Archive for the ‘A gerência’ Category

Recesso?

Saturday, August 15th, 2009

Não foi bem um recesso, mas quase um ano sabático (considerando a velocidade do tempo da internet). Entrando agora no dashboard, limpando a spanzada xanaxiana alozoprada, vi que descansei bastante da blogagem e volto com gosto pela brincadeira.

Julho foi o mês das conseqüências (aqui ainda vigora o trema) da mudança de casa. Carregamento de caixas e arrumação de coisas. Livros de papel (ainda existem!), entre outras (coisas). Papel não gosta de água e choveu. Alguns livros foram molhados e mofaram. A sabedoria do acaso fez com que os molhados fossem os piores, aqueles que já estavam mesmo dentro da boca do sapo, destinados ao lixo. Também acho que livros no lixo é uma visão triste. Os que estavam endereçados ao lixo eram ruins mesmo. Úteis como acendedores de churrasqueira. Daqueles que as editoras nos dão de presente a nós professores e que os autores, provavelmente, pagaram pela edição. Ainda vigora o fetiche de ter o nome impresso na capa de um maço de papel branco pintado com letras pretas. O Lattes agradece a preferência.

Lamentei que alguns bons tenham levado água. “Construção Nacional e Cidadania“, por exemplo. Mas os bons estão em quarentena, espero que, agora secos, se recuperem e voltem para a estante.

Começou, enfim, o semestre letivo. O 2009/2. As dificuldades retornam porque o eterno retorno traz de volta os problemas de sempre. Mas o que interessa são as renovadas alegrias que só acontecem numa sala de aula. Estava falando de um assunto quando uma aluna disse: “um filme de nome “Man Friday” ilustra bem esse ponto”. Não imaginava que mais alguém se lembrava desse filme. É a história de Robinson Crusoé contada do ponto de vista do Sexta-Feira. Assisti numa madrugada da Globo, há infinitos anos. A intervenção não poderia ser mais apropriada! Felicidade minha e da aluna pela coincidência.

Escrevi tudo aí em cima para dizer que o recesso terminou, agora resta -  nos próximos dias – cumprir a palavra e acabar, de fato, com o recesso.

O “Google Reader”? Ainda não me animei a entrar. Vou deixar de ler, sei disso, mais de mil coisas. Mas quem lê tudo o que escrevemos nessa vida?

Recesso

Wednesday, July 1st, 2009

Já está em curso, então vamos tornar oficial. O blog vai passar por um pequeno recesso, alguns dias apenas. Coisa de professor. Final de semestre. Férias de julho. Reuniões… Hora de ouvir e pensar. Melhor não escrever nessa hora.

A discussão sobre “o conhecimento nos dias de hoje e no futuro” ainda pode render. Estou de olho nos comentários. Volto ao tema em breve.

Analfabetismo Cognitivo

Wednesday, June 17th, 2009

Nas provas finais de introdução à sociologia deste semestre apresentei duas pérolas do pensamento contemporâneo e indiquei aos alunos alguns conceitos a partir dos quais deveriam esboçar algum comentário. Abaixo as duas pérolas contra-indicadas para estômagos suscetíveis:

Um autor que tem vendido muitos livros escreveu: “se seus sonhos são pequenos, sua visão será pequena, suas metas serão limitadas, seus alvos serão diminutos, sua estrada será estreita, sua capacidade de suportar as tormentas será frágil. Os sonhos regam a existência com sentido. Se seus sonhos são frágeis, sua comida não terá sabor, suas primaveras não terão flores, suas manhãs não terão orvalho, sua emoção não terá romance. A presença dos sonhos transforma os miseráveis em reis, faz dos idosos, jovens, e a ausência deles transforma milionários em mendigos faz dos jovens idosos. Os sonhos trazem saúde para a emoção, equipam o frágil para ser autor da sua história, fazem os tímidos terem golpes de ousadia e os derrotados serem construtores de oportunidades”.

