Quero escrever mais um pouco sobre o mal-chamado “analfabetismo cognitivo”, mas antes faço uma longa citação de um artigo da Rita Segato (p. 222 – 223). Sua leitura deixa mais evidente o problema que abordo – a falta/incapacidade do olhar crítico.
O impulso ético é o que nos permite abordar criticamente a lei e a moral e considerá-las inadequadas. A pulsão ética nos possibilita não somente contestar e modificar as leis que regulam o “contrato” impositivo em que se funda a nação, mas também distanciarmo-nos do leito cultural que nos viu nascer e transformar os costumes das comunidades morais de que fazemos parte.
Para utilizar metáfora freqüentemente oferecida pelo cinema recente, é a pulsão ética que desinstala os chips cuja finalidade é tornar nosso comportamento automático. A pulsão ética nos permite fugir da automação: se a cultura é uma paranatureza, ou seja, uma segunda natureza ou programação não biológica, parabiológica, implantada em nós mediante o processo de socialização e coincidente, portanto, com nossa própria humanidade, o desejo ético, transcendente e complexo, leva-nos a vislumbrar o outro lado da consciência possível e nos possibilita ultrapassar a visão programada de uma época e desarticular o programa cultural e jurídico que a sustenta.
Somos plenamente humanos porque a mesma cultura que nos implanta os chips de valores morais e as práticas semi-automáticas a nos habilitar como membros de uma comunidade moral e “naturais” de uma sociedade juridicamente constituída, também nos equipa com as ferramentas que permitem detectar refletidamente esses mesmos chips e desativá-los. A isso alude o antropólogo Clifford Geertz quando, relançando conceitos já trabalhados por lingüistas desde o século XIX, afirma contarmos como humanos, ou seja, como seres de cultura, com padrões para o comportamento e padrões de comportamento (patterns for e patterns of behavior) e recorda a importante diferença entre ambos: os primeiros nos fazem agir, impulsionam a conduta, inoculados pelo processo de socialização que instaura nossa humanidade e nos possibilita a vida em comum; os últimos são esses mesmos padrões quando já identificados após um processo de análise cultural e de auto-análise. Os padrões para o comportamento automatizam a conduta; os padrões de comportamento são nossas apostas intelectivas a respeito dos moldes que nos fazem agir, já em sua versão reflexiva, como produto da tentativa de autoconhecimento por parte de uma sociedade ou de um indivíduo (Geertz, A interpretação das culturas). É neste segundo nível, devo acrescentar, que nos fazemos seres históricos, que exercemos algum grau de liberdade e autonomia e, portanto, damos plenitude humana à nossa existência, seja qual for a sociedade em que vivamos.
Reside, então, no trabalho reflexivo de identificação dos padrões de comportamento, a possibilidade da ética como impulso em direção a um mundo regido por outras normas, e do redirecionamento da vida – bem como de nossa própria historicidade – no sentido do trabalho constante de transformação do que não consideramos aceitável. Somos plenamente humanos não por sermos membros natos e cômodos de nossas respectivas
comunidades morais e sociedades jurídicas, mas por estarmos na história, ou seja, por não respondermos a uma programação, da moral ou da lei, que nos determine de forma inapelável.
A ética, definida nesse contexto, resulta da aspiração ou do desejo de mais bem, de melhor vida, de maior verdade, e se encontra, portanto, em constante movimento: se a moral e a lei são substantivas, a ética é pulsional, um impulso vital; se a moral e a lei são estáveis, a ética é inquieta. Isto torna possível que, dentro de uma mesma comunidade moral – a comunidade de cultura estudada pelos antropólogos – possa existir mais de uma sensibilidade com relação à ética que poderíamos, de forma grosseira, enquadrar em duas posições: a ética dos conformistas e a dos desconformes; a dos satisfeitos e a dos insatisfeitos; a dos que têm disponibilidade quanto à diferença, ao novo e ao outro e a dos que não a têm; a dos sensíveis às margens (o que se encontra do outro lado das muralhas de contenção da “normalidade” moral do grupo) e às vítimas e a dos não sensíveis a elas.
O trecho-chave é:
Somos plenamente humanos porque a mesma cultura que nos implanta os chips de valores morais e as práticas semi-automáticas a nos habilitar como membros de uma comunidade moral e “naturais” de uma sociedade juridicamente constituída, também nos equipa com as ferramentas que permitem detectar refletidamente esses mesmos chips e desativá-los. A isso alude o antropólogo Clifford Geertz quando [...] afirma contarmos como humanos, ou seja, como seres de cultura, com padrões para o comportamento e padrões de comportamento [...] os primeiros nos fazem agir, impulsionam a conduta, inoculados pelo processo de socialização que instaura nossa humanidade e nos possibilita a vida em comum; os últimos são esses mesmos padrões quando já identificados após um processo de análise cultural e de auto-análise. Os padrões para o comportamento automatizam a conduta; os padrões de comportamento são nossas apostas intelectivas a respeito dos moldes que nos fazem agir [...]
