O golpe de 1º de abril

O Golpe de 1964 aconteceu de fato no dia primeiro de abril, mas os militares não gostaram da coincidência com o Dia da Mentira. Decretaram então que o Dia D seria o 31 de março, quando Mourão Filho – a Vaca Fardada – começou a mobilizar as suas tropas em Juiz de Fora – MG. Na verdade, os militares deram o golpe no susto. Chegaram a pensar que a ação tinha fracassado. Quando viram que João Goulart não resistiria, e que o poder estava à disposição de quem chegasse primeiro, decidiram completar a quartelada.

Ernesto Geisel e João Figueiredo (acervo do CPDOC-FGV)

Ernesto Geisel e João Figueiredo (acervo do CPDOC-FGV)

Quando nasci, o Golpe já havia completado seis anos. Minha primeira lembrança relacionada ao Regime Militar é a foto oficial do Presidente Geisel, que ficava pendurada na sala de aula em que fazia a primeira série do primeiro grau. Todos nós éramos vigiados pela foto oficial do Geisel. Para mim, com meus seis – quase sete – anos de idade, aquela figura ser o presidente do Brasil era algo natural e certo. Nem sabia que fazia parte de uma linhagem de militares golpistas. Fazia tanto sentido quanto hastear a Bandeira e cantar o Hino Nacional às quintas-feiras.

Depois disso, me lembro vagamente da nomeação do General Figueiredo. Percebi pela primeira vez que os Presidentes da República eram todos generais. Aos nove anos de idade, esse fato também me pareceu natural e certo.

Não sei quando comecei a entender que o Regime era ditatorial e ilegítimo. Mas na campanha das Diretas em 1984 já tinha consciência dos fatos e acompanhei os acontecimentos com interesse. Lembro com clareza da primeira decepção política: a derrota da Emenda Dante de Oliveira, no dia 25 de abril de 1984.

Continuei acompanhando o noticiário político com entusiasmo crescente. Comecei a entender melhor o significado da foto carrancuda do Geisel na minha sala de aula. Pude localizar as minhas lembranças de infância no quadro mais abrangente da história. Passei a ouvir as histórias do meu avô sobre a sua convivência e admiração por Arthur Bernardes não mais como histórias do MEU AVÔ, mas de um ex-empregado subordinado a um ex-presidente da república conservador, nacionalista e autoritário que tinha governado o país sob estado de sítio. O título deste blog tem a ver com isso: o exercício da “imaginação sociológica” nos permite identificar as conexões entre a nossa biografia pessoal e o contexto sócio-histórico que a envolve.

Há poucos dias, me surpreendi com alunos que não sabiam o que era a campanha das “Diretas-Já”. Alguns disseram nunca ter ouvido falar do assunto. Se de fato não ouviram ou se não registraram, não sei. Talvez a informação não lhes tenha parecido importante. Às vezes preciso me esforçar para não esquecer que tenho alunos que nasceram em 1992, quando eu estava sentado na “Praça 7” (Belo Horizonte) assistindo à votação do impeachment de Fernando Collor.

De qualquer forma, o ano de nascimento não explica ou, muito menos, justifica o desinteresse pela história. Talvez a explicação tenha a ver com diluição do passado num mundo com déficit de atenção, onde as informações têm que ser transmitidas em clipes de 30 segundos. O difícil é provocar interesse pela história quando interessante é sinônimo de acelerado.

8 Responses to “O golpe de 1º de abril”

  1. [...] tomar as rédeas de nossa capacidade de sujeitos e autores. Precisamos contar as histórias não contadas. Histórias que tem o poder de colocar coisas sob outros ângulos até agora desapercebidos – e [...]

  2. Tatiana says:

    Oi Carlos, realmente a juventude de hoje desconhece a verdadeira história.
    Por isso é interessante o trabalho da Comissão de Anistia do Ministerio da Justiça, que tem levado os julgamentos de processsos dos perseguidos políticos a todo Brasil. São as chamadas Caravanas da Anistia, e são uma forma de divulgar o que aconteceu a época, para que não se repita.

    Um abraço!

  3. Carlos Magalhaes says:

    Obrigado, Neto.

  4. Carlos Magalhaes says:

    Obrigado, Eduardo.

  5. Carlos Magalhaes says:

    Essa citação do Hobsbawn é ótima, Flávia. Estava com essa idéia de “presente contínuo” na cabeça quando escrevi o texto, mas não lembrava onde tinha lido.

  6. Flavia says:

    Carlos,

    O texto também me fez rememorar. Eu era bem criança – uns 10 anos – quando percebi toda a felicidade e a festa das diretas (na época não sabia bem o que era, só notei a empolgação das pessoas e os cartazes pela rua). Para mim também fazia parte da natureza cantar o hino no páteo em fila indiana, antes de subirmos para a sala de aula.

    Também sou professora e me espanto tanto com meus estudantes colombianos que moram há anos no Brasil e não sabem quem é Dantas, de Sanctis, Gilmar Mendes… assim como com os novinhos brasileiros que perguntam “muro?” quando falo da queda do muro…

    Eric Hobsbaum fala sobre isso: “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem” (Era dos Extremos)

  7. Reforço o que foi escrito no comentário acima. Ótimo texto!

    Eu também passei parte da minha infância sob a ditadura, mas minha única lembrança desse período é “A Semana do Presidente”, quadro do programa Silvio Santos que mostrava aos brasileiros o que seu querido presidente havia feito pelo país na semana anterior. Só me dei conta de que Figueiredo era um “ditador” bem depois da morte de Tancredo e da posse de Sarney, foi em 1986 que a ficha caiu, graças a um professor de Educação Moral e Cívica da sexta série.

  8. Neto says:

    Prezado Carlos,

    Seu relato é maravilhoso. Demonstra o como é rápida e imperceptível a “amnésia da gênese”.

    O desconhecimento não só da história, porque sob a educação estatal ela significa somente sequência de fatos oficialmente relatados, mas também o desconhecimento da contextualização dos significados, das lutas, das oposições, dos conceitos em jogo etc. pode mudar o curso das coisas.

    A escola realmente possui um lugar privilegiado na “reprodução” da vida social.

    Abraços