Ralf Dahrendorf morreu no dia 17 de junho. Link para o obituário do Guardian. Abaixo uma versão modificada de um post escrito há muito tempo.

Ralf Dahrendorf (1929 - 2009) - Foto de Clemens Fabry
Ralf Dahrendorf, em um livro chamado “Após 1989”, pergunta: O que é a “boa sociedade”? Em um dos artigos, Dahrendorf argumenta que a “boa sociedade” é aquela que reúne prosperidade (no aspecto econômico), civilidade (presença de instituições protetoras que asseguram a distribuição razoavelmente equilibrada dos recursos e, portanto, o bem-estar aos indivíduos) e liberdade (garantias contra o autoritarismo e a interferência ilegítima do Estado sobre a vida das pessoas). Onde, nos dias atuais, poderíamos encontrar esses três elementos reunidos? Em lugar nenhum, talvez. É possível encontrar dois, mas não os três itens juntos.
Os Estados Unidos são, para Dahrendorf, o melhor exemplo de um país que apresenta prosperidade e liberdade sem civilidade. Para que se perceba a falta de civilidade, basta notar as taxas muito altas de pobreza e encarceramento (neste último aspecto são os maiores do mundo, com cerca de 1% de sua população atrás das grades). A liberdade foi seriamente agredida no período Bush. Espera-se que o ainda novo governo reverta consistentemente essa situação.
Os países europeus desenvolvidos privilegiaram, por algumas décadas, a liberdade e a civilidade. Mas têm sido obrigados a cortar garantias e direitos, o que compromete o bem-estar social. A busca pela prosperidade parece minar a civilidade. Haveria uma lógica inescapável: em uma economia internacionalizada, os produtos não competem apenas no mercado nacional. A competição é global. Os países que cobram muitos impostos e que, por meio deles, mantêm o “welfare state”, acabam onerando o preço de seus produtos, que perdem mercado para aqueles fabricados nos lugares em que a mão-de-obra é barata, os impostos são baixos e as garantias legais do trabalhador são mínimas. Durante algum tempo, houve a crença de que a competitividade européia se sustentaria pela maior qualidade dos produtos. Mas a China mostrou que no mundo globalizado o que mais importa é o preço.
Os Estados europeus acabaram por descobrir que a única coisa que podem fazer para recuperar sua competitividade é taxar menos e, conseqüentemente, gastar menos. Menores gastos estatais conduzem ao aumento do número de pessoas desassistidas e indefesas diante das variações da economia.
A terceira situação é a de alguns países da Ásia. Esses juntam prosperidade com civilidade com fortes restrições à liberdade. Do ponto de vista estritamente econômico, tem dado certo. Esses países vão bem economicamente. Mas os governos são ditatoriais e a liberdade individual é quase inexistente.
Se já não há mais lugar, “após 1989”, para a utopia de reunir numa mesma sociedade a prosperidade, a civilidade e a liberdade, qual seria a alternativa? Dahrendorf descreve a quarta alternativa:
Em termos econômicos, uma diversidade de empresas de diferentes tamanhos e ramos de negócios é obviamente desejável. Mais importante, aliás essencial, para o bem-estar econômico, contudo, é a combinação de competitividade e participação com base em interesses em comum. Se quisermos evitar o linguajar da moda, poderíamos dizer que as empresas devem procurar maneiras de operar que garantam, na medida do possível, seu sucesso a longo prazo, e que engendrem relações de confiança e engajamento para com todos os que compartilham de sua sorte. Isso é exatamente o que muitas empresas de hoje vêm tentando, e as melhores dentre elas apontam às outras o caminho a seguir. Os indivíduos também terão que responder ao duplo desafio, análogo ao das empresas: o de alcançar, simultaneamente, flexibilidade e segurança. As vidas das pessoas serão diferentes do que costumavam ser nos velhos tempos das carreiras à moda antiga, quando havia a expectativa de pleno emprego. A segurança não está mais incorporada ao mundo do trabalho, ou da educação, por sinal. As pessoas terão que tê-la consigo e dentro de si, o que significa que suas qualificações terão que ser transportáveis, que sua força residirá em suas capacidades, inclusive a capacidade de ir sempre ajustando-as e aperfeiçoando-as. Há indícios de que é mais fácil para as mulheres encontrar esse novo equilíbrio entre flexibilidade e segurança do que o é para os homens; talvez elas tenham que tê-lo feito mais cedo. Em termos institucionais, e também em termos pessoais, as associações, tanto no sentido estrito quanto no sentido organizado, irão desempenhar um papel de primeira importância. A tradição do voluntariado – oferecer serviços e, também, doar para caridade – passará por um novo florescimento. O resultado será desordenado e imperfeito, ele não acabará com a dor e o medo, ou com os conflitos, mas talvez aponte o caminho para um mundo próspero, civil e liberal.
Essa alternativa não me parece muito animadora. O objetivo é desenhar a “boa sociedade” possível “após 1989”. Mas a sociedade desenhada não me parece possível ou boa. “As empresas devem procurar maneiras de operar que garantam, na medida do possível, seu sucesso a longo prazo, e que engendrem relações de confiança e engajamento para com todos os que compartilham de sua sorte”. Sucesso empresarial, confiança e engajamento não seriam elementos antagônicos? Não há sempre o risco de que a manutenção do sucesso conduza à quebra da confiança e ao desengajamento? Manter a empresa não significa, freqüentemente, cortar empregos?
Dahrendorf sabia disso. Tanto que completa: “As vidas das pessoas serão diferentes do que costumavam ser nos velhos tempos das carreiras à moda antiga, quando havia a expectativa de pleno emprego. A segurança não está mais incorporada ao mundo do trabalho, ou da educação, por sinal. As pessoas terão que tê-la consigo e dentro de si, o que significa que suas qualificações terão que ser transportáveis”. Não me parece boa a sociedade em que os indivíduos têm a complicada incumbência de carregar a segurança (transportável) “dentro de si”. Não me anima também a previsão de que “a tradição do voluntariado – oferecer serviços e, também, doar para caridade – passará por um novo florescimento”.
A última frase do artigo de Dahrendorf resume perfeitamente a inconsistência do pensamento liberal: “o resultado será desordenado e imperfeito, ele não acabará com a dor e o medo, ou com os conflitos, mas talvez aponte o caminho para um mundo próspero, civil e liberal”. Se o resultado é desordenado e imperfeito, se não acaba com a dor e o medo, como pode apontar para um mundo próspero, civil e liberal? Talvez o mundo seja próspero civil e liberal para os voluntários caridosos, mas não será, de fato, muito bom para quem depende da caridade voluntária.