É disso que estava tentando falar. Da incapacidade ou da falta das ferramentas linguísticas e cognitivas necessárias para a transformação dos “padrões para o comportamento” em “padrões de comportamento”.
Agora as ponderações. Antes de tudo, quero afastar a possível impressão de que TODOS os alunos sofrem dessa “afasia da crítica”. Não é verdade. Preciso afastar também a impressão de que essa afasia resulta necessariamente da ausência ou da má qualidade da educação formal. Também não é verdade. Esse post do Marmelstein mostra que a falta de crítica não depende de escolaridade e pode resultar de outras causas. Cabe ainda esclarecer que o problema não é privativo das faculdades privadas. Embora possa ser nelas mais freqüente. O vestibular/loteria-cara que seleciona (mal) aqueles que entrarão nas universidades públicas já foi bem analisado pelo Kenji.
O fato: a sociedade capitalista-de-consumo é a-crítica. O comprador do kinder ovo zizekiano não critica. Espera ávido pelo próximo e efêmero lançamento seja do que for.
Então, quando escrevi no post anterior que o problema do analfabetismo cognitivo não é do aluno ou da faculdade privada, mas do sistema de educação, deveria ter escrito mais: é do sistema social capitalista inteiro. Vivemos em um sistema social que DESESTIMULA a crítica, o tempo todo. No chão do chão do mundão da vidinha esse desestímulo se expressa em frases do tipo: “Ahh, [professor] [Carlos] [Fulano,Cicrano, Beltrano, etc.], você é TÃÃÃOOO CRÍTICO….” Como se “ser crítico” fosse intrinsecamente ruim. Em algumas situações, “ser crítico” é entendido/apresentado como sinônimo de “ser perdedor”. O conformista sai ganhando, diz certa sabedoria popular. Não é de hoje, nos mostra o Machado na sua Teoria do Medalhão. Um atavismo apontado pelo Nelson Rodrigues com a sua “Nova Prostituição do Brasil“?
Nessa briga de foice no escuro é muito oportuna a tese de Arquilau Moreira Romão citada por Luciana Christante.
Enfim, a pilha está acabando. Mas continuo. Os comentários, como sempre, são muito bem-vindos.
Olá professor Carlos.
Antes de mais nada, quero dizer que acompanho seu blog há um tempo, desde antes de migrar para o Wordpress. Acompanho porque me interessa muito os assuntos das ciências sociais e políticas.
Resolvi sair do anonimato, pois é um fato recorrente no curso de Jornalismo que faço, na Univali, em SC. E, talvez até, um fato muito mais preocupante nos bancos acadêmicos da profissão jornalística, marcada pela crítica e intelectualidade.
Pois é, muitos de meus colegas, mesmo estando no sexto período, insistem nas suas filosofias de banheiro. Salvo algumas exceções. Alguns, demonstram uma espécie de preguiça em fazer algum esforço mental maior do que o de costume. Outros, o que, e se vê de longe, é bagagem intelectual. São ótimos alunos na reprodução das técnicas e decoradores de conceitos. Mas quando é exigido um pouco mais, caem nos mesmos argumentos da filosofia de banheiro, onde a vida é linda e o pensamento positivo vai construir a paz mundial, algum dia.
Ao ter citado Machado de Assis, lembro de um artigo muito famoso do maior escritor brasileiro. Em “O Ideal do Crítico” o autor assinala com maestria: “Não compreendo o crítico sem consciência. A ciência e a consciência, eis as duas condições principais para exercer a crítica”.
Com as palavras do mestre Machado de Assis, termino por aqui. Espero ter contribuído como aluno de universidade particular e como leitor.
Sim, a desgraça que tem suas origens na briga de padres que é tanto a origem medieval da universidade como instituição como também origem da inquisição (Borges tem uns contos maravilhosos fundamentados no eruditismo deste homem, pois wikipediei e encontrei as origens histórico-filosóficas das facções caçadas pela igreja das muitas interpretações hereges da santíssima trindade na igreja que estão em formato de conto em Borges – não me lembro o nome dos contos, desculpe)
Vive la Wikipediá! Sou defensora dela. Por mais que seja tomada como não-ferramenta de pesquisa pela academia (e que os acadêmicos a usem por baixo do pano, como se fosse site de pornoografia – todo mundo usa, mas ninguém admite). Assim como se deve filtrar mesmo os autores mais clássicos, é óbvio que se deve filtrar o que se lê em qualquer html, mas eles podem servir de porta de acesso – liberação – de um conhecimento ainda não adquirido. Vive! Vive! Le Roi est mort! Vive le Roi! ks ks
É claro que não se escapa das contradições do mundo facilmente. Como leitora de blogs, eu constituo a rede (o meu blogroll, por exemplo), por onde eu trafego preferencialmente. E nem preciso entrar na minha página, pois por saber que o Imaginação Sociológica traz à pauta assuntos que me suscitam outras questões eu googlo ele sempre (pode-se dizer que é o tipo de diletantismo necessário à nutrição da imaginação sociológica, pois os assuntos só são recortados por que o senso comum assumiu a demanda acadêmica como forma necessária de produção de conhecimento sólido)
No entanto, o Imaginação Sociológica continua a nutrir meu pendor wrightmilliano.
