(Des)confiança nas instituições

O projeto General Social Survey pesquisa as opiniões dos americanos sobre uma variedade de temas políticos e sociais desde 1972. Publicaram agora os dados preliminares referentes ao ano de 2008. O site Five Thirty Eight mostra um gráfico sobre a confiança nas instituições:

Porcentagem de "Muita Confiança" nas instituições listadas

Porcentagem de "Muita Confiança" nas instituições listadas

É notável a queda na confiança de quase todas as instituições. Em muitos casos, a queda é muito significativa. No caso da educação a confiança aumentou em relação ao ano de 2000, mas é menor do que no ano de 1976. A única instituição cuja confiança aumentou é a identificada como “os militares”. O citado site atribui esse aumento ao 11/09. Interessante o declínio na confiança nas religiões organizadas. Nate Silver sugere, sem afirmar, a possibilidade de que os escândalos de pedofilia eclesiástica tenham a ver com essa queda.

No Brasil

Não é possível fazer uma comparação precisa, mas como curiosidade vale dar uma olhada na confiança nas instituições aqui no Brasil. Os dados são do survey publicado no livro “A cabeça do brasileiro” (lançado em 2007 – dados coletados em 2002), de Antônio Carlos Almeida. Considero esse livro muito ruim. É um exemplo de como não fazer uma pesquisa. Em ciências sociais, já dizia o velho Max Weber, de nada valem os dados empíricos sem uma boa teoria que sustente a sua interpretação. O maior problema do “Cabeça do Brasileiro” é sua indigência teórica. O objetivo principal da pesquisa, “um teste quantitativo da antropologia de Roberto DaMatta”, não pode ser alcançado, pois nem mesmo a tal “antropologia de Roberto DaMatta” é apresentada com um mínimo de rigor teórico. Uma crítica importante da “antropologia de DaMatta é, por exemplo, completamente ignorada. De qualquer maneira, acredito que os dados sobre a “confiança nas instituições” (entre outros) não estão irremediavelmente comprometidos já que houve um cuidado técnico (apenas técnico e não teórico) na coleta.

Dados da pesquisa publicada no livro "A cabeça do brasileiro"

Dados da pesquisa publicada no livro A cabeça do brasileiro

Disparada na frente a Igreja Católica com 60% de confiança. Faltou o dado sobre outras igrejas, seria interessante a comparação. Os partidos políticos e o congresso estão na última e na penúltima colocações respectivamente. O que não é uma surpresa.  As demais instituições estão em situação parecida.

Das duas pesquisas, o que me parece positivo é o alto grau de desconfiança nas instituições em geral. Ainda que a Igreja Católica no Brasil tenha sido muito bem avaliada, é provável que D. Sobrinho esteja ajudando a diminuir o percentual de confiança.

Vejamos o caso da imprensa, por exemplo. Considerando o dado do ano 2000 (já que a pesquisa brasileira é de 2002), 90% dos americanos não confiam na imprensa. No Brasil, 72% dos entrevistados não confiam na imprensa. É muito bom que as pessoas não confiem na imprensa. Não que ela não seja importante. É muito importante. Mas não deve ser automaticamente acreditada. Ainda mais nos tempos de hoje, em que a liberdade de expressão não é mais um valor fundamental para boa parte da grande imprensa.

É engraçado que a divulgação desses dados pelos jornais seja, quase sempre, acompanhada de comentários moralistas que apontam uma suposta “crise de confiança”, como se a desconfiança fosse necessariamente ruim. Talvez os órgãos de imprensa estejam, implicitamente, lamentando o fato de já não gozarem de uma aprovação automática da parte dos consumidores de seus produtos.

Penso que em relação às instituições, a desconfiança seja melhor que a confiança. Os desconfiados correm menor risco de errar. Se um cidadão desconfiado chega à conclusão de que, em um caso específico, vale a pena confiar, provavelmente refletiu sobre o assunto. Aqueles predispostos à confiança são, também, provavelmente, indispostos à reflexão.

3 Responses to “(Des)confiança nas instituições”

  1. Carlos Magalhaes says:

    Olá, Daniel. Obrigado! Seu comentário deu mais substância ao post. Quando reproduzi os dados, não tinha atentado para a definição conceitual da variável “confiança”. Acredito que pesquisas como as citadas não avançam muito nesse aspecto. Tratam a variável de forma bem rasa. Foi tomando a noção de confiança nesse sentido raso que afirmei que é melhor a desconfiança. Pois confiança no sentido raso me remeteu à idéia de aceitação imediata, acrítica.

    E aí você propôs o termo “crítica”, que me parece muito interessante. O problema é que operacionalizar uma pesquisa com a variável “crítica” é mais complicado. Confiança/desconfiança no sentido raso são termos tipicamente atitudinais. Basta perguntar: confia ou não confia. Mas não basta perguntar: é crítico ou não é crítico para medir “o grau de crítica” que um indivíduo aplica ao considerar suas instituições. De qualquer forma, concordo com o que você disse sobre a crítica não implicar necessariamente a desconfiança. Do ponto de vista funcional, uma postura crítica desenvolvida sobre uma base de confiança seria o ideal.