Atriz e escritora Maria Mariana (36 anos), que abandonou uma carreira de sucesso na televisão e no teatro para se dedicar à maternidade, disse em recente entrevista à revista Época: “Não acredito na igualdade entre homens e mulheres. Todos merecem respeito, espaço. Mas o homem tem uma função no mundo e a mulher tem outra. São habilidades diferentes. Penso nesta imagem: homem e mulher estão no mesmo barco, no mesmo mar. Há ondas, tempestades, maremotos. Alguém precisa estar com o leme na mão. Os dois, não dá. Deus preparou o homem para estar com o leme na mão. Porque ele é mais forte, tem raciocínio mais frio. A mulher tem mais capacidade de olhar em volta, ver o todo e desenvolver a sensibilidade para aconselhar. A mulher pode dirigir tudo, mas o lugar dela não é com o leme.”

Meu objetivo não era provocar uma crítica simples, uma “crítica pela crítica”, mas possibilitar ao aluno estabelecer uma articulação entre um conceito abstrato e uma situação específica. Ainda que o comentário fosse tristemente aprovativo, seria válido, dentro dos critérios avaliativos, na medida em que estabelecesse a articulação entre o conceito sugerido e a situação apresentada. Seja como for, está enganado quem pensa que li várias críticas às idéias expostas. Ao contrário, li muitas manifestações de aprovação.

A correção de provas é um teste de resistência para o professor. Resistência física e resistência moral. A primeira é óbvia. A segunda diz respeito à desconfortável sensação de ter falado para as paredes durante um semestre letivo inteiro. Não deixa de ser uma derrota, depois de um curso inteiro de introdução à sociologia, ler um aluno dizendo que “somos o que queremos ser” ou que “aquele que não sonha alto só pode chegar a um lugar baixo”. Derrota de igual tamanho é ler uma jovem (ler um jovem também seria igualmente ruim, mas haveria, pelo menos, a desculpa – evidentemente esfarrapada – de que fala por interesse próprio) repetindo que homens e mulheres são naturalmente diferentes, que os papéis de homem e mulher são complementares e que se ELE nasceu para segurar o leme, ELA nasceu com uma sensibilidade especialmente voltada para apaziguar e dirimir os conflitos (conflitos provocados pela falta de entendimento da complementaridade – assimétrica – dos papéis).

Não adianta nada lamentar por lamentar, é claro. É preciso compreender (cf. Max Weber) para traçar uma estratégia de (porque não utilizar um conceito fora de moda?) desalienação.

Pensando em alienação (apenas) como  o ato de “alhear-se”, de transferir para outro o que seria próprio, não seria alienação entregar para um escritor de best-sellers de auto-ajuda ou para uma ex-atriz qualquer a definição de sua própria posição no mundo, na vida? Não seria (isso é realmente grave) alienação não ter acesso mínimo à linguagem natural de modo a reconhecer as entrelinhas de um discurso de dominação?

Existem hoje no Brasil muitas pessoas que têm certificados de conclusão de ensino fundamental e médio que, a rigor, não aprenderam o mínimo. Esse seria um problema suficientemente sério. Mas qualquer uma dessas pessoas pode ser admitida em um curso superior; basta estar no lugar certo, na hora certa. O exame vestibular deixou de existir nas escolas superiores privadas quando o número de vagas passou a ser maior que o número de candidatos. Não é um problema das escolas ou dos candidatos. É um problema do sistema de educação no Brasil. O fato é que estamos produzindo e lidando com uma massa de analfabetos. Não falo de analfabetos no sentido estrito ou de analfabetos funcionais. Falo, se é que isso existe, de analfabetos cognitivos.

Uma das provas que corrigi está bem escrita (razoavelmente bem, pelo menos). Melhor do que muitas outras. No entanto, revela da forma mais completa o problema que descrevo. Além da incapacidade de articular conceitos e situações (o que seria ruim, porém esperado), a prova demonstra uma completa alienação, um completo apartamento entre quem escreve e o que está escrito. Suponho que essa incapacidade seja o sintoma de uma incapacidade generalizada de se reconhecer e de se estabelecer como agente (ainda que constrangido pelas estruturas sociais, mas agente).  Na fala/escrita desses “não-agentes” a frase feita, evidentemente irreal, ganha status de realidade.

