupo/espécies) aparentemente broncos, mas detentores/utilizadores de tecnologia sofisticada. Não faz muito sentido a imagem de um indivíduo habitante do deserto inóspito, vestido com peles de animais, que faz uso de aparelhos de comunicação intergalática.

Não seria, no entanto, essa representação muito real? Não é essa a realidade que enfrentamos em nosso cotidiano?  Não é fato que qualquer pessoa, incapaz de escrever um texto de três linhas que seja fruto do pensamento autêntico, carrega no bolso um dispositivo que acessa facilmente todo o estoque de conhecimento disponível e o replique com extrema facilidade por meio do “copy & paste” ?

Vivemos no mundo da replicação.  Replicação, autoria, não-autoria, anti-autoria. Sem dúvida, não é por falta de problemas que ficaremos entediados.

Prosperidade, civilidade e liberdade

June 20th, 2009

Ralf Dahrendorf morreu no dia 17 de junho. Link para o obituário do Guardian. Abaixo uma versão modificada de um post escrito há muito tempo.

Ralf Dahrendorf (1929 - 2009)

Ralf Dahrendorf (1929 - 2009) - Foto de Clemens Fabry

Ralf Dahrendorf, em um livro chamado “Após 1989”, pergunta: O que é a “boa sociedade”? Em um dos artigos, Dahrendorf argumenta que a “boa sociedade” é aquela que reúne prosperidade (no aspecto econômico), civilidade (presença de instituições protetoras que asseguram a distribuição razoavelmente equilibrada dos recursos e, portanto, o bem-estar aos indivíduos) e liberdade (garantias contra o autoritarismo e a interferência ilegítima do Estado sobre a vida das pessoas). Onde, nos dias atuais, poderíamos encontrar esses três elementos reunidos? Em lugar nenhum, talvez. É possível encontrar dois, mas não os três itens juntos.

Os Estados Unidos são, para Dahrendorf, o melhor exemplo de um país que apresenta prosperidade e liberdade sem civilidade. Para que se perceba a falta de civilidade, basta notar as taxas muito altas de pobreza e encarceramento (neste último aspecto são os maiores do mundo, com cerca de 1% de sua população atrás das grades). A liberdade foi seriamente agredida no período Bush. Espera-se que o ainda novo governo reverta consistentemente essa situação.

Os países europeus desenvolvidos privilegiaram, por algumas décadas, a liberdade e a civilidade. Mas têm sido obrigados a cortar garantias e direitos, o que compromete o bem-estar social. A busca pela prosperidade parece minar a civilidade. Haveria uma lógica inescapável: em uma economia internacionalizada, os produtos não competem apenas no mercado nacional. A competição é global. Os países que cobram muitos impostos e que, por meio deles, mantêm o “welfare state”, acabam onerando o preço de seus produtos, que perdem mercado para aqueles fabricados nos lugares em que a mão-de-obra é barata, os impostos são baixos e as garantias legais do trabalhador são mínimas. Durante algum tempo, houve a crença de que a competitividade européia se sustentaria pela maior qualidade dos produtos. Mas a China mostrou que no mundo globalizado o que mais importa é o preço.

Os Estados europeus acabaram por descobrir que a única coisa que podem fazer para recuperar sua competitividade é taxar menos e, conseqüentemente, gastar menos. Menores gastos estatais conduzem ao aumento do número de pessoas desassistidas e indefesas diante das variações da economia.

A terceira situação é a de alguns países da Ásia. Esses juntam prosperidade com civilidade com fortes restrições à liberdade. Do ponto de vista estritamente econômico, tem dado certo. Esses países vão bem economicamente. Mas os governos são ditatoriais e a liberdade individual é quase inexistente.

Se já não há mais lugar, “após 1989”, para a utopia de reunir numa mesma sociedade a prosperidade, a civilidade e a liberdade, qual seria a alternativa? Dahrendorf descreve a quarta alternativa:

