Correndo nas veias da cidade

A maioria das pessoas, nas grandes cidades, vive uma rotina diária que envolve deslocamentos mais ou menos longos para o trabalho e/ou escola. Saem pela manhã e retornam no fim do dia. Os que trabalham e estudam costumam voltar para casa somente no fim da noite. Eu saio pela manhã, volto na hora do almoço, saio novamente no fim da tarde e retorno mais uma vez no fim da noite. Fazendo isso quase todos os dias, com exceção dos finais de semana e dos períodos de férias, acabamos tão acostumados que deixamos de pensar sobre a nossa experiência de habitantes de cidade grande. Mas podemos fazer um exercício de imaginação para redescobrirmos aquilo que o hábito cobriu com a sua baba, como diria Cortázar.

Se existe um consenso nas ciências sociais, é a concepção de somos parte de complexas estruturas que condicionam e limitam as nossas escolhas e ações. Acredito que percepção das conseqüências de fazer parte de estruturas de classe, etnia ou gênero já faz parte do conhecimento de senso comum. Qualquer pessoa já ouviu informações sobre as diferenças de oportunidade (de acesso ao dinheiro, à saúde, ao emprego, à educação, etc.) entre ricos e pobres, negros e brancos ou mulheres e homens. Essas questões são tema de conversas de bar.

No entanto, a estrutura espacial do locais onde vivemos e as suas conseqüências sobre a nossa vida diária são menos evidentes. Os meios de comunicação falam do trânsito à exaustão, mas o noticiário superficial (que se preocupa apenas com o tamanho dos engarrafamentos) o transforma em uma entidade com vida própria e não mostram a realidade de um conjunto complexo de interações sociais estruturadas por um traçado urbano específico.

Cada cidade tem o seu desenho, que define os caminhos que percorremos diariamente em nossos deslocamentos citados anteriormente. Se gastamos mais ou menos tempo indo de casa ao trabalho; se ficamos mais ou menos tempo em casa; se optamos pelo carro, pelo ônibus, pela bicicleta ou pelos pés; se transitamos em alta velocidade ou vagarosamente; se o nosso meio de transporte já se tornou o lugar onde boa parte de nossa vida acontece; se corremos mais ou menos riscos de acidentes durante nossas idas e vindas, se nos estressamos mais ou menos; tudo isso é conseqüência direta de como a cidade onde vivemos é desenhada. Sem esquecer, é claro, que a nossa posição na estrutura econômica abre ou fecha as opções relacionadas ao local de moradia, de trabalho, ao tipo de transporte, etc.

Talvez seja o fato de vivermos no chão, sem muitas oportunidades de observarmos a cidade de cima, um dos fatores responsáveis pela percepção incompleta que temos da nossa imersão em uma complexa rede de vias expressas, avenidas e ruas que nos conduzem – sobre rodas ou a pé – de um lugar para outro. Observando imagens aéreas em movimento acelerado de uma cidade, podemos ter uma noção mais clara de como participamos de fluxos pré-definidos, aos quais somos obrigados a nos adaptar e nos adaptamos tão profundamente que quase não os identificamos.

Uma oportunidade de ter essa experiência (e a partir dela despertarmos a nossa imaginação sociológica) é assistir ao excelente Koyaanisqatsi, filme de Godfrey Reggio, com trilha sonora não menos excelente de Philip Glass. Os fluxos de carros e de pedestres apresentados do alto e de forma acelerada são impressionantes. A cidade ganha a aparência de uma espécie de organismo em cujas artérias correm algumas estranhas substâncias. Essas substâncias somos nós.

Veja um trecho do filme:

Depois de assistir ao filme, quando atravessar uma rua ou entrar de carro em uma via de trânsito rápido por um acesso lateral, lembre-se que você não passa de um pequeno objeto que corre nas veias da cidade.

One Response to “Correndo nas veias da cidade”

  1. Mônica says:

    Quando vou para o trabalho aqui em BH, na avenida Antônio Carlos pela manhã, no sentido centro-bairro ou sul-norte para quem não conhece a cidade (estando eu já mais pro bairro/norte do que pro centro/sul, o que facilita muito as coisas), eu sou um glóbulo vermelho (vermelho de calor… como tem feito calor aqui, né?!) que corre numa velocidade satisfatória.

    Mas, quando olho para o sentido contrário, vejo que o “vaso sanguíneo” que corre pro outro lado está prestes a ter um “piripaque” (engraçado… eu sempre usei esse termo, mas não encontrei no Aurélio). Hoje a hipertensão do vaso contrário esteve pior do que o normal. Um bom cardiologista (ou angiologista?) teria recomendado internação imediata no CTI.

    Quando volto pra casa, também deslizo direitinho pela artéria. Aliás, em urbanismo artéria é uma via mais larga. Mas o sentido de “via larga” não deixa de ser relativo. Depende do volume de “sangue” que tem de ser transportado.

    Bom, o fato é que o fenômeno se repete de forma inversa no meu retorno para casa. Eu olho para o vaso que de manhã eu percorria tranquilamente e vejo que o problema circulatório agora se inverteu. E penso: se eu trabalhasse no extremo oposto da cidade, o glóbulo vermelho entalado na artéria seria eu.

    Fico pensando no quanto seria estressante, em quão mais cedo eu teria de acordar para ir trabalhar e quão mais tarde eu chegaria em casa no final do dia. E acho que essa hipertensão norte-sul matutina e e sul-norte vespertina de BH só tende a piorar.

    Quando o novo Centro Administrativo (o QG do Governo Estadual) estiver pronto e devidamente transferido para nossa ZN (Zona Norte), acho que o colapso se dará nos dois sentidos, nos dois vasos. Espero estar enganada.

    Se eu não estiver enganada (espero estar), os pobres glóbulos-pessoas vão sofrer ainda mais… E aí a gente sente vontade de se mudar para uma “cidade a pé”, para um lugar de vasinhos estreitos como aqueles que regam as pálpebras, mas nos quais o sangue transita com tranquilidade.

    Quanto ao filme, é incrível mesmo. Fiquei com vontade de rever. E veja o tanto de coisa que pensei a partir desse excelente texto seu. :)