Gosto muito do Geertz, Flávia. Não faço essa separação “sociologia X antropologia”, apesar de ter me formado em um curso de Ciências Sociais onde essa rivalidade era cultivada. E a coisa piorou muito. O Departamento de Sociologia e Antropologia da Fafich/UFMG está em processo de separação. Parece que vão separar até os cursos. Penso que isso é uma verdadeira desgraça.
Mesmo dentro da melhor das melhores academias, o analfabetismo cognitivo ocorre (comentários em https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7366855284699106501&postID=3405111608134082953).
Já somos cyborgs faz tempo http://www.stanford.edu/dept/HPS/Haraway/CyborgManifesto.html diz Haraway, e nem consegui terminar de ler o texto tal o chute no estômago que essa dona me deu.
Pulando pra outro assunto e continuando no mesmo, ando tentando desenvolver uma topologia (ou quem sabe eu encontre uma, ou a fazemos coletivamente, que é a forma de produção de conhecimentos mais feliz já inventada. a autoria, como eu já disse, quero que vá pro inferno, e que também tome o mesmo rumo a autoridade de onde vem o conhecimento – é preciso ler o que escrevem os hakkers e a simantec) … uma topologia que dê conta de analisar o espaço virtual e seus mecanismos, inclusive os mais cara-de-ingênuo, que em sua origem são mesmo, acredito, ingênuos, mas automatizam nosso agir, como são os diversos plugins do wordpress, por exemplo.
Nunca quiz, por exemplo, assinar os Feeds, tinha uma suspeita, de início um feeling meio amargo no fundo da garganta contra eles. Era também uma questão de preferência. De preferir googlar o assunto, descobrir outras coisas que eu nem tava procurando nos htmls que encontrava, sentia que o feed impunha uma certa limitação auto-imposta que remetia à minha caixa de e-mails que é a minha primeiríssima via de acesso à internet pelo hábito de abrir e-mails antes mesmo de googlar. Não queria fortalecer uma tendência que já é forte. E no entanto, você vai se lembrar que eu defendi aqui o uso do subscribe-to-comments. Era outro feeling inicial, posso estar redondamente enganada nas conclusão às quais cheguei.
Ao mesmo tempo, eu comecei a defender a anti-autoria (que é contraditória em si, pois somos todos autores, mas fazia isso contra a autoridade ligada a outras coisas – o site específico, a publicação, a academia – e não ao assunto) e comecei a sentir que devia fazer longos comentários em outros blogs, pois se quero ser anti-autora, com a contradição de sê-lo, devia dar precedência ao espaço mais dialético e comunitário do comentário do que ampliar o do post no meu blog (o que traz à pauta, talvez, outras contradições: me ocorreu agora, por exemplo, que não sei se é possível procurar pela anarquia-organizada-segundo-outros-parâmetros do google o assunto do espaço de comentário e quai os limites dos dispositivos). Talvez eu possa receber a crítica de que estou muito pós-moderna.
De qualquer maneira, continuo a defender o uso do subscribe-to-comments por possibilitar a continuidade da autoria coletiva, apesar de dirigir a entrada na internet pela caixa de e-mails.
Sim, é maravilhoso vir na página de um sociólogo e ver que ele retoma Geerts, sem preconceitos de que ele seja antropólogo, não sociólogo. Deve-se retomar tudo, a Wikipédia, a revistinha da turma da Mônica e suas idiossincrasias, o que há de liberador em Harry Potter, Walter Benjamim escrevendo sobre a naturesa do conto infantil e a astúcia, e reler a Pequena Sereia de Hans Cristian Andersen… voltar a Machadão. Ler o horóscopo da Revista Contigo e encontrar ai o reflexo de diversas ideologias, assim como a história do que não se tornou ciência, entre outras coisas, o desejo no mundo muderno de uma cosmologia que dê conta de explicar a vida e desviar outros tipos de pensamento que não instiguem a imaginação sociológica e que é reproduzida pela própria ciência biológica http://algodao.algumlugar.net/2009/04/teste-que-mede-o-generou-cerebro/, e que usa uma cosmologia similar à do horóscopo
Agora ficou mais claro…embora n acho q seja muito interessante analisar essa falência da crítica localizando em instâncias particularistas, tais como: escola privada, mídia etc… o problema é sócio-”estrutural” mesmo…por isso, tão difícil ! Abraços
olá.
Concordo contigo que é preocupante a falta de senso crítico na sociedade. E essa falta está permeada em diversos níveis.
Essa situação aprofunda, inclusive, a falta de auto-conhecimento e auto-crítica das pessoas. Não saber do que vc não gosta, já ajuda em muito a encontrar algo da sua preferência.
Sucesso!
Léo ABREU