Propaganda enganada

Não sei se é propaganda enganosa ou apenas propaganda enganada. Nem sei o que é pior: manipulação ou ignorância. O fato é que recebi recentemente um email das Lojas Americanas oferecendo uma “edição comemorativa” do livro 1984, de George Orwell. No texto, vinha a informação de que se tratava do livro que inspirou o programa televisivo “Big Brother”.

Bom, diria que inspirou o título do programa. Além do título, mais do que um programa inspirado no livro 1984, o programa do Bial é um exemplo de como a sociedade do “Grande Irmão” pode se estabelecer de uma forma mais sutil do que supunha Orwell. Nesse programa, ironicamente chamado de reality show, o que menos comparece é a realidade “como ela é”. Ainda mais no Brasil, em que as edições já se acumulam, o que mais se vê é a reprodução de uma realidade propriamente televisiva que se define pelos padrões criados pela teledramaturgia.

Se não bastassem os recursos de edição nas mãos dos produtores, os próprios participantes do “show” se inspiram nos personagens bem sucedidos das edições anteriores. O progama se transformou numa máquina auto-reprodutora. A realidade apresentada no Big Brother Brasil é o próprio Big Brother Brasil. Essa confusão entre ficção teledramatúrgica e realidade me parece muito mais a confirmação de uma (doce) alienação orwelliana do que a sua denúncia.

Quando os indivíduos já não sabem distinguir entre quem eles são de fato, como integrantes posicionados numa estrutura social concreta/determinada, e os personagens que podem representar (com conseqüências reais e não apenas imaginadas) nas interações sociais de que participam, a compreensão da realidade sócio-política que os rodeia está comprometida. Comprometida está também a possibilidade de agirem como atores sócio-políticos autônomos e conscientes dos constrangimentos sociais que precisam enfrentar.

O sucesso do BBB do Bial não estaria relacionado ao fato de que vivemos em uma sociedade acostumada a acreditar que a mobilidade social é fruto natural do resultado da mega-sena acumulada? Posso sonhar em ser o personagem que eu quiser, contra todas as evidências empíricas, pois estão ao meu lado os prêmios das várias loterias estatais, a possibilidade de entrar no BBB 10 por meio da revista do Faustão, o talento para o futebol de um familiar ou o sucesso inesperado no último modismo musical popular.

Numa “Morelliana” do “Jogo da Amarelinha“, Julio Cortázar escreve: “O reino será de matéria plástica, não resta dúvida. E não é que o mundo vá se converter num pesadelo orwelliano ou huxleiano; será muito pior, será um mundo delicioso, à medida dos seus habitantes, sem nenhum mosquito, sem nenhum analfabeto, com galinhas enormes e, provavelmente, dezoito patas, saborosíssimas todas elas, com banheiros telecomandados, água de cores diferentes, segundo o dia da semana, uma delicada atenção do serviço nacional de higiene,”

“com televisão em todos os quartos, por exemplo grandes paisagens tropicais para os habitantes de Reykjavik, vistas de iglus para a gente de Havana, compensações sutis que conformarão todas as rebeldias”,

“etcétera.”

[...]

“Whishiful thinking, talvez; mas essa é outra definição possível do bípede implume”.

Enfim, é certo que o programa televisivo “Big Brother” não se inspirou, além do título, no livro de Orwell. Mas o mundo em que esse programa faz sucesso pode ser um mundo orwelliano pior do aquele imaginado pelo próprio autor de “1984″. Não é preciso reprimir as manifestações individuais. O “indivíduo” de hoje não seria uma mera imagem teledramatúrgica, ou cinematográfica para os mais afortunados? O indivíduo ainda existe?

7 Responses to “Propaganda enganada”

  1. falar em confusão entre realidade e ficção por um lado me lembra do conceito de hiper realidade, quando as pessoas passam a orientar suas crenças e atitudes de acordo com realidades criadas, a exemplo dos progamas televisivos e, geralmente, não conseguem distinguir uma coisa da outra. Mas, a partir do BBB, também podemos nos referir ao conceito de ‘construcionismo social’, que se colocou basicamente como uma crítica à Psicologia Social ”modernista”. Um dos argumentos do construcionismo é de que “as pessoas poderiam orientar sua conduta de acordo com as teorias psicológicas das quais tomassem conhecimento, em vista da elevada credibilidade de que gozam os cientistas e a ciência em nossa sociedade”. Esse e mais outros argumentos dessa corrente indicam que o que na verdade ocorre é uma ”construção social da realidade”, de modo que as teorias sobre o comportamento social seriam ”primariamente reflexões sobre a história contemporânea”.
    Diante da hiper realidade que se apresenta de forma tão forte atualmente (podemos nos referir à invasão norte-americana no Iraque que parecia jogo de video game) e desse construcionismo social, particularmente no sentido de que o homem imita certos padrões de comportamento por considerar serem os mais adequados naquele contexto histórico, acho bastante apropriado falar que a ”compreensão da realidade sócio-política que os rodeia está comprometida” e, consequentemente ”a possibilidade de agirem como atores sócio-políticos autônomos”

