Quando o ator é vítima do personagem

Nas últimas eleições municipais, Belo Horizonte viveu uma situação inusitada. Havia um candidato duplamente chapa branca cujos apoiadores (Fernando Pimentel e Aécio Neves) acreditavam que ganharia no primeiro turno com 80% dos votos. Os eleitores belorizontinos demonstraram uma insuspeitada maturidade e não engoliram a “indicação”. Exigiram o segundo turno para decidir com maior independência.

No segundo turno, um candidato azarão de campanha errática – Leonardo Quintão – despontou na frente e levou o pânico ao QG do constructo eleitoral pimentécio. Arrisco afirmar que o Quintão perdeu para si próprio (e para os genes paternos). Seu personagem matuto teve vida curta quando precisou lidar com os infinitos 15 minutos do horário eleitoral gratuito do segundo turno. A ausência de substância da candidatura foi notada até mesmo por aqueles que se entusiasmaram com os bordões do primeiro turno. Quintão reproduziu a situação típica em que o excesso de esperteza se volta contra o esperto.

Algumas pessoas disseram que a última campanha para a prefeitura de Belo Horizonte representou mais uma decepção política, pois no segundo turno restou aos eleitores a escolha entre o ruim e o menos pior. Discordo. Há muito tempo não tínhamos uma campanha com tamanho envolvimento dos eleitores. O pleito foi discutido em todos os lugares, o tempo todo. Muita gente se posicionou como nunca. Eu mesmo tinha saído pela última vez às ruas para panfletar e fazer boca-de-urna em 1992, quando Patrus Ananias foi eleito. Em 2008 não fui às ruas, mas, estando desblogado, usei o velho e bom email para espamear o meu apoio ao menos pior Márcio Lacerda.

Na panfletagem eletrônica que tomou conta da internet belorizontina, uma imitação dos trejeitos do Leonardo Quintão, feita por Tom Cavalcante, ganhou destaque:

Tom Cavalcante não inventou nada. Usou os cacoetes que já eram piada na cidade inteira para ridicularizar o adversário do seu amigo Aécio Neves (os representantes de Quintão afirmam que o comediante recebeu 500 mil reais para fazer o vídeo). O caráter fictício do matuto apresentado por Quintão já era comentado por muita gente. Pessoas que tinham conhecido o Quintão em outras circunstâncias garantiam que ele não tinha o sotaque caipira carregado que empregou na campanha. Parece que o filho do Sebastião não atentou para uma lição sociológica elementar: não se deve, na apresentação social de um personagem, deixar que diferentes platéias se misturem. No final das contas, o azarão, que chegou a achar que ia ganhar, perdeu por causa da própria incompetência (e de seus marqueteiros, que, tudo indica, se deixaram contaminar pelo sucesso fácil do início da campanha).

Agora aparece a notícia de que Leonardo Quintão está processando Tom Cavalcante. O derrotado alega que o vídeo o prejudicou. Mas se a sátira não inventou nada, se usou apenas os bordões repetidos à exaustão por Quintão durante a campanha, quem prejudicou quem? Não sei, obviamente, o que a justiça vai decidir. No entanto, caso fosse eu o juiz, diria ao azarão que ele deveria processar o personagem por ele mesmo inventado.

3 Responses to “Quando o ator é vítima do personagem”

  1. [...] apoiadores (Fernando Pimentel e Aécio Neves) acreditavam que ganharia … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

  2. Em algumas cidades do Brasil, as eleições municipais de 2008 foram marcadas por fatos “inusitados”, no vocabulário comum da elite o que para mim foi sintoma de mudanças no pensar político por justamente envolverem candidatos que mudariam a postura “coisa séria” no diiscurso. Acompanhei, de certa forma, as campanhas do primeiro turno de Belo Horizonte, inclusive assistindo ao debate do primeiro turno e indo às portas de uma zona eleitoral acompanhando aqueles que votariam no dia (eu por votar em Petrópolis, justifiquei meu voto). Não lembrava o nome do Lacerda, muito menos seu pré-nome senão como o candidato de Aécio e Pimentel, coligação partidária única até então na capital mineira, ou como candidato-poste por razão de sua artificialidade no discurso, coisa que Leonardo Quintão não teve e que me levou a também ficar surpreso. Quintão foi dono, encenação ou não, de um discurso carismático a ponto de primeiramente levá-lo na comédia, mas, depois, prestarmos atenção no que ele dizia, conectando-se com os eleitores nessa maneira: do “ó, prestenção”. Soubemos, no entanto, do resultado supreendente no primeiro turno. Apesar de não ter alcançado a vitória, deixou sua marca. Eu também, professor, fico surpreso com a notícia do processo que ele impetra ao comediante Tom Cavalcante. O político não deve se ofender com isso. Considero as palavras da Mônica como complemento do que pensei.

  3. Mônica says:

    Concordo com o que você disse. Foi mesmo um caso de tiro no pé. Já que estamos falando no Quintão, essa coisa de bordão é engraçada. Normalmente um bordão (sobretudo aqueles de novela) pegam que nem frieira em quem não lava nem seca direito os pés. Até hoje vejo gente dizendo “não é brinquedo não”, que veio de uma novela cujo nome esqueci. Tem também o “ninguém merece”, que não lembro de onde veio.

    No caso do “dá pra fazer” do Quintão, eu tenho visto justamente o contrário. O bordão não pega de jeito, mas não deixa de afetar a forma como as pessoas falam. A coisa se dá de uma forma meio incômoda. No meu trabalho, tem sempre a questão do “isso é possível fazer, mas aquilo não”.

    Quando vem a expressão ao cérebro, é curioso ver como as pessoas se comportam. Começam a dizer “dá pra…”, mas antes de dizerem o “fazer”, trocam a frase. Ou acontece de outro modo: tem gente que chega a comentar que sempre falaram o “dá pra fazer”, mas que o Quintão Filho contaminou a coisa e que, agora, não dá pra dizer o “dá pra fazer” com a naturalidade de antes. Outros falam: “como dizia o Quintão, dá pra fazer”.

    Eu mesma me vejo nessa situação logicamente não racional (se é que dá para estabelecer o que é de fato racional).

    Como eu disse, quando chegam a dizer o “dá pra fazer”, sempre fazem uma piada, fazem referência ao Quintão. E emendam com outras duas dele: o “ô, gente” e o polegar em riste querendo dizer “jóia”.

    É curioso ver como o Personagem Leonardo ainda está presente em nossos neurônios. Só que ele está dentro das nossas cabeças de um jeito que ele certamente não gostaria de estar. Se estivesse do jeito como gostaria, certamente estaria ocupando o gabinete da PBH. E nós, aqui de BH, que eu não sei como de fato estamos, nem imagino (ou não quero imaginar) como estaríamos se o “gente é pra cuidar de gente” fosse nosso prefeito.