A carapaça do senso comum se estabelece sem concorrência. O antídoto não é oferecido. Os padrões de conduta são internalizados sem que a competência ligüístico-cognitiva para contestá-los seja desenvolvida. Esse é o pior analfabetismo.

O problema está colocado, tudo está em discussão. Os comentários são todos muito bem-vindos. Melhor do que pensar é repensar.

Contribuição a mais para o nosso ordenamento penal

Saturday, June 13th, 2009

Ainda bem que os nossos parlamentares não param de trabalhar. Garibaldi Alves (PMDB-RN) nos oferece uma imprescindível contribuição legislativa. Afinal de contas, além das saúvas, os jogos de azar estão entre os maiores problemas do Brasil.

COISAS ESTRANHAS II

Friday, June 12th, 2009

As coisas estranhas continuam ocorrendo. Agora a bagaça do dashboard só funciona no Opera. Uma coisa que já não me alegra nem um pouco é mexer em templates e configurações de site/blog. Já foi o tempo em que ficava lendo livros de “HTML para dummies” (essa é, inclusive, uma das antiguidades impressas em papel que prentendo usar para acender a minha futura churrasqueira) com o prosaico objetivo de  fazer páginas cheias de gifs animados. Como já disseram, nada tão antigo como o passado recente. Então, buscando o mais simples, esperando que a simplicidade devolva a funcionalidade ao dashboard, apliquei o tema default do Wordpress. Ainda não resolveu. Mas, após vários anos de mexidas toscas na web, acredito piamente que o melhor remédio para esses códigos voluntariosos é uma boa noite de sono. Amanhã tudo deve voltar ao normal. Espero.

Quase voltando

Friday, June 12th, 2009

Já tenho condições técnicas de voltar a blogar. A internet já está funcionando. Não dependo mais da rede aberta do vizinho (que fica conectado poucas horas por dia). Mais tarde vou postar os links deixados pelo Daniel. Tenho que colocar em dia o google reader.  Acho que vai ser preciso zerar algumas assinaturas, não vou conseguir ler tudo. A casa ainda está uma zona. Vamos sair agora para procurar alguns móveis indispensáveis à organização. A pior parte da arrumação fica com as várias caixas de livros. Estou decido a me livrar de boa parte deles.

O retorno definitivo depende agora mais da minha cabeça. É interessante como uma mudança nesses tempos superconectados provoca um desalinhamento entre as nossas preocupações pessoais e o que acontece no resto do mundo.  Enquanto penso em estantes e guarda-roupas, o pau quebra na USP, na Petrobras e por aí afora.  Bom, o processo de realinhamento cognitivo está em curso…mas primeiro tenho que achar, pelo menos, um armário para roupas e uma estante para livros.

COISAS ESTRANHAS

Friday, June 5th, 2009

Coisas estranhas estão acontecendo. Começou a dar “erro 500″ no blog ontem. Ainda está instável. Parece que o problema vai voltar. Neste fim de semana estou mudando de  casa. Estamos em final de semestre na faculdade. Não tenho muito tempo para verificar o problema.

Conclusão: este blog pode ficar meio parado nos próximos dias. Mas eu volto!

Isso é que dá mexer com o sagrado…

ATUALIZAÇÃO: a bagaça do dashboard funciona no IE 8.0, mas não funciona no Firefox 3.0.

ATUALIZAÇÃO 2: Parece que o problema foi causado por um permalink. Vamos esperar para ver se não dá mais pau.

Sou feliz por ser ateu ou entrando na guerra dos adesivos (armado)

Thursday, June 4th, 2009

Demorou, mas chegou! Não sou mais um silencioso espectador da batalha que se trava nas ruas de Belo Horizonte. Tenho voz.  O peixe darwinista está grudado na traseira do meu carro. Os engarrafamentos já não são os mesmos. Se o ar condicionado e o pendrive de 8 gigas espetado no aparelho de som já me desestressavam, ganho agora a sensação reconfortante de dirigir um panfleto, um carro-manifesto.

Peixe evolucionista

Peixe evolucionista

Comprei aqui. Pouco mais de 10 dólares, com o envio. Aguardo o alistamento de novos soldados no exército da ciência!