Em termos econômicos, uma diversidade de empresas de diferentes tamanhos e ramos de negócios é obviamente desejável. Mais importante, aliás essencial, para o bem-estar econômico, contudo, é a combinação de competitividade e participação com base em interesses em comum. Se quisermos evitar o linguajar da moda, poderíamos dizer que as empresas devem procurar maneiras de operar que garantam, na medida do possível, seu sucesso a longo prazo, e que engendrem relações de confiança e engajamento para com todos os que compartilham de sua sorte. Isso é exatamente o que muitas empresas de hoje vêm tentando, e as melhores dentre elas apontam às outras o caminho a seguir. Os indivíduos também terão que responder ao duplo desafio, análogo ao das empresas: o de alcançar, simultaneamente, flexibilidade e segurança. As vidas das pessoas serão diferentes do que costumavam ser nos velhos tempos das carreiras à moda antiga, quando havia a expectativa de pleno emprego. A segurança não está mais incorporada ao mundo do trabalho, ou da educação, por sinal. As pessoas terão que tê-la consigo e dentro de si, o que significa que suas qualificações terão que ser transportáveis, que sua força residirá em suas capacidades, inclusive a capacidade de ir sempre ajustando-as e aperfeiçoando-as. Há indícios de que é mais fácil para as mulheres encontrar esse novo equilíbrio entre flexibilidade e segurança do que o é para os homens; talvez elas tenham que tê-lo feito mais cedo. Em termos institucionais, e também em termos pessoais, as associações, tanto no sentido estrito quanto no sentido organizado, irão desempenhar um papel de primeira importância. A tradição do voluntariado – oferecer serviços e, também, doar para caridade – passará por um novo florescimento. O resultado será desordenado e imperfeito, ele não acabará com a dor e o medo, ou com os conflitos, mas talvez aponte o caminho para um mundo próspero, civil e liberal.

Essa alternativa não me parece muito animadora. O objetivo é desenhar a “boa sociedade” possível “após 1989”. Mas a sociedade desenhada não me parece possível ou boa. “As empresas devem procurar maneiras de operar que garantam, na medida do possível, seu sucesso a longo prazo, e que engendrem relações de confiança e engajamento para com todos os que compartilham de sua sorte”. Sucesso empresarial, confiança e engajamento não seriam elementos antagônicos? Não há sempre o risco de que a manutenção do sucesso conduza à quebra da confiança e ao desengajamento? Manter a empresa não significa, freqüentemente, cortar empregos?

Dahrendorf sabia disso. Tanto que completa: “As vidas das pessoas serão diferentes do que costumavam ser nos velhos tempos das carreiras à moda antiga, quando havia a expectativa de pleno emprego. A segurança não está mais incorporada ao mundo do trabalho, ou da educação, por sinal. As pessoas terão que tê-la consigo e dentro de si, o que significa que suas qualificações terão que ser transportáveis”. Não me parece boa a sociedade em que os indivíduos têm a complicada incumbência de carregar a segurança (transportável) “dentro de si”. Não me anima também a previsão de que “a tradição do voluntariado – oferecer serviços e, também, doar para caridade – passará por um novo florescimento”.

A última frase do artigo de Dahrendorf resume perfeitamente a inconsistência do pensamento liberal: “o resultado será desordenado e imperfeito, ele não acabará com a dor e o medo, ou com os conflitos, mas talvez aponte o caminho para um mundo próspero, civil e liberal”. Se o resultado é desordenado e imperfeito, se não acaba com a dor e o medo, como pode apontar para um mundo próspero, civil e liberal? Talvez o mundo seja próspero civil e liberal para os voluntários caridosos, mas não será, de fato, muito bom para quem depende da caridade voluntária.

Analfabetismo Cognitivo (continuação e algumas ponderações)

June 18th, 2009

Quero escrever mais um pouco sobre o mal-chamado “analfabetismo cognitivo”, mas antes faço uma longa citação de um artigo da Rita Segato (p. 222 – 223). Sua leitura deixa mais evidente o problema que abordo – a falta/incapacidade do olhar crítico.

O impulso ético é o que nos permite abordar criticamente a lei e a moral e considerá-las inadequadas. A pulsão ética nos possibilita não somente contestar e modificar as leis que regulam o “contrato” impositivo em que se funda a nação, mas também distanciarmo-nos do leito cultural que nos viu nascer e transformar os costumes das comunidades morais de que fazemos parte.

Para utilizar metáfora freqüentemente oferecida pelo cinema recente, é a pulsão ética que desinstala os chips cuja finalidade é tornar nosso comportamento automático. A pulsão ética nos permite fugir da automação: se a cultura é uma paranatureza, ou seja, uma segunda natureza ou programação não biológica, parabiológica, implantada em nós mediante o processo de socialização e coincidente, portanto, com nossa própria humanidade, o desejo ético, transcendente e complexo, leva-nos a vislumbrar o outro lado da consciência possível e nos possibilita ultrapassar a visão programada de uma época e desarticular o programa cultural e jurídico que a sustenta.

