Sou feliz por ser ateu

Sobre o título do post (todas as definições – entre aspas – serão, por conveniência, retiradas do dicionário Houaiss): Se ateu é quem se identifica com a (1) “doutrina ou atitude de espírito que nega categoricamente a existência de Deus, asseverando a inconsistência de qualquer saber ou sentimento direta ou indiretamente religioso, seja aquele calcado na fé ou revelação, seja o que se propõe alcançar a divindade em uma perspectiva racional ou argumentativa”, sou, então, ateu. Se ateu é quem se identifica com a (2) “doutrina originada no enciclopedismo setecentista, esp. em Holbach (1723-1789), que recusa a existência de Deus, com base em uma concepção materialista e cientificista da realidade” ou quem se identifica com o (3) “pensamento fundamentado em um pessimismo radical que conclui pela descrença em Deus, cuja existência se mostra incompatível com o sofrimento humano (Schopenhauer), ou um instrumento de fuga diante da tragicidade (Nietzsche) e do absurdo (Sartre) da existência” não sou, então, ateu.

Não gosto da acepção (2) porque ela me parece envolver uma crença ou “contra-crença”. A crença em Deus é substituída pela crença no materialismo ou na ciência (bom que o Houaiss foi cuidadoso e se referiu ao “cientificismo”). Crença é crença (”atitude de quem se persuadiu de algo pelos caracteres de verdade que ali encontrou” – “convicção profunda e sem justificativas racionais em qualquer pessoa ou coisa”). Não vejo diferenças significativas.

Não gosto, também, da acepção (3). Há um sentido de orfandade, de desamparo, que, para mim, denuncia uma crença de fundo. Uma negação de Deus, não por sua simples inexistência, mas por sua falta ou negligência.

No entanto, os sentimentos da tragicidade e do absurdo da existência me acompanham o tempo todo. Esses sentimentos me aproximam da idéia de agnosticismo, ou seja, da “doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião (a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc.), na medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica”.

Sou cientista, ainda que estabelecido na periferia da periferia da ciência – um cientista social que se identifica com as metodologias qualitativas – e tenho em alta conta o método científico. É evidente que a idéia de “comprovação científica” deve ser relativizada. O critério da falseabilidade é muito mais adequado. De qualquer forma, penso que a realidade última nos é inacessível. Como Max Weber, penso que a realidade sempre será infinitamente mais complexa do que seremos capazes de compreender com o nosso intelecto limitado. A experiência religiosa (e a partir daqui não posso reivindicar o apoio de Weber, que não tratou disso), entendida como compreensão absoluta da EXISTÊNCIA (existência de tudo o que está diante de nossos sentidos), é a mais incompreensível de todas.

Para Joseph Campbell, as religiões institucionalizadas funcionam como anteparos à verdadeira experiência religiosa. A verdadeira experiência religiosa é disruptiva, caótica. Tem a ver com o contato com o inefável, com o incognoscível, com o completo absurdo da existência de tudo que existe. Para qualquer ordem estabelecida, a experiência religiosa autêntica é ameaçadora.

É por isso que me coloco contra qualquer religião da certeza, contra qualquer certeza. A certeza é a abdicação do conhecimento. O conhecimento é impossível? Nem sempre, mas o conhecimento último, para mim, é impossível.

Nós, animais humanos, evoluímos achando padrões e regularidades no mundo e a habilidade para reconhecer regularidades e padrões deve ter sido decisiva. Ficamos dependentes.

Tudo o que foi escrito até aqui é para dizer que me espanta (ou irrita) a necessidade atual que as pessoas têm de expor publicamente crenças meramente pessoais. Passo considerável tempo da minha vida no trânsito, me deslocando de carro de um lugar para outro. Entre as músicas do meu pendrive de 8 gigas e as abobrinhas da CBN, olho para os vizinhos de deslocamento motorizado mais ou menos lento. Tenho me espantado com a quantidade de carros que exibem algum emblema religioso. “Sou feliz por ser católico”, “Deus é fiel”, logomarcas de igrejas, acrônimos religiosos diversos. Qual seria a explicação para tamanha necessidade de dizer publicamente “acredito nisso ou naquilo”? Continua…

5 Responses to “Sou feliz por ser ateu”

  1. Só não entendi bem a “realidade última”, “conhecimento último”. O que vem a ser isso?

    Quantos aos adesivos, bem, acho que as Igrejas se transformaram em clubes. Você não tem essa impressão? De que aqui no Brasil elas agregam o que antes era disperso. Cobram prendas ao tempo em que oferecem benefícios. A contingência da vida lá fora, então, é substituída por uma segurança regional, afiançada pela ordem da instituição. É um microuniverso. A necessidade de estampar, pra mim, é semelhante a necessidade que tem, por exemplo, torcidas organizadas e coisas afins.

  2. Paulo says:

    Penso que a palavra chave na definição (1) do Houaiss é “inconsistência”.

    Inconsistência que existe não apenas nas religiões institucionalmente organizadas mas também naqueles defensores de uma “Sophia Perennis” (ou algo que o valha), como Campbell.

    Porém, é curioso como “crentes” gostam de caracterizar a descrença como uma outra forma de crença.
    Às vezes, a descrença é apenas o perceber das inconsistências da crença.
    Nada precisa ser posto no lugar de Mahyra, Quetzacoáltl, Zeus, Brahma ou qualquer outro deus em que se creia.

    Penso que a crescente necessidade (pois me parece crescente) de externar que “sou feliz por crer nisso ou naquilo” ou que “totó é fiel” (sempre penso em cachorros quando leio “deus é fiel” em algum lugar), vem da necessidade cada vez maior de sair do anonimato das grandes cidades.
    O fulano busca externar algo de suas crenças para os outros verem (ele não é apenas mais um carro passando, é o carro de um “filho do dono” – já viu esse?).
    Mas não só isso, ele também quer que seu deus o veja, perceba que ele O ama e o ame de volta.

    A definição (3) do Houaiss, parece-me, reflete o peso da sensação de abandono como uma fonte do ateísmo pois uma grande carência é um dos grandes promotores do teísmo – talvez seu maior motor.

  3. Caríssimo Carlos.

    De fato, o problema é espinhoso e tem inúmeros desdobramentos. Assim, vou me ater a uma espécia de questão de ordem, quase uma petitio principi. Você diz que o problema da existência de todas as coisas é o mais incompreensível de todos. De fato, o problema do “Ser enquanto Ser” (mais adequado do que “existência”) e, por conseguinte, do nosso conhecimento dele, está no bojo de toda a racionalidade ocidental. Contudo, há escondido aqui um problema quase sociológico (se me permite), a saber, o da exclusão da reflexão, sobretudo filosófica, para o trato deste problema. Estou certo de que você não o comete, mas é patente que o nível de comprometimento com a especulação que se encontra hoje nas pessoas simplesmente impossibilita todo e qualquer debate sério e rigoroso sobre essas questões. Para além dos colegas, praticamente não conheço quem se disponha a estudar metafísica à sério ou, ainda, quem esteja apto a de fato analisar os argumentos clássicos para a existência de Deus, por exemplo. Note que o problema a que me refiro não é de incapacidade, mas simplesmente da falta de seriedade intelectual para se adentrar satisfatoriamente nesses assuntos. Todo esse quadro limita muitíssimo o plano possível no qual discussões seríssimas como essas podem se instalar. E aí a coisa claramente degringola para simples afirmações de gosto como “sou feliz por ser x”, seja X igual a Católico ou Ateu.

    Abraço.

  4. anunciação says:

    Vou arriscar:Uma compensação para a ausência da prática daquilo que prega?