Para quem não acompanhou: começocontinuação

Gripe

Tuesday, May 26th, 2009

Vim aqui apenas para justificar a infreqüência e, pricipalmente, a falta de resposta aos últimos comentários. Peguei uma gripe na sexta-feira. Senti o exato momento em que os sintomas começaram a se manifestar. À noite tomei um remédio vendido-sob-prescrição-médica-sem-prescrição-médica e passei o sábado inteiro meio acordado, meio dormindo. No domingo me ocupei de descansar de um sábado sonolento. Aproveitei para ler mais de 1/3 do “Armas, Germes e Aço” do Jared Diamond. Por coincidência, assim que comprei o livro, descobri uma trilha de links para uma polêmica entre antropólogos e o Diamond. E leituras que levam a leituras são sempre melhores do que leituras que não levam a nada.

Antes de escrever essas besteiras aqui, como não poderia deixar de ser, dei uma googlada. Descobri que não tive/tenho gripe, mas um reles resfriado. O fato é que o remédio me derrubou mais do que a suposta gripe. Afinal, como mostra o Diamond, não é um virus amigo qualquer que derruba um descendente de eurasianos. Mas estava mesmo precisando compensar o déficit semanal de sono.

Gripe no google é a suína. De todas as informações, as mais curiosas que vi desde o início dessa seqüência de notícias (que será, em breve, substituída por outra) são as que falam do “autocontágio“.  Isso prova que os humanos são meio doidos. Se em situações não muito graves aparecem idéias “interessantes”, imagine o que aconteceria numa verdadeira catástrofe mundial. Imagine uma pandemia definitivamente mortal. Não é, evidentemente, algo bom de se imaginar. Mas o que fariam diante do fim iminente – e ignorante das hierarquias de classe – os humanos atuais, especialmente aqueles mais seguros de sua identidade e de seu destino, supostamente garantidos por seu patrimônio material? Uma pista do que são capazes os “bípedes implumes” pode ser encontrada no “História do medo no ocidente“, de Jean Delumeau. No século XIV, o problema era a peste, sem dúvida pior que a nossa gripe do porco. Algo semelhante à peste na aldeia global? A sensatez não seria a regra.

Terminando: para informações sobre a gripe suína em português visite o Science Blogs Brasil. Clique aqui para ir diretamente aos links do portal.

Algumas notas inconclusivas roubadas do tempo de sono

Wednesday, May 13th, 2009

Chego em casa às 11 da noite. Ligo o computador e a tevê, volume baixo, na Globo News. Vou para o Google Reader para saber do que interessa, enquanto escuto ao longe as abobrinhas de um programinha da Waldvogel. Parece que o tema tem a ver com reforma política. Como os ouvidos não têm tampa (daí o ditado “melhor ouvir do que ser surdo”) , escuto qualquer coisa como “o voto é a grande arma do cidadão”. Felizmente um dos convidados (Henrique Fontana – PT/RS) relativizou a afirmação. Essa é a “politização” que as Organizações Tabajara Globo esperam dos seus súditos: comparecer na data marcada numa seção eleitoral e digitar os números dos seus candidatos, que depois serão “denunciados” no Jornal Nacional. “Político é tudo ladrão”. Mas não tem problema. “O brasileiro não tem mesmo memória!” E tome chavões na cabeça. Padrão “Fauto Silva” de consciência política.

Vejo no Rainha Vermelha uma foto de um macaco sem pelos (o post é muito mais interessante do que a minha memória biográfica). É inevitável me lembrar de um dos muitos casos que meu avô contava. Certa vez foi convidado a participar de uma refeição cujo prato principal seria um pequeno macaco. Declinou quando viu o macaco despelado e notou a grande semelhança com uma criança humana. Não tenho idéia do que o meu avô pensaria sobre a teoria da evolução. Mas tenho certeza de que a experiência do macaco/criança o aproximava da conclusão de que somos mamíferos-primatas como quaisquer outros.