Somos plenamente humanos porque a mesma cultura que nos implanta os chips de valores morais e as práticas semi-automáticas a nos habilitar como membros de uma comunidade moral e “naturais” de uma sociedade juridicamente constituída, também nos equipa com as ferramentas que permitem detectar refletidamente esses mesmos chips e desativá-los. A isso alude o antropólogo Clifford Geertz quando, relançando conceitos já trabalhados por lingüistas desde o século XIX, afirma contarmos como humanos, ou seja, como seres de cultura, com padrões para o comportamento e padrões de comportamento (patterns for e patterns of behavior) e recorda a importante diferença entre ambos: os primeiros nos fazem agir, impulsionam a conduta, inoculados pelo processo de socialização que instaura nossa humanidade e nos possibilita a vida em comum; os últimos são esses mesmos padrões quando já identificados após um processo de análise cultural e de auto-análise. Os padrões para o comportamento automatizam a conduta; os padrões de comportamento são nossas apostas intelectivas a respeito dos moldes que nos fazem agir, já em sua versão reflexiva, como produto da tentativa de autoconhecimento por parte de uma sociedade ou de um indivíduo (Geertz, A interpretação das culturas). É neste segundo nível, devo acrescentar, que nos fazemos seres históricos, que exercemos algum grau de liberdade e autonomia e, portanto, damos plenitude humana à nossa existência, seja qual for a sociedade em que vivamos.

Reside, então, no trabalho reflexivo de identificação dos padrões de comportamento, a possibilidade da ética como impulso em direção a um mundo regido por outras normas, e do redirecionamento da vida – bem como de nossa própria historicidade – no sentido do trabalho constante de transformação do que não consideramos aceitável. Somos plenamente humanos não por sermos membros natos e cômodos de nossas respectivas
comunidades morais e sociedades jurídicas, mas por estarmos na história, ou seja, por não respondermos a uma programação, da moral ou da lei, que nos determine de forma inapelável.

A ética, definida nesse contexto, resulta da aspiração ou do desejo de mais bem, de melhor vida, de maior verdade, e se encontra, portanto, em constante movimento: se a moral e a lei são substantivas, a ética é pulsional, um impulso vital; se a moral e a lei são estáveis, a ética é inquieta. Isto torna possível que, dentro de uma mesma comunidade moral – a comunidade de cultura estudada pelos antropólogos – possa existir mais de uma sensibilidade com relação à ética que poderíamos, de forma grosseira, enquadrar em duas posições: a ética dos conformistas e a dos desconformes; a dos satisfeitos e a dos insatisfeitos; a dos que têm disponibilidade quanto à diferença, ao novo e ao outro e a dos que não a têm; a dos sensíveis às margens (o que se encontra do outro lado das muralhas de contenção da “normalidade” moral do grupo) e às vítimas e a dos não sensíveis a elas.

O trecho-chave é:

Somos plenamente humanos porque a mesma cultura que nos implanta os chips de valores morais e as práticas semi-automáticas a nos habilitar como membros de uma comunidade moral e “naturais” de uma sociedade juridicamente constituída, também nos equipa com as ferramentas que permitem detectar refletidamente esses mesmos chips e desativá-los. A isso alude o antropólogo Clifford Geertz quando [...] afirma contarmos como humanos, ou seja, como seres de cultura, com padrões para o comportamento e padrões de comportamento [...] os primeiros nos fazem agir, impulsionam a conduta, inoculados pelo processo de socialização que instaura nossa humanidade e nos possibilita a vida em comum; os últimos são esses mesmos padrões quando já identificados após um processo de análise cultural e de auto-análise. Os padrões para o comportamento automatizam a conduta; os padrões de comportamento são nossas apostas intelectivas a respeito dos moldes que nos fazem agir [...]

É disso que estava tentando falar. Da incapacidade ou da falta das ferramentas linguísticas e cognitivas necessárias para a transformação dos “padrões para o comportamento” em “padrões de comportamento”.

Agora as ponderações. Antes de tudo, quero afastar a possível impressão de que TODOS os alunos sofrem dessa “afasia da crítica”. Não é verdade. Preciso afastar também a impressão de que essa afasia resulta necessariamente da ausência ou da má qualidade da educação formal. Também não é verdade. Esse post do Marmelstein mostra que a falta de crítica não depende de escolaridade e pode resultar de outras causas. Cabe ainda esclarecer que o problema não é privativo das faculdades privadas. Embora possa ser nelas mais freqüente. O vestibular/loteria-cara que seleciona (mal) aqueles que entrarão nas universidades públicas já foi bem analisado pelo Kenji.

