Lula, o crédito e o velho barbudo

Não faço parte da turma que gosta de repetir as críticas fáceis ao Lula e ao seu governo. Mas considero as ações e as falas presidenciais referentes ao crédito muito negativas. Penso que o crédito consignado para idosos foi uma das piores realizações da atual administração nacional. O incentivo à tomada de empréstimos para o consumo, principalmente no caso de um consumo tão fugaz como uma viagem à praia, é uma irresponsabilidade.

Karl Marx (1818 - 1883)

Karl Marx (1818 - 1883)

Agora, diante da crise econômica mundial, o presidente Lula tem falado insistentemente que é preciso restaurar o crédito para sustentar o consumo. Para Lula, é o crédito que vai fazer as pessoas voltarem a comprar.

E por que as pessoas não podem parar de comprar? Porque, como já dizia o velho e redivivo barbudo alemão, o feitiço capitalista só funciona com base no consumo desenfreado. Se os trabalhadores não recebem o suficiente para atender às elevadíssimas necessidades de consumo da máquina capitalista, que façam os seus empréstimos, pagáveis em dezenas de impagáveis prestações mensais.

Problema adiado é problema resolvido, pelo menos num mundo onde só existe o tempo presente.

A questão: É apropriado receitar como principal remédio para a crise o exato veneno que a produziu, ou seja, o crédito duvidoso? Acredito que não. No final da contas, o velho alemão barbudo parece estar, pelo menos parcialmente, certo. O capitalismo moderno é um feitiço que saiu do controle do feiticeiro. Apesar de de ser essencialmente contraditório, o sistema vai se reproduzir até que se realize a sua própria ruína. Infelizmente, não podemos concordar com a conclusão iluminista marxiana de que o futuro será melhor que o passado. O que nos reservaria, então, o futuro?

5 Responses to “Lula, o crédito e o velho barbudo”

  1. blog muito bom!

  2. Carlos Magalhaes says:

    Pois então, Descanjicado. Anistia? Acho difícil… Os “sócios minoritários” da aventura capitalista sempre levam a pior…

  3. Carlos Magalhaes says:

    Vera, se o crédito consignado é um paliativo para os juros abusivos dos bancos e financeiras, ainda vai. Mas o que me assusta é que o governo fez sim propaganda do crédito consignado para consumo “supérfluo”. Veja, por exemplo, este post. Destaco o trecho: “O principal instrumento proposto pelo governo para tornar o turismo mais acessível à população é a oferta de empréstimo consignado, com desconto na folha de pagamento. Um sistema nesses moldes está sendo negociado entre o Ministério do Turismo e a Caixa Econômica Federal (CEF). A previsão é lançar inicialmente uma linha de financiamento com juros de 1,3% ao mês para aposentados“.

  4. CP says:

    Não conheço ninguém que tenha fieot empréstimo consignado para ir à praia. Conheço gente, como eu e outros, que fazem empréstimo consignado para pagar dívida de cartão de crédito, de cheque especial ou pagar tratamento dentário. Isto é, em geral para pagar menos juros diante da loucura dos spreads bancários e dos cartões de crédito. Qualquer economista desses de plantão aconselham isso.

  5. Descanjicado says:

    O nosso presidente vem de uma área que depende intrissicamente de consumo constante. Não à toa, a ind. automobilística foi das primeiras a receber ajuda. No auge da crise tinhamos sindicato fazendo campanha por dinheiro para montadoras. A fomação exerce poder importante sobre a pessoa.
    Caso a crise persista, o nosso presidente dará anistia aos assalariados que tomaram empréstimo para manter a bicicleta do consumo girando?