  2. Carlos Magalhaes says:

    Desculpa nada, Flávia. A divagação acrescentou muito ao que escrevi. Estava falando para os meus alunos de 1º período hoje tentando alertá-los para essas armadilhas. Essa palavrinha, – sonho – na acepção que ganhou nos meios de comunicação de massa, devia ser um palavrão. O sonho é exatamente o mais distante e irrealizável, mas aquilo que é distante e irrealizável fica mais próximo quando sonhado. E tome-se ouvido a dentro as falas nos programas da Xuxa, do Faustão e do Gugu sobre a importância do sonho! Por que não se fala em metas? Porque o estabelecimento de metas exige a razão. E a razão não foi convidada para a festa…

    Vou lá no “Algodão” ler sobre a “Lei Rouanet”. Esse assunto me interessa muito.

  3. Carlos Magalhaes says:

    Olá, Daniel! Muito interessante o seu argumento sobre o sucesso desses programas. Quanto à afirmação de que os reality shows são falsos porque as pessoas não se mostram como realmente são, não quis dizer isso. Me expressei mal e sem cuidado. Daí a confusão. O que quis dizer é que, devido principalmente às várias edições do programa, ele perdeu o interesse por ser hoje uma reprodução de si próprio. É claro que as pessoas sempre se apresentam para platéias específicas e que não há uma “pessoa real” fora do contexto da apresentação. Mas no Big Brother as pessoas já chegam com suas “fachadas” (Goffman) montadas com base nos personagens anteriores. Entendo o argumento de quem diz que isso não diminiui o interesse do programa, pois é interessante ver como esse personagem definido previamente é redefinido nas interações que ocorrem ao longo do “confinamento”. Entendo, mas não me interesso. Acho tudo insuportavelmente repetitivo… De qualquer forma, lembre-se que Goffman fala de apresentações “sinceras” e “cínicas”. Todos nós podemos nos apresentar de forma “sincera” ou “cínica”, dependendo da situação. E não há nessa classificação um juizo de valor. A apresentação “cínica” pode ser muito bem intencionada. Um dos exemplos dados por Goffman é o das garotas que fingem burrice para agradar aos companheiros. O fato é que a apresentação “cínica”, ainda que possa ser interessante assistir à derrocada dos personagens cinicamente construídos, dos big brothers já encheu o saco! ;)

  4. Flavia says:

    verifiquei que o link acima não leva à página sobre a discussão que proponho, por isso vou colar o link aqui

    algodao.algumlugar.net

  5. Flavia says:

    Penso que o que está no BBB e nas novelas seja um espelho sim, mas não da nossa realidade. É antes um espelho de uma parte de nossa mente, uma parte para a qual concorre tanto nossos desejos de sermos felizes, mesmo que seja pelo sonho, pela ilusão. Freud dizia que o sonho é um mecanismo que proteje o sono. Um exemplo é o que ocorre no sonho de crianças e adolescentes, quando sonhamos que fomos ao banheiro (urinamos na cama, mas continuamos a dormir) ou quando transformamos o barulho do despertador em elemento do sonho, que como campaínha ou toque do telefone do visinho, não nos diz que devemos acordar.

    O BBB, novelas e similares são um espelho dessa parte do nosso cérebro que quer ser feliz sem acordar. Só que esse mecaanismo acaba atingindo muito mais que nossos sonhos. Primeiro, por que ele cria compensações por onde podemos dar vazão a uma libido, que de outra forma, teria que agir sobre a realidade (libido é o nome que Freud dá à energia psicológica que cria o desejo, que não é só sexual, como ele é entendido hoje em dia, mas é desejo de satisfação de necessidades, que pode ser desejo de mudar as condições de sua vida e o mundo, por exemplo). Segundo, esse mecanismo promove um “sendo de realidade” (o que é distinto da realidade ela mesma, que é outra polêmica). Esse senso de realidade do qual compartilhamos inteiramente ou em parte, não nos diz que é necessário que cooperemos para mudar nossas condições políticas (por onde poderiamos realizar os desejos de nossa libido de outra forma), mas este é só um exemplo do que esse “sentido de realidade” não nos apresenta. Esse “sentido de realidade” é reacionário por que ele nos apresenta como forma possível (e portanto, real) de satisfazermos nossos impulsos coisas que são excessões (loto, fama, etc) e que de maneira alguma mudam o status quo.

    Relendo o mito de Pandora, eu diria que não foi A Esperança que restou aos homens quando a caixa foi aberta. Foi, antes, um tipo específico de esperança, que me parece um arremedo mal feito dA Esperança. Uma esperança de quinta categoria, calcada num mito do herói também bastante específico, pois este não salva a comunidade: ele Se salva (ou quando muito aos seus familiares).