O fato: a sociedade capitalista-de-consumo é a-crítica. O comprador do kinder ovo zizekiano não critica. Espera ávido pelo próximo e efêmero lançamento seja do que for.

Então, quando escrevi no post anterior que o problema do analfabetismo cognitivo não é do aluno ou da faculdade privada, mas do sistema de educação, deveria ter escrito mais: é do sistema social capitalista inteiro. Vivemos em um sistema social que DESESTIMULA a crítica, o tempo todo. No chão do chão do mundão da vidinha esse desestímulo se expressa em frases do tipo: “Ahh, [professor] [Carlos] [Fulano,Cicrano, Beltrano, etc.], você é TÃÃÃOOO CRÍTICO….” Como se “ser crítico” fosse intrinsecamente ruim. Em algumas situações, “ser crítico” é entendido/apresentado como sinônimo de “ser perdedor”. O conformista sai ganhando, diz certa sabedoria popular. Não é de hoje, nos mostra o Machado na sua Teoria do Medalhão. Um atavismo apontado pelo Nelson Rodrigues com a sua “Nova Prostituição do Brasil“?

Nessa briga de foice no escuro é muito oportuna a tese de Arquilau Moreira Romão citada por Luciana Christante.

Enfim, a pilha está acabando. Mas continuo. Os comentários, como sempre, são muito bem-vindos.

Analfabetismo Cognitivo

June 17th, 2009

Nas provas finais de introdução à sociologia deste semestre apresentei duas pérolas do pensamento contemporâneo e indiquei aos alunos alguns conceitos a partir dos quais deveriam esboçar algum comentário. Abaixo as duas pérolas contra-indicadas para estômagos suscetíveis:

Um autor que tem vendido muitos livros escreveu: “se seus sonhos são pequenos, sua visão será pequena, suas metas serão limitadas, seus alvos serão diminutos, sua estrada será estreita, sua capacidade de suportar as tormentas será frágil. Os sonhos regam a existência com sentido. Se seus sonhos são frágeis, sua comida não terá sabor, suas primaveras não terão flores, suas manhãs não terão orvalho, sua emoção não terá romance. A presença dos sonhos transforma os miseráveis em reis, faz dos idosos, jovens, e a ausência deles transforma milionários em mendigos faz dos jovens idosos. Os sonhos trazem saúde para a emoção, equipam o frágil para ser autor da sua história, fazem os tímidos terem golpes de ousadia e os derrotados serem construtores de oportunidades”.

Atriz e escritora Maria Mariana (36 anos), que abandonou uma carreira de sucesso na televisão e no teatro para se dedicar à maternidade, disse em recente entrevista à revista Época: “Não acredito na igualdade entre homens e mulheres. Todos merecem respeito, espaço. Mas o homem tem uma função no mundo e a mulher tem outra. São habilidades diferentes. Penso nesta imagem: homem e mulher estão no mesmo barco, no mesmo mar. Há ondas, tempestades, maremotos. Alguém precisa estar com o leme na mão. Os dois, não dá. Deus preparou o homem para estar com o leme na mão. Porque ele é mais forte, tem raciocínio mais frio. A mulher tem mais capacidade de olhar em volta, ver o todo e desenvolver a sensibilidade para aconselhar. A mulher pode dirigir tudo, mas o lugar dela não é com o leme.”

Meu objetivo não era provocar uma crítica simples, uma “crítica pela crítica”, mas possibilitar ao aluno estabelecer uma articulação entre um conceito abstrato e uma situação específica. Ainda que o comentário fosse tristemente aprovativo, seria válido, dentro dos critérios avaliativos, na medida em que estabelecesse a articulação entre o conceito sugerido e a situação apresentada. Seja como for, está enganado quem pensa que li várias críticas às idéias expostas. Ao contrário, li muitas manifestações de aprovação.

A correção de provas é um teste de resistência para o professor. Resistência física e resistência moral. A primeira é óbvia. A segunda diz respeito à desconfortável sensação de ter falado para as paredes durante um semestre letivo inteiro. Não deixa de ser uma derrota, depois de um curso inteiro de introdução à sociologia, ler um aluno dizendo que “somos o que queremos ser” ou que “aquele que não sonha alto só pode chegar a um lugar baixo”. Derrota de igual tamanho é ler uma jovem (ler um jovem também seria igualmente ruim, mas haveria, pelo menos, a desculpa – evidentemente esfarrapada – de que fala por interesse próprio) repetindo que homens e mulheres são naturalmente diferentes, que os papéis de homem e mulher são complementares e que se ELE nasceu para segurar o leme, ELA nasceu com uma sensibilidade especialmente voltada para apaziguar e dirimir os conflitos (conflitos provocados pela falta de entendimento da complementaridade – assimétrica – dos papéis).

