Vôo AF 447

Diante da mais nova pletora de informações técnicas e expressões de sentimentalismo barato (sem querer desfazer do sofrimento de quem, de fato, sofre) só consigo me impressionar com a repetição. Neste exato momento a Globo News recita os dados técnicos do avião A 330-200 que caiu. Entrevista os especialistas que terão os seus 15 minutos de fama. Familiares expressam as dores relacionadas ao acidente. As vítimas são nomeadas e suas credenciais são listadas.

Tudo certo. É mesmo uma situação grave, dolorosa e triste. Não pretendo negar essa realidade. Mas o Ministério das Cidades informa que, nos últimos 10 anos, 327.469 pessoas morreram em acidentes de trânsito no Brasil. São 98 mortes por dia, 35 mil por ano. Muito poucas dessas mortes mereceram/merecem atenção igual à dedicada aos mortos do acidente aéreo de hoje e nos anteriores, que ocuparam tão intensamente a imprensa.

Não deixa de ser notável esse imaganinário que se construiu e que se reconstrói em torno dos acidentes aéreos. Uma explicação supostamente neutra diria que a menor freqüência estatística dos acidentes aéreos, em comparação com os acidentes que envolvem automóveis terrestres, responde pelo destaque aumentado. Mas não consigo deixar de pensar que a posição das vítimas na hierarquia social tem mais a ver com as diferenças de comoção. Quando as vítimas partiram de uma rodoviária, ou de uma esquina qualquer num ônibus clandestino, a narrativa é sempre a do desastre esperado, causado pela “imprudência atávica dessa gente”.

Enfim, nos próximos dias vamos saber tudo, mais uma vez, sobre a dor da perda de singulares e insubstituíveis entes queridos cheios de projetos agora interrompidos abruptamente, sobre as intempéries que podem atingir os vôos transoceânicos e sobre as minuciosas tecnicalidades redundantes dos aviões mais perfeitos do mundo. Enquanto isso, os 98 mortos diários nas ruas e estradas brasileiras continuarão sendo nada mais do que estatísticas.

Pra terminar, não posso deixar de mencionar  post do Cloaca News.  Lendo o post do Noblat, especialmente a “correção”, fica muito evidente que a vontade de culpar o Lula é maior do que a dor causada pelo desastre.

3 Responses to “Vôo AF 447”

  1. WELLINGTON says:

    Acho que fica todo mundo comovido com acidentes aéreos, porque é fácil colocar a culpa em outro, seja no piloto, no governo ou na companhia aérea.
    Na estrada é que a decisão de dirigir mais devagar, mais prudentemente, ser mais educado, é sua, só sua.

    Estão todo na mão de Deus!!!!!

  2. Rodrigo says:

    Guto, por razões bem óbvias, tenho feito da questão do trânsito um mantra na minha vida. Já fiz alguns posts a respeito:

    http://teixos.blogspot.com/2009/02/porsche-gt3-anhanguera-x-motos.html
    http://teixos.blogspot.com/2008/03/este-no-um-post-engraado.html

    Sempre que estou numa roda de pessoas, especialmente entre homens, sou sempre o inconveniente que puxa esse papo. O brasileiro é fissurado por velocidade, sei lá por que cargas d’água. Nesse ponto, muito mais que na aviação, eu vejo culpa do governo, que só faz lei, mas não faz a lei ser cumprida.
    Viajo 80km por dia. O que eu vejo (e passo) todo dia, dá pra escrever uma tese.
    Acho que fica todo mundo comovido com acidentes aéreos, porque é fácil colocar a culpa em outro, seja no piloto, no governo ou na companhia aérea.
    Na estrada é que a decisão de dirigir mais devagar, mais prudentemente, ser mais educado, é sua, só sua.

  3. Fica mesmo uma preocupação imensa em culpar o Brasil, mas agora, nem isso podem, avião da França, piloto da França, misteriosa causa, destroços ainda não encontrados e nenhuma falha aparente das tores de controle.
    Quanto ao alarde da notícia, apesar da tristeza, não se solidariza com as vítimas de trânsito!