Estava caminhando até o estacionamento, voltando para casa depois do trabalho, e vi/ouvi um rapaz explicando para umas moças, todos esperando o ônibus, a psicanálise. Pude ouvir apenas a introdução: “a psicanálise faz a transposição…” Bem, não quis parar e esperar o resto da explicação. Mas continuei o meu percurso pensando naquele mínimo fragmento de conversa.
É evidente que o acesso à informação é muito maior hoje do que já foi em outros tempos. Mas as mudanças podem não ser tão grandes. O rapaz tinha cara de tudo, menos de especialista em psicanálise. É bem possível que estivesse reproduzindo imperfeitamente alguma definição superficial de psicanálise mal-ouvida em sala de aula. Tinha uma informação que poucas pessoas tinham há poucas décadas. No entanto, estava usando esse pedaço mal-compreendido de informação a que teve acesso para fins absolutamente práticos. Impressionar as meninas enquanto esperavam o ônibus.
No episódio 6 da serie Evolução um pesquisador afirma que as pessoas falam muito, mas a maior parte das conversas trata de amenidades (gossips). Imagino que essa seja a regra desde que os humanos começaram a falar. No final das contas, o tempo passa e muda o conteúdo das amenidades, mas as amenidades continuam sendo o assunto principal.
Psicanálise virou assunto de espera de ônibus, mas essa psicanálise tem muito pouco a ver com aquela de Freud ou Lacan. Quantas pessoas conhecem a psicanálise em profundidade hoje? Imagino que muito poucas. Proporcionalmente, o número de conhecedores de algum assunto hoje e há 20 mil anos não deve ter mudado muito.
Assistindo aos programas de televisão, mesmo os que se apresentam como “educativos”, o que se vê é uma grande superficialidade. Por trás de uma suposta transmissão de conhecimento, o objetivo real é o mesmo passa-tempo de sempre. Quem assiste não vai, obviamente, se tornar conhecedor, mas vai conseguir alguns assuntos para impressionar um interlocutor incauto no dia seguinte.
Em tempo real: a moça que perde mais uma noite de sono para reler, pela enésima vez do dia, o teleprompter da Globo News diz: “Mais uma do presidente da Venezuela”. Nem sei qual é a “mais uma” do Chavez (ligo a tevê na Globo News, mas não presto atenção). O que importa não está no que eles falam, mas no que a gente entende. Essa manchete “Mais uma do Chavez” mostra a “vejanização” da imprensa e a “xuxanização” do entretenimento. Se noticiário e diversão não se diferenciam, é tudo uma coisa só.
Parece que a “mais uma” do Chavez (ouvi mais um fragmento do que a moça da Globo News está relendo) tem a ver com a nacionalização das mineradoras. Engraçado: aqui em Minas as mineradoras têm “autorização” para tudo o que quiserem fazer, mas isso não é “mais uma” do govenador de Minas. Nem é notícia. Pela manhã, alguém vai repetir: “Viu a última do Chavez”? E a pseudo-informação vai se disseminando.
Talvez seja o caso de rever a minha idéia inicial. Proporcionalmente, hoje, considerando todas as fontes de informação disponíveis, o conhecimento não seria menor do que no passado?
Acredito ser mais relevante questionar-mos o por que dessa banalização da informação. A melhor forma de esvaziar um discurso é simplifica-lo em excesso. Mas para que simplificar? QUal o objetivo de reducionismos como supostas imposições de verdades? A informação me parece primar pela quantidade e não pela qualidade. Aprofundamentos não permitiriam as pedantescertezas do ‘fast-food” comunicacional e informacional (rs)…
Abraços.
Carlos
Ando pensando nisso, faz tempo que ensaio um texto (?!) sobre a crescente carẽncia de credibilidade da mídia dita tradicional e o surgimento de alternativas tais como os blogs.
Embora eu seja absolutamente a favor desta democratização, ainda procuro os mecanismos pelos quais uma míriade de amadores (qualificados, interessados, etc.) conseguirá substituir redações com grana e experiẽncia.
Ainda mais quando nos lembramos de que o Brasil ainda estuda pouco e lẽ menos ainda. A idiotização do discurso (como já se vê há tempos) é presente ou é parte de um passado só recentemente sensível?
Em contrapartida, este assunto, aqui daria para horas de conversas! O ser humano te medo da psicanálise, pois nela não encontraremos amenidades porque por ela é que tentamos nos conhecer; e nos conhecermos pode ser “terrível”.
Meu pai é psiquiatra e psicanalista, desse modo, tenho muito contato com todos os grandes elaboradores da psicanálise, de Freud a Lacan. E assim mesmo é difícil compreender, para aaqueles que estão em contato permanente com ela. Imaginemos aqueles que costumam basear seus conhecimentos pelos meios de comunicação atual, que jamais se aprofundam em temas senão para entreter.