Não adianta nada lamentar por lamentar, é claro. É preciso compreender (cf. Max Weber) para traçar uma estratégia de (porque não utilizar um conceito fora de moda?) desalienação.

Pensando em alienação (apenas) como  o ato de “alhear-se”, de transferir para outro o que seria próprio, não seria alienação entregar para um escritor de best-sellers de auto-ajuda ou para uma ex-atriz qualquer a definição de sua própria posição no mundo, na vida? Não seria (isso é realmente grave) alienação não ter acesso mínimo à linguagem natural de modo a reconhecer as entrelinhas de um discurso de dominação?

Existem hoje no Brasil muitas pessoas que têm certificados de conclusão de ensino fundamental e médio que, a rigor, não aprenderam o mínimo. Esse seria um problema suficientemente sério. Mas qualquer uma dessas pessoas pode ser admitida em um curso superior; basta estar no lugar certo, na hora certa. O exame vestibular deixou de existir nas escolas superiores privadas quando o número de vagas passou a ser maior que o número de candidatos. Não é um problema das escolas ou dos candidatos. É um problema do sistema de educação no Brasil. O fato é que estamos produzindo e lidando com uma massa de analfabetos. Não falo de analfabetos no sentido estrito ou de analfabetos funcionais. Falo, se é que isso existe, de analfabetos cognitivos.

Uma das provas que corrigi está bem escrita (razoavelmente bem, pelo menos). Melhor do que muitas outras. No entanto, revela da forma mais completa o problema que descrevo. Além da incapacidade de articular conceitos e situações (o que seria ruim, porém esperado), a prova demonstra uma completa alienação, um completo apartamento entre quem escreve e o que está escrito. Suponho que essa incapacidade seja o sintoma de uma incapacidade generalizada de se reconhecer e de se estabelecer como agente (ainda que constrangido pelas estruturas sociais, mas agente).  Na fala/escrita desses “não-agentes” a frase feita, evidentemente irreal, ganha status de realidade.

A carapaça do senso comum se estabelece sem concorrência. O antídoto não é oferecido. Os padrões de conduta são internalizados sem que a competência ligüístico-cognitiva para contestá-los seja desenvolvida. Esse é o pior analfabetismo.

O problema está colocado, tudo está em discussão. Os comentários são todos muito bem-vindos. Melhor do que pensar é repensar.

Contribuição a mais para o nosso ordenamento penal

June 13th, 2009

Ainda bem que os nossos parlamentares não param de trabalhar. Garibaldi Alves (PMDB-RN) nos oferece uma imprescindível contribuição legislativa. Afinal de contas, além das saúvas, os jogos de azar estão entre os maiores problemas do Brasil.

COISAS ESTRANHAS II

June 12th, 2009

As coisas estranhas continuam ocorrendo. Agora a bagaça do dashboard só funciona no Opera. Uma coisa que já não me alegra nem um pouco é mexer em templates e configurações de site/blog. Já foi o tempo em que ficava lendo livros de “HTML para dummies” (essa é, inclusive, uma das antiguidades impressas em papel que prentendo usar para acender a minha futura churrasqueira) com o prosaico objetivo de  fazer páginas cheias de gifs animados. Como já disseram, nada tão antigo como o passado recente. Então, buscando o mais simples, esperando que a simplicidade devolva a funcionalidade ao dashboard, apliquei o tema default do Wordpress. Ainda não resolveu. Mas, após vários anos de mexidas toscas na web, acredito piamente que o melhor remédio para esses códigos voluntariosos é uma boa noite de sono. Amanhã tudo deve voltar ao normal. Espero.

Quase voltando

June 12th, 2009

Já tenho condições técnicas de voltar a blogar. A internet já está funcionando. Não dependo mais da rede aberta do vizinho (que fica conectado poucas horas por dia). Mais tarde vou postar os links deixados pelo Daniel. Tenho que colocar em dia o google reader.  Acho que vai ser preciso zerar algumas assinaturas, não vou conseguir ler tudo. A casa ainda está uma zona. Vamos sair agora para procurar alguns móveis indispensáveis à organização. A pior parte da arrumação fica com as várias caixas de livros. Estou decido a me livrar de boa parte deles.

