Continuando o post anterior, não quero me desviar da questão proposta. Terminei com a afirmação/pergunta: “Tenho me espantado com a quantidade de carros que exibem algum emblema religioso. ‘Sou feliz por ser católico’, ‘Deus é fiel’, logomarcas de igrejas, acrônimos religiosos diversos. Qual seria a explicação para tamanha necessidade de dizer publicamente ‘acredito nisso ou naquilo’?”
De saída, é bom esclarecer que o problema não é especificamente a religião, mas a necessidade de fazer afirmações identitárias públicas e ostensivas. Tal necessidade parece denunciar a fraqueza das mesmas identidades anunciadas publicamente. Googlando sobre “adesivos religiosos automotivos” (não foi bem essa a minha busca, mas a expressão é engraçada), cheguei a um post que se refere à “guerra dos adesivos“. Não tinha pensado em competição, mas a idéia é interessante. É bem possível que a crescente “adesivação religiosa automotiva” tenha a ver com uma cisão religiosa na classe média brasileira (a disputa seria intra-classe na medida em que as batalhas se travam nos vidros e latarias de carros relativamente caros). Se no passado a classe média era quase totalmente católica, hoje existe um contingente evangélico cada vez mais numeroso. O conflito está posto.
Os evangélicos, por serem minoritários e, no interior da classe média, vistos com desconfiança, teriam partido para uma estratégia afirmativa de inversão do estigma: “Sou evangélico, SIM! Tenho orgulho disso, e estou ganhando dinheiro!” A estratégia afirmativa teria se materializado inicialmente no “adorno metálico” do peixe, tradicionalmente católico, conforme o post do Ronaldo, e que teria sido seqüestrado pelos evangélicos. Além do peixe, é muito freqüente o adesivo que informa: “Deus é fiel”.
Nunca entendi essa frase. Mas o google me diz que a frase completa é “Deus é fiel, mesmo quando não somos”. Assim faz mais sentido. Não obstante, a supressão da segunda parte não me parece casual. De fato, parece uma inversão de perspectiva. O humilde pecador, que confiava abolutamente em Deus, parece agora ameaçá-lo: “Seja fiel! Ou não conte comigo” (a classe média, especialmente a ascendente, é orgulhosa de suas conquistas materiais). Aqui em Belo Horizonte, vale destacar, um adesivo muito popular é o da extremamente bem sucedida “Igreja Batista da Lagoinha“, negócio muito bem administrado pela família Valadão. O uso desse adesivo no carro talvez esconda o anúncio público menos confessável e mais prosaico do sucesso material.
Seguindo o raciocínio, os católicos, assustados com a perda de espaço, reagiram. Vieram com o “Sou feliz por ser católico”. Numa leitura contrária, o significado real pode ser: “apesar de católico, sou feliz (ainda que não esteja ganhando tanto dinheiro)”. Max Weber já dizia que os protestantes são mais adaptados ao capitalismo. Depois introduziram a imagem da Virgem Maria envolvida pelo terço. De acordo com o Ronaldo, a escolha teria sido proposital, já que os evangélicos não se entusiasmam muito com essa história de virgindade da mãe do Homem. Um pouco mais tarde apareceu a “Virgem de Aparecida” envolvida por um terço que forma o mapa do Brasil. Não é preciso lembrar do episódio mais explícito da guerra religiosa midiática no Brasil que teve seu clímax quando um pastor da Universal aplicou, em rede nacional, uns pontapés na imagem da “Nossa Senhora Aparecida”.
(Parêntesis: é também comum em Belo Horizonte um adesivo em que se lê a expressão “Mundo Novo“. Sabia que se tratava de alguma coisa relacionada à Canção Nova – uma espécie de braço evangélico do catolicismo. Não sabia que essa associação tinha como um dos membros de destaque o ex (e felizmente derrotado) candidato a vice-prefeito Eros Biondini).
Enfim, pensei em escrever essa continuação falando na fragilidade das identidades tradicionais no mundo contemporâneo, da modernidade líquida e até da anomia durkheimiana. Mas, ainda que o problema da “adesivação religiosa automotiva” tenha a ver com essas macro-questões, o fato é que estamos diante de uma pequena guerra religiosa travava no interior da classe média brasileira: católicos versus evangélicos.
E os ateus? Bem, pode não ser muito, mas na falta de soldados para esta causa, me apresento. Aproveitando uma dica do blog do Ronaldo, encomendei o meu adesivo. Assim que chegar, será colado na traseira do meu carro. Postarei uma foto no blog. Aguardem!

