Bonito por natureza (que beleza!)

Voltando ao assunto do nacionalismo brasileiro, gostaria de indicar um artigo que pode render algumas boas reflexões: O motivo edênico no imaginário social brasileiro (do historiador José Murilo de Carvalho) [PDF AQUI].  A partir de uma pesquisa realizada pelo CPDOC em 1996 (que resultou em um livro publicado em 1997), Carvalho identifica a sobrevivência do “motivo edênico” no Brasil, 500 anos depois da carta de Caminha.

Para identificar o que se entende por motivo edênico, reproduzo a citação – feita por José Murilo – do livro de Rocha Pita (História da América Portuguesa, publicado em 1730), que seria a “primeira história do Brasil escrita por um brasileiro”:

Em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes; as estrelas são mais benignas e se mostram sempre alegres; os horizontes, ou nasça o sol, ou se sepulte, estão sempre claros; as águas, ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos aquedutos, são as mais puras; é enfim o Brasil Terreal Paraíso descoberto, onde têm nascimento e curso os maiores rios; domina salutífero clima; influem benignos astros e respiram auras suavíssimas, que o fazem fértil e povoado de inumeráveis habitadores.

Di Cavalcanti - Nu Deitado - Acredito ser esse o quadro citado por José Murilo de Carvalho.

Di Cavalcanti - Nu Deitado - Acredito ser esse o quadro citado por José Murilo de Carvalho.

Na pesquisa, os entrevistados foram perguntados sobre o orgulho de serem brasileiros. A maioria respondeu que sentia orgulho. Mas quando perguntados sobre o motivo do orgulho, muitos não sabiam responder. Dos que apresentaram algum motivo de orgulho, a maioria fez referência a alguma coisa relacionada à natureza (florestas, praias, ausência de terremotos, fertilidade do solo, clima tropical, etc.).

A avaliação do historiador para a sobrevivência do motivo edênico é a preocupante falta de percepção (pela ausência?) de instituições criadas pela sociedade que poderiam ser apontadas como motivo de orgulho para a população.

Da análise dos dados desagregados, é curiosa a constatação de que o edenismo é mais freqüente entre os mais jovens. Os mesmos que têm maior dificuldade de apontar conquistas políticas e institucionais como motivo de orgulho. De acordo com Carvalho, “a geração da redemocratização não parece ter vivido a mudança política como uma conquista nacional de que se pudesse orgulhar”. Nem mesmo o então recente impedimento de Collor é mencionado, nota o autor.

Na verificação dos dados controlados por escolaridade formal, constata-se que os entrevistados que concluíram apenas a 4ª série do antigo 1º grau têm muita dificuldade de apontar qualquer motivo para o orgulho de serem brasileiros (cerca de 50% dos que se encontravam nessa condição não souberam ou não quiseram responder sobre o motivo do orgulho). O surpreendende, de acordo com Carvalho, é o aumento da freqüência do motivo edênico entre os que têm mais anos de escola. Quanto mais estudo, mais freqüente é a referência à natureza como motivo do orgulho. Os que mais lêem jornais são também mais edenistas.

Após a sugestão e discussão de alguns “motivos tópicos” para  a sobrevivência do edenismo (educação durante o regime militar, revigoração do edenista Hino Nacional pela gravação de Fafá de Belém durante a campanha das Diretas, maior presença da natureza nas religiões mediúnicas), o autor sugere a existência de uma “razão satânica”  – mais duradoura por sua natureza histórica e cultural – relacionada à percepção da “inadequação do elemento humano habitante do país”. A razão satânica teria a ver com a falta de sentimento cívico da população. De acordo com os dados da pesquisa que sustenta o artigo, os brasileiros se vêem como um povo que é sofredor, trabalhador, porém alegre. Essa auto-percepção concorda com os dados de vários levantamentos que mostram a pequena disposição dos brasileiros para a associação e a ação política coletiva.

To make a long story short (o estrangeirismo é proposital), cito a conclusão do artigo: “Parece-me razoável concluir que tal auto-imagem contribui para a existência e a persistência do motivo edênico. Quem não se vê como um ser civil e cívico não se pode ver como agente, individual ou coletivo, de mudanças sociais e políticas de que se possa orgulhar e deve buscar alhures razões para a construção de uma identidade nacional”.

O mais irônico (sintomático?), como aponta José Murilo de Carvalho, é que a mesma natureza, que tanto nos orgulha, tem sido tem sido, desde sempre, solenemente devastada…

6 Responses to “Bonito por natureza (que beleza!)”

  1. [...] edênico no imaginário social brasileiro (do historiador José Murilo de … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

  2. Carlos Magalhaes says:

    Diego, não entendi o “orgulho martelado”…

  3. [...] edênico no imaginário social brasileiro (José Murilo de Carvalho) [PDF … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

  4. Diego Viana says:

    Não teria uma parte também de orgulho martelado? Pergunte a um francês o que lhe dá orgulho em seu país e ele não vai falar nem de Montaigne e Merleau-Ponty, nem do Château Lynch-Bages e do queijo Robluchon, mas das colônias, de Napoleão, da “vitória” de 1918…

  5. Carlos Magalhaes says:

    Carol, de votação não me lembro. Lembro vagamente de uma exposição maior das questões separatistas nos anos 1990. Acho que além do sul, falava-se também do Triângulo Mineiro. Mas não acredito que tenha ocorrido qualquer explosão nacionalista mais relevante…

    Beijo

  6. Guto, outro dia fiquei pensando sobre aquele post e já que você tocou novamente no assunto, eu tenho uma dúvida que não me sai da cabeça (é mais curiosidade do que uma dúvida mesmo), ahm… Talvez você possa me ajudar.

    Eu era jovem e não me lembro bem, mas a uns 10 anos atrás eu lembro de um papo sobre uma votação para separar o Sul do Brasil do resto do Brasil. Eles seriam um país independente. Eu até cheguei a procurar no Google sobre “Separistas do Sul”, mas não achei o que eu queria.

    O que eu queria saber é: como foi o sentimento em geral? As pessoas que não pertecem ao Sul se sentiram mais brasileiras? Houve uma explosão de nacionalidade? Eu não lembro se houve realmente a votação, mas eu lembro de toda a discussão sobre isso. E se tiveram dois momentos “nacionalistas” que eu me lembro foi esse dos separatistas e quando o Collor saiu (eu não me lembro do fim da ditadura porque eu só tinha 3 anos).

    Você lembra de alguma coisa disso? Eu não consigo achar nenhuma matéria sobre isso. E fiquei com isso na cabeça.

    Bem, um beijo pra você pra Mônica e pra sua mãe.