O retorno definitivo depende agora mais da minha cabeça. É interessante como uma mudança nesses tempos superconectados provoca um desalinhamento entre as nossas preocupações pessoais e o que acontece no resto do mundo.  Enquanto penso em estantes e guarda-roupas, o pau quebra na USP, na Petrobras e por aí afora.  Bom, o processo de realinhamento cognitivo está em curso…mas primeiro tenho que achar, pelo menos, um armário para roupas e uma estante para livros.

COISAS ESTRANHAS

June 5th, 2009

Coisas estranhas estão acontecendo. Começou a dar “erro 500″ no blog ontem. Ainda está instável. Parece que o problema vai voltar. Neste fim de semana estou mudando de  casa. Estamos em final de semestre na faculdade. Não tenho muito tempo para verificar o problema.

Conclusão: este blog pode ficar meio parado nos próximos dias. Mas eu volto!

Isso é que dá mexer com o sagrado…

ATUALIZAÇÃO: a bagaça do dashboard funciona no IE 8.0, mas não funciona no Firefox 3.0.

ATUALIZAÇÃO 2: Parece que o problema foi causado por um permalink. Vamos esperar para ver se não dá mais pau.

Sou feliz por ser ateu ou entrando na guerra dos adesivos (armado)

June 4th, 2009

Demorou, mas chegou! Não sou mais um silencioso espectador da batalha que se trava nas ruas de Belo Horizonte. Tenho voz.  O peixe darwinista está grudado na traseira do meu carro. Os engarrafamentos já não são os mesmos. Se o ar condicionado e o pendrive de 8 gigas espetado no aparelho de som já me desestressavam, ganho agora a sensação reconfortante de dirigir um panfleto, um carro-manifesto.

Peixe evolucionista

Peixe evolucionista

Comprei aqui. Pouco mais de 10 dólares, com o envio. Aguardo o alistamento de novos soldados no exército da ciência!

Para quem não acompanhou: começocontinuação

Vôo AF 447

June 2nd, 2009

Diante da mais nova pletora de informações técnicas e expressões de sentimentalismo barato (sem querer desfazer do sofrimento de quem, de fato, sofre) só consigo me impressionar com a repetição. Neste exato momento a Globo News recita os dados técnicos do avião A 330-200 que caiu. Entrevista os especialistas que terão os seus 15 minutos de fama. Familiares expressam as dores relacionadas ao acidente. As vítimas são nomeadas e suas credenciais são listadas.

Tudo certo. É mesmo uma situação grave, dolorosa e triste. Não pretendo negar essa realidade. Mas o Ministério das Cidades informa que, nos últimos 10 anos, 327.469 pessoas morreram em acidentes de trânsito no Brasil. São 98 mortes por dia, 35 mil por ano. Muito poucas dessas mortes mereceram/merecem atenção igual à dedicada aos mortos do acidente aéreo de hoje e nos anteriores, que ocuparam tão intensamente a imprensa.

Não deixa de ser notável esse imaganinário que se construiu e que se reconstrói em torno dos acidentes aéreos. Uma explicação supostamente neutra diria que a menor freqüência estatística dos acidentes aéreos, em comparação com os acidentes que envolvem automóveis terrestres, responde pelo destaque aumentado. Mas não consigo deixar de pensar que a posição das vítimas na hierarquia social tem mais a ver com as diferenças de comoção. Quando as vítimas partiram de uma rodoviária, ou de uma esquina qualquer num ônibus clandestino, a narrativa é sempre a do desastre esperado, causado pela “imprudência atávica dessa gente”.

Enfim, nos próximos dias vamos saber tudo, mais uma vez, sobre a dor da perda de singulares e insubstituíveis entes queridos cheios de projetos agora interrompidos abruptamente, sobre as intempéries que podem atingir os vôos transoceânicos e sobre as minuciosas tecnicalidades redundantes dos aviões mais perfeitos do mundo. Enquanto isso, os 98 mortos diários nas ruas e estradas brasileiras continuarão sendo nada mais do que estatísticas.

Pra terminar, não posso deixar de mencionar  post do Cloaca News.  Lendo o post do Noblat, especialmente a “correção”, fica muito evidente que a vontade de culpar o Lula é maior do que a dor causada pelo desastre.

Contra o AI5 digital

June 1st, 2009
Ato público contra o AI5 digital.

Ato público contra o AI5 digital.

Se você estiver em Belo Horizonte no dia 01/06, não deve perder o ato público/debate, com Idelber Avelar e Sérgio Amadeu, sobre projeto do Azeredo. Aproveite para ler as críticas do Túlio Vianna.