VCS NAO SABEM O Q PERDEM, SER DE JESUS É BOM DEMAIS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! INDEPENDENTE DE RELIGIÃO!!!!!!!!!!!!!! DEUS É MAIS Q FIEL, SO ELE PODE REALIZAR O Q NÃO PODEMOS!!!!!!!! CONVERTAM-sE ANTES Q SOFRAM!!!!!!!!!!!!!!!!sejam verdadeiramente felizes, esse mundo cão so tem alegrias provisoriAs, e ele e a felicidade etrna!!!!!!!!!! DEUS ESTEJA SEMPRE CONVOSCO !!!!!!!!!!!FIQUEM NA VERDADEIRA paz!
Agradeço a referência, mas seu “enfim” está absolutamente adequado. Eu mesmo o usaria.
E esse adesivo do Darwin, hein? Genial.
Abraço
Concordo com o Gabriel.
Não consigo ver racionalidade alguma no discurso religioso teísta.
Qualquer procedimento racional adotado fica comprometido pela teleologia da conclusão: existe um ser idêntico a si mesmo, independente de causas e condições que é, ele mesmo, causa e condição dos demais fenômenos – e mais, esse ente teria preferência e amaria uma determinada espécie de um planeta pequenininho nos confins de uma galáxia qualquer.
A “fidelidade” e comprometimento de um ser deste tipo com um determinado povo é-me ainda mais difícil de entender como vinculada a alguma racionalidade.
Quando vejo religião, só consigo ver discurso de dominação. Determinado grupo tentando sobrepor-se a outro, com “seu” deus sendo superior ao do vizinho.
Creio que o prof. Carlos “pegou” bem a questão dos adesivos.
É um deus lutando contra outro – na verdade, um grupo lutando contra outro e usando elementos de coesão (como a crença) como mais um instrumento de diferenciação/identidade e demarcação de territórios – em especial pq hoje, no Brasil, há um grupo em expansão e este grupo deseja, cada vez mais, moldar o mundo ao redor à sua imagem e semelhança.
Gabriel, vou escrever um post explicando que tenho cabeça e olhos de sociólogo. O “dever ser” me interessa muito pouco. Me interesso mais pela “vida como ela é”.
Não rejeito o discurso religioso como se fosse “a priori desprovido de racionalidade”. Reconheço a existência de um discurso religioso importante, válido, racional, etc.
Mas esse discurso não me interessa muito. Penso que ele foi, é e sempre será marginal e minoritário. A vida religiosa plena e/ou o conhecimento profundo da religião/filosofia/metatísica é inacessível, desinteressante e tedioso para a maioria dos mortais.
Todas as religiões têm a versão “full” e a “light” ou vulgar (para consumo das massas). O que me interessa é a experiência religiosa vulgar das pessoas comuns.
Quando digo que não entendo o “Deus é Fiel”, quero dizer que não entendo a “mensagem” que um crente que não entende bulhufas de teologia e história da religião pretende passar com essa frase grudada no vidro do carro.
Me interesso, enfim, pela vivência religiosa do leitor (quando muito) de Augusto Cury e não de Parmênides. Vou parar por aqui, continuo em um post depois.
Abraço.
Carlos.
É realmente muito boa sua percepção sobre a “guerra dos adesivos” (excelente expressão, inclusive). Mas seu post (e comentários como o do Paulo) acabam por instanciar aquillo que eu já comentava:
1. Há um banimento do discurso religioso como a priori desprovido de racionalidade, o que é uma tolice até considerada do ponto de vista histórico.
2. Você diz não entender, o Paulo diz lembrar do “totó”. Para além das associações livres, há uma incapacidade sistêmica da parte dos não-crentes em buscar seriamente um mínimo de conhecimento até para encamparem críticas.
Remeter-se à fidelidade divina advém da própria concepção hebraica de verdade (Emunah). Ela se dá em estreita conexão com a manifestação do nome de Deus em Ex. 3. Deus “é Aquele que é” e que por isso pode comprometer-se com os seus de maneira imutável e perene (a constante rememoração de que Deus é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó não tem outra função). Desse modo a experiência histórica de Deus pelo povo hebreu passa necessariamente pela constância e fidelidade de Deus na permanente atualização de sua aliança. Nada de estranho. Leia-se Parmênides, filósofo grego, que acaba por dizer que se o Ser é, é necessariamente perene e para além do devir, portanto, sem movimento ou mudança. É exatamente o que diz a experiência judaica de seu Deus e que passa obviamente para a tradição cristã.
Contudo, corroboro a crítica relacionada ao uso indevido ou mesmo instrumental e esvaziado de sentido por parte, sobretudo, dos protestantes. Mas abster-se do conhecimento mínimo não contribui nem para o debate.
Grande abraço.