    O que me incomoda é a possibilidade de que talvez não existam, nos dias atuais, bases institucionais de confiança muito sólidas. Na falta dessas bases, a crítica passa a ser uma postura muito mais complexa. Com o perigo de descambarmos para a crítica desalentada, que pode se aproximar de uma certa alienação.

    Sobre o Luhman, há um texto muito interessante neste link. Ele diferencia “confidence” (você é “confident” de que suas expectativas não serão desapontadas, de que os políticos não farão a guerra, de que o seu carro não vai quebrar no caminho para o trabalho) de “trust” (envolve necessariamente o seu engajamento em uma ação e não outra – uma escolha -, ação essa que dá origem a um risco, risco esse que deve ser avaliado por você. Você pode ou não comprar um carro usado. A decisão de compra e a aceitação do risco de o carro ser um mico tem a ver com “trust” ) .

    Há situações complicadíssimas envolvendo “confidence” e “trust” no mundo moderno. Por exemplo, a decisão de voto em uma eleição num sistema representativo do tipo “cheque em branco”. Nesse caso só pode haver ou não “confidence”.

    No mercado, a atual crise é um motivo e tanto para brincar com esses conceitos, “confidence” e “trust” podem se ligar em um círculo visioso em que a deterioração de uma promove a deterioração da outra. O problema da economia mundial hoje não é encontrar uma saída para um círculo vicioso desse tipo? Os estados nacionais e os líderes mundiais serão capazes de restaurar a “confidence” na terra arrasada que sobrou depois da festa dos últimos anos?

    Enfim, vou parar por aqui por ora. Mas, quem sabe, não podemos depois desenvolver mais essas idéias…

  2. Daniel V. says:

    Caro Carlos,

    fiquei pensando se o que você denominou de “desconfianca” nao seria melhor traduzido pelo termo “crítica”.

    Há uma diferenca essencial contida em ambos os termos na postura que o cidadao tomaria frente sua própria instituicao. Enquanto o cidadao crítico seria alguém que avaliaria suas instituicoes por diversos parâmetros, e após tais avaliacoes, poderiam se posicionar frente às instituicoes, seja desconfiando, e dessa forma afirmando que há nao-confiável nas instituicoes, ou confiando, afirmando que tais instituicoes mereceriam ser confiáveis, o cidadao desconfiado seria alguém que diretamente já nao confia nas instituicoes, e nao necessáriamente após uma avaliacao delas. P.ex., os alemaes, em relacao às suas instituicoes, gostam de dizer que sao completamente críticos, porém nao necessariamente desconfiados, pois a desconfianca parece já pressupor uma espécie de crenca que o objeto da desconfianca esconde algo. Enquanto crítica simplesmente pressupoe descobrir sobre a veracidade do objeto da crítica. Assim, enquanto a crítica é simplesmente uma espécie de postura epistemológica frente à um objeto, pois busca investigar se o objeto é verdadeiro/sincero ou falso/mentiroso, a desconfianca é na verdade uma postura “moral” frente ao objeto, visto ter a ver com uma crenca acerca da sinceridade do objeto, o colocando de forma imediata como mentiroso.

    Um outro ponto, há, de certa forma, uma necessidade, nao somente na crítica das instituicoes, porém também na confianca nas mesmas, pois sem tal confianca é improvável que tais irao funcionar como deveriam. Niklas Luhmann busca exatamente investigar essa questao em um trabalho que se chama “Confianca”. Onde ele afirma que sem confianca nas instituicoes há um problema funcional, e também que a própria idéia conceitual de “confianca”, esta aplicada na sociologia, se dá na possibilidade de uma reducao da complexidade social. Sem a confianca nao seria possível acoes sociais simples, tais como ir ao médico ou comprar comida, visto que ir ao médico pressupoe crer que ele falará a verdade e comprar comida pressupoe que tudo escrito no rótulo é verdadeiro. Habermas também afirma semelhante quando ele coloca como sendo a “confianca” um dos parâmetros necessários que exista em uma “acao comunicativa”, e assim, sendo necessário para a própria possibilidade da cultura (normas, linguagem, etc).

    Assim, ainda que eu compartilhe de sua idéia que na “conclusão de que, em um caso específico, vale a pena confiar, provavelmente [o indivíduo] refletiu sobre o assunto”, vejo essa funcao sendo realizada pelo conceito de “crítica”, e nao de “desconfianca”. E que, no fim, a confianca é um tipo de variável social necessária se quisérmos falar de acao social e da sociedade em si mesma.

    Abracos,

    Daniel

  3. Vera says:

    Se em 2002 já não confiavam na imprensa, imagina hoje.