Senador quer mexer na lei de drogas

May 29th, 2009

É impressionante a insistência de boa parte dos “legisladores” brasileiros na crença evidentemente equivocada de que as medidas penais devem ser a primeira alternativa para o tratamento de problemas sociais. Já está absolutamente claro que qualquer tipo de proibição/criminalização envolve efeitos colaterais negativos. Tais efeitos devem ser analisados cuidadosamente, pois podem ser mais prejudiciais à sociedade do que a conduta que pretendem coibir.  Alheio a esta questão, o  senador Gerson Camata (PMDB/ES) acaba de apresentar um projeto de lei propondo a volta da pena de detenção para “condutas relacionadas ao consumo pessoal de droga”.

O projeto reescreve o artigo 28 da Lei 11.343/06 substituindo as penas de “I – advertência sobre os efeitos das drogas; II – prestação de serviços à comunidade e III – medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo” pela “pena de detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano”.  Na longa e pobre justificativa, o senador escreve:

[...] O usuário de droga é o ponto nevrálgico de toda a engenharia social que leva do tráfico à queda da riqueza do País (com a queda da produtividade no trabalho, o custo dos tratamentos, o custo da violência, o custo para as famílias, etc.). Esse agente, portanto, não pode ter a sua conduta simplesmente descriminalizada. A lei precisa aumentar o custo da ação de consumo para o usuário de drogas. Mantemos a idéia-base hoje em vigor, que privilegia o serviço à comunidade e o comparecimento a curso educativo, mas dentro do sistema do Código Penal de substituição da pena privativa de liberdade pela restritiva de direitos, o que mantém o rigor da medida punitiva. Julgamos tratar-se de alteração necessária na nova Lei de Drogas, para o qual peço o apoio de meus nobres Pares.

É interessante notar que o próprio senador reconhece que a mudança não vai alterar a opção, confirmada pela lei 11.343/06 (vale destacar que, conforme Luciana Boiteux, a despenalização já havia sido feita na prática pelas Leis 6.416/77, 9.099/95, 10.259/01), pelo serviço à comunidade e pelo comparecimento a curso educativo.  No entanto, sutilmente, a nova redação elimina a primeira opção apresentada pela redação atual, ou seja, a “advertência sobre os efeitos das drogas”. Trata-se de uma forma de forçar a adoção de medidas mais restritivas do que a advertência (que pela lei vigente pode ser aplicada isoladamente, conforme o artigo 27). Acredito que seria muito mais adequado deixar aberta ao juiz a possibilidade de aplicar isoladamente a advertência, de acordo com a sua avaliação do caso concreto.

A justificativa apresenta ainda a disparatada afirmação de que “o usuário de droga é o ponto nevrálgico de toda a engenharia social que leva do tráfico à queda da riqueza do País.” E conclui de modo surrealista: “esse agente, portanto, não pode ter a sua conduta simplesmente descriminalizada. A lei precisa aumentar o custo da ação de consumo para o usuário de drogas.” Em primeiro lugar, é óbvio que o tráfico resulta da criminalização. Não havendo a criminalização não há tráfico, mas comércio legal. Em segundo lugar, é difícil acreditar que alguém, de boa-fé, seja capaz de afirmar que o aumento do “custo da ação de consumo” vai provocar a redução da demanda e, conseqüentemente, diminuir o tráfico de drogas. Se esse aumento de custo resolvesse alguma coisa, a política de “guerra às drogas” já teria eliminado o tráfico há muito tempo. Por último, não seria esse tipo de política muito mais prejudicial à “riqueza do País” por jogar caminhões de dinheiro pelo ralo?

Muito mais importante seria discutir as deficiências da Lei 11.343/06, escondidas pela cobertura preguiçosa da imprensa que destaca apenas a “descriminalização do uso”. Uma delas aparece no metafísico parágrafo 2º do artigo 28: “Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.” A essa pérola de vagueza soma-se o aumento da pena mínima por tráfico de 3 para 5 anos, impedindo a adoção de penas alternativas.

Na prática, a lei reforça a criminalização da marginalidade social. Os jovens pobres que atuam nos níveis hierárquicos mais baixos do tráfico de varejo pagam, mais uma vez, a conta. Parece que o senador quer colocar os usuários para ajudar.

Ótimos posts

May 28th, 2009

[Texto editado para corrigir erros de digitação. Inserir links e tornar alguns pontos mais claros]

De ontem para hoje, alguns ótimos posts foram publicados. Gostaria de recomendá-los.

