Os trechos reproduzidos abaixo foram retirados de entrevistas concedidas por pessoas condenadas pela justiça criminal.
“A justiça é uma máfia. Polícia é máfia. Promotor é máfia. Tudo é bandidagem. Tudo é do crime. Tudo é bandido”.
“O bandido de curso superior róba na caneta”.
“Se existe polícia, existe o bandido. Se existe o bandido, existe o polícia-bandido. Existe o advogado, existe o promotor e existe o juiz. E existe o juiz corrupto. A corrupção começa do pequeno e vai até os grande. Vem do presidente, senador, deputado, juiz, promotor, advogado e vem polícia e vem o ladrão. Tem o pequeno ladrão, o grande ladrão. Tem o ladrão que róba um ônibus, tem o ladrão que róba um banco. Então tudo começa deles mesmo. Vem lá de cima até aqui”.
“Hoje em dia o crime também acabou. Hoje em dia é pouca coisa e eles te matam ocê”. “Antigamente tinha respeito. Hoje esses menino novo tá matando pra fazer nome. Eu saio da cadeia… chego no movimento do crime… eu posso morrer. Por que? Porque o menino novo lá ele quer fazer nome. Eles quer fazer nome e faz. Cê não conhece eles, não sabe a intenção deles. Menino com 12 anos tá matando”.
As falas dos presos chamam a nossa atenção para algo que é muito pouco notado: a perspectiva profundamente moral pela qual os criminosos enxergam a realidade. Muitos têm noção clara de que o comportamento criminoso é errado. Tentam aliviar sua responsabilidade dizendo que teriam entrado para o crime por influência das más companhias. Outros afirmam que a injustiça e a corrupção estão presentes em todos os lugares e que não teriam alternativa de vida fora das atividades ilícitas.
É interessante o fato de que o crime que causa maior repulsa aos próprios criminosos é o roubo a transeuntes e a ônibus. Mesmo aqueles que praticam tais atos costumam afirmar que consideram errado prejudicar trabalhadores e inocentes, que não têm orgulho do que fizeram. Costumam se justificar dizendo que foram conduzidos por alguma força independente da vontade. As drogas, a bebida, uma certa natureza de ladrão (“É o dito, né? O ladrão né, a adrenalina do momento. Que eles fala, o ladrão só serve para matar, roubar e destruir, certo? Tava cheio de droga, tudo era festa.”) ou as quase sempre presentes más companhias têm a preferência nos discursos de neutralização da culpa.
Os roubos a estabelecimentos comerciais e a bancos são vistos como aceitáveis. Mesmo porque não é raro os próprios funcionários “darem a fita”, isto é, avisarem quando o caixa da empresa está cheio. Especialmente no caso dos bancos, existe a crença de que eles têm muito e roubam de seus clientes. Não seria errado, portanto, roubá-los (“Tem que roubar de quem? O banco rouba da gente…”).
No caso dos homicídios é diferente. Muitos dos assassinatos praticados são motivados por alguma atitude da vítima que foi interpretada como ofensiva ou imoral. Normalmente não se arrependem desses homicídios. Na minha pesquisa para o doutorado, conversei com um traficante de drogas condenado a vários anos de prisão. Afirmou categoricamente que nunca se arrependeu de ter matado algumas pessoas. Matou, por exemplo, quando era guarda na porta de uma boate, um sujeito que, apesar de ter sido proibido de entrar, usou da força física para passar pela porta. Não havia escolha, disse o traficante, pois a vítima teria lhe faltado com o respeito. Argumentei que uma falta de respeito, por mais incômoda que pudesse ser, poderia ser administrada de outra forma. Ele poderia ter simplesmente colocado o indivíduo para fora da boate. Mas ele não concordou. Um homem não pode aceitar certas coisas e ponto final. Tentando me convencer do seu ponto de vista, perguntou se eu não o mataria caso ele pegasse o meu “radinho” (um gravador que estava desligado sobre a mesa – não permitiu que a entrevista fosse gravada) e o quebrasse. Disse que, por mais que eu não gostasse de ver o meu “radinho” espatifado no chão, não o mataria por esse motivo. Mesmo porque um “radinho” quebrado nunca justificaria alguns anos de cadeia. Devolvi então a pergunta: não teria sido melhor deixar o cara da boate vivo e economizar alguns anos de cárcere? “Claro que não”, afirmou. É melhor estar preso do que conviver com uma agressão moral que não foi solucionada adequadamente. Durante toda a argumentação o traficante se mostrou irredutível. Da mesma forma que eu não compreendia as suas posições, ele não compreendia as minhas. O fato é que, por mais torta que fosse a sua concepção moral sobre as relações entre as pessoas, ela existia. E era intensa.
É curiosa também a freqüência com se referem ao fato de que “o crime não é mais o mesmo”, de que “nos dias de hoje não existe mais respeito”. Principalmente os mais velhos se mostram saudosos do tempo em que os velhos códigos de honra tinham validade. “O nome que eu carregava lá era…, qualquer lugar que chegasse e falasse [o nome] a banca era minha”. Hoje já não seria mais assim. Os jovens matam qualquer um sem nenhuma consideração. Sem os códigos, que já não valem nada, não há confiança. Tudo é resolvido a bala.
O problema – moral – da falta de confiança não atinge apenas os criminosos. Em uma pesquisa realizada há algum tempo no Rio de Janeiro, foi constatado que 60,1% da população de 16 anos ou mais consideram o brasileiro pouco ou não confiável. Quando os dados são desagregados, percebe-se que entre as pessoas de 16 a 24 anos o número chega a 70%. Ou seja, os mais jovens são mais desconfiados do que os mais velhos (das pessoas de 55 anos ou mais, 46,9% acreditam que o brasileiro é pouco ou não confiável). É uma evidência de que estamos vivendo um processo continuado de deterioração das relações sociais. O fato é que se as pessoas em geral andam tão “desconfiadas”, é de se esperar, por motivos óbvios, que os bandidos andem mais desconfiados ainda.
olha guto se fosse só entre a bandidagem , acho q eu ate entendia… mas isso é de uma forma mesmo tão generalizada, que a gente que trabalha no serviço publico, direto no contato com o povo, é agredido diariamente pelo desconfiometro … um desconfiometro desajustado, onde quem esta pra salvar pode ser inimigo maior do que outrem… muito dificil trabalhar assim, principalmente pra quem faz da dignidade da espécie humana uma meta… abraços
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RESPOSTA:
Imagino a situação, Luluzita. É como você disse: “desconfiômetro desajustado”. O povo vai levando na cabeça de todos os lados e acaba reagindo contra quem está tentando ajudar.