    Bom, desculpem a divagação, mas foi isto que o texto me causou.
    abraços

    Ah, mais uma coisa, sobre a esperança, acho que é importante notar que os mitos agem em nosso desfavor. O último, que tenho abordado, é o mito da “Cultura” com relação à lei rouanet. Gostaria de convidar as pessoas – Carlos e leitores – a discutir e botar nossa libido pra agir em nossa defesa, pois ela está entregue a um sonho de “incentivo à Cultura” por meio do qual, em minha opinião, entregamos aliviados nossos recursos comuns aos abutres.

  6. Daniel V. says:

    Caro Carlos,

    sua questao é bem interessante. Vejo duas questoes nela. Primeiro do por que há cada vez mais “reality-shows”. Mas há nessa questao, uma questao ainda mais abrangente, se há realmente a possibilidade de um indivíduo, em um sentido moderno. Podemos afirmar que existem pessoas, mas como essas se dariam em termos reais?

    Muitas pessoas que conheco sempre criticam a possibilidade de um “reality-show” pela impossibilidade de alguém se comportar de forma realmente sincera, ou como eles sempre disseram, “a pessoas em um reality-show nunca é ela mesma”. Vejo que parte de sua questao há exatamente essa crítica. Mas me pergunto por que nao? Em Goffman, tirando a idéia de William James, temos que nao existe um sujeito fora de seu contexto de aplicacao. Um indivíduo, ao trabalhar, assume uma faceta de sua personalidade completamente diferente daquela que ela mostraria quando em casa. E em casa, o mesmo indivíduo teria diferentes facetas frente aos pais e frente à sua esposa. Em cada tipo de interacao social há uma faceta diferente que é “personificada”. Isso explica sempre a velha assercao de muitos, ao verem aquele que eles conhecem em outro contexto social: “essa nao é o fulano que eu conheco”. Nao vejo as pessoas que participam do Big Brother como sendo pessoas que saem de sua própria personalidade, mas ao contrário, pessoas que assumem uma outra faceta dela ao se depararem com um tipo específico de interacao social. A própria possibilidade do indivíduo manter o mesmo tipo de faceta adotada conscientimente para despertar sentimentos nos telespectadores nao pode ser muito tempo mantida. É um tipo de esforco intelectual que so se mantem com um uso constante de energia e atencao que dificilmente pode ser mantida constantemente, ou até mesmo na maior parte do tempo.

    Por outro lado, há a questao do sucesso de programas desse tipo. Eu vejo esses programas como espelhando televisivamente um fenômeno que pode ser visto em diferentes midias e contextos sociais. Vejo como sendo um reflexo da “individualizacao ameacadora”. Essa seria o fenômeno da cada vez mais constante identificacao do indivíduo consigo mesmo e de sua separacao dos contextos sociais. Isso faz com que as pessoas nao se vejam mais através de suas relacoes sociais, mas sim como um átomo que interage com outros átomos em busca da realizacao de um tipo de vontade pessoal impossível de ser compartilhada. Porém, como há por outro lado uma necessidade real, em um sentido quase antropológico, do indivíduo de possuir relacoes sociais que nao sao guiados pela vontade pessoal mas sim pela busca de conexao pessoal, haveria entao tal paradoxo que se expressa de inúmeras formas. Vejo como fenômenos de tal individualizacao o tipo de literatura que mais existe sao literaturas de auto-ajuda, na internet vemos sites de relacionamento crescendo quase que geometricamente. Ao meu entender essa seria a explicacao por debaixo do sucesso de reality-shows. É um tipo de idealizacao da relacao pessoal, onde os telespectadores se envolvem com aquele que ele esta vendo, podendo torcer por ele, podendo ajudar aquele esse, e principalmente, podendo ver esse tendo relacionamentos e se identificando com ele de uma forma como ele nao poderia se identificar com um personagem de um filme ou novela, visto esses serem frutos de uma imaginacao, enquanto aqueles sendo as acoes de um indivíduo real. A possibilidade de idealizar o relacionamento acaba por tirar o perigo de se envolver em um, onde o princípio da auto-realizacao é o guia, e ao mesmo tempo satisfaz em uma certa medida a necessidade dos seres humanos de relacoes sociais.

    Abracos,

    Daniel

  7. Helbert says:

    “Posso sonhar em ser o personagem que eu quiser, contra todas as evidências empíricas, pois estão ao meu lado os prêmios das várias loterias estatais, a possibilidade de entrar no BBB 10 por meio da revista do Faustão, o talento para o futebol de um familiar ou o sucesso inesperado no último modismo musical popular.”

    Sonhos que muitas vezes motivam a vida das pessoas que mal conseguem ver sua realidade no espelho.