Começo com os dois posts da Lúcia (links: post 1post 2) sobre a indústria farmacêutica. Não é sempre que podemos ler as considerações de quem entende de um assunto. O tema dos medicamentos me interessa (principalmente, mas não só por isso) porque diz respeito ao consumo de “drogas”. A paranóia sobre as drogas ilícitas, além de outros prejuízos, contribui para a invisibilidade do problema do consumo das drogas lícitas. Os ansiolíticos, por exemplo, têm sido receitados e usados com enorme facilidade. Não sou especialista e, portanto, não posso avaliar os possíveis danos à saúde causados por essa liberalidade. Mas a ausência de discussão sobre esses danos me deixa intrigado. Se tanta energia é dedicada aos danos à saúde causados pelas drogas ilícitas, por que quase nenhuma é empregada em relação às drogas lícitas? Em tempos de incentivo ao dedo-durismo, não são curiosos os comerciais de Neosaldina? O medicamento, cujo componente principal – a dipirona – não figura entre os mais  inocentes, é apresentado como um Confeti. Por que não voltar ao anúncio dos “cigarros índios“, do início do século XX? (A propósito, Marinol é o medicamento americano feito a partir do THC).

Anúncio do início do século XX - revista Gazeta Médica

Anúncio do início do século XX - revista Gazeta Médica

Como de costume, o Idelber desnuda a indigência intelectual da mais recente mobilização política da “república Ipanema-Morumbi-Belvedere”: Não reeleja ninguém. Não há necessidade de falar mais nada depois do post do Idelber. Nas últimas eleições, votei em branco para deputado federal. Mas tomei essa decisão depois de pensar bastante e chegar à conclusão de que o nosso sistema proporcional combinado com as alianças espúrias é esquizofrênico. Minha decisão atual é votar em eleições proporcionais apenas quando forem proibidas as coligações. Não quero votar em um nome, ou mesmo em uma legenda, sabendo que meu voto ajuda a eleger um energúmeno qualquer do PMDB. Por que os paladinos da “moralzinha na política” não propõem um debate sobre as regras das eleições proporcionais? “Putz, mas assim vamos ter que descobrir quais são as regras atuais! Fazemos tantas coisas! Não temos tempo…”

Como dou aulas para seres humanos que cometem, sem nenhum pudor, o desrespeito de terem nascido no ano de 1992, tenho me ocupado de mostrar que uma denúncia veiculada pela Globo não é, por definição, uma denúncia. Uma enganação muito sedutora, tento alertar, é aquela que apresenta o voto (ou o não-voto) como a maior arma do cidadão. Muito boa essa “arma” (boa pra quem?) que, como se não bastasse o longo intervalo de 4 anos, é  ainda controlada pelo dinheiro e pelo “marketing político”. POLÍTICO NÃO É PRODUTO! Uma campanha com esse slogan não seria mais apropriada que os “cansaços” que andam por aí? Por que não reivindicar uma regulamentação da propaganda política que exclua a contratação de artistas populares, a utilização de “efeitos especiais” e a teledramaturgia?

Por último, mas não menos importante, destaco o post do Rafael sobre o Twitter. Tenho considerado a possibilidade de entrar no tal Twitter. Mas tenho resistido. Os argumentos do Rafael são relevantes. Pra que tantas informações se não conseguimos processá-las? Tenho me policiado também para não embarcar numa fala do tipo “como era bom o meu tempo”. Se tenho me policiado, é evidente que o problema está posto. Os números da minha biografia já estão atingindo valores demasiadamente elevados. Moro em Belo Horizonte há 20 anos. Não é pouco. Minhas referências biográficas estão ficando avantajadas. Freqüento a internet, quase diariamente, desde 1997, quando comprei um avançadíssimo Pentium MMX 200 para substituir o meu valente 386 SX 40. Mas, apesar da idade que não pára de avançar, não tenho saudades dos tempos pré-eletrônicos da minha infância/adolescência. Não sinto a falta da máquina de escrever ou das fichas de orelhão. Meu novo vício, por exemplo, é um smartphone com um pacote de dados 3G. Já sinto dificuldade de usar um desktop que exige uma mesa só para ele e fica preso a um lugar da casa.  Carrego a internet no bolso para qualquer lugar.  E daí? Preciso/precisamos disso?  É possível escapar disso hoje? Mesmo utilizando essa parafernalha toda, cabe questionar o significado dessa overdose de conectividade.

Só uma conclusão (entre várias possíveis): a vida inteligente hoje não está, exclusivamente, impressa em papel. Ainda que o papel não seja, por enquanto, imprescindível, já não é mais, obviamente, suficiente.