Essa lembrança me remete a uma conversa recente com meus alunos. Falávamos sobre o ditanciamento que se estabeleceu entre o consumidor moderno de carne e o animal que a oferece. Compramos as “peças” no supermercado, naquelas bandejas com cortes pré-definidos – e nos esquecemos convenientemente que são parte de animais que já foram vivos. Cresci na “roça”.  A carne à mesa, com freqüência, andava há pouco pelo quintal. Para os urbanos, essa informação pode ser estranha. Tem muita gente por aí que não liga o bife ao boi. Não sou e nem pretendo ser vegetetariano. Mas não deixa de ser interessante essa situação de que hoje as pessoas comem coisas cuja origem desconhecem completamente. Se soubessem, não comeriam.

Essas notas talvez seguissem por outros caminhos, mas para chegar até aqui tive que recorrer  a um “ponto de restauração do windows” e tive que escrever novamente alguns pedaços. Parece que isso foi obra de uma interação pouco amistosa entre o meu notebook e o windows-update. Moral da história: não legalize o seu windows por causa  das  vantagens que que a MICOsoft oferece. O windows é um programa pirata por essência. Não adianta a Microsoft oferecer agora as vantagens da legalização.  (Em tempo: estou escrevendo a partir de uma cópia perfeitamente legal do Vista).

Como digo aos meus alunos: só mais uma coisa, para concluir, SILÊNCIO, sigam a discussão sobre a conscientização ambiental  a partir do blog da Lúcia. Quero entrar na conversa, mas agora não posso.

A imprevisibilidade do futuro

Wednesday, May 6th, 2009

[Já que o tempo me falta e ainda tenho que dormir, republico - com pequenas modificações - um texto escrito para o antigo blog. Os comentários dos posts anteriores serão respondidos em breve.]

O futuro desperta a imaginação das pessoas. Talvez porque seja muito fácil inventá-lo. Talvez o futuro imaginado seja o que nos resta, já que vivemos em um presente irremediavelmente absoluto. Mas será realmente possível prever o futuro?

No Banco de Dados da Folha de S. Paulo, encontra-se uma matéria publicada pela Folha da Manhã em janeiro de 1925. Um livro do professor A. M. Low é resenhado. O escritor não se intimidou e já foi logo apontando as suas previsões para o até hoje longínquo ano de 2925. Com toda essa antecedência, não é difícil liberar a criatividade.

Os que estiverem vivos no final do terceiro milênio terão a vantagem de não precisar mais dormir. Infelizmente, nós que já não nos contentamos com as 24 horas disponíveis diariamente não estaremos mais aqui para usufruir desse avanço.

O repórter da Folha da Manhã esclarece:

A energia vital, que conserva o funccionamento do corpo, é, não há de negar, uma fucção eletrica. Si se pudesse obter um systhema pelo qual o corpo absorvesse essa eletricidade da atmosphera, certo não seria necessario o somno para que se recuperassem as energias dispendidas e se continuasse a viver.

O professor Low acredita na proximidade dessa invenção, que evitaria ao homem, cançado pelo trabalho ou pelo prazer, a necessidade de um somno restaurador, effeito que elle obteria directamente do ether, por intermedio de suas vestes, perfeitamente apparelhadas com um metal conductor e ondas de radio que lhe proporcionariam a parte de energia necessaria para continuar de pé, por mais um dia.

Dess’arte, nas farras ou defronte á mesa de trabalho, receber-se-ia, através das vestes, a energia reparadora, sufficiente para que o prazer ou a tarefa continuassem por tempo indefinido, sem o menor cançaço.

Não é uma maravilha? Nossa estadia no planeta aumentaria em 30%.

No entanto, nem tudo será assim tão perfeito. Os homens e as mulheres do século XXX serão completamente carecas. As causas da calvície generalizada, devem ser vistas como uma advertência para os que abusam dos cortes, dos chapéus, dos bonés, das boinas e das toucas:

Referindo-se á queda do cabello, o professor Low affirma que, dentro de mil annos, a raça humana será absolutamente calva. E attribue estes effeitos aos constantes cortes de cabello, tanto nos homens como as mulheres e aos ajustados chapéos, que farão cahir a cabelleira que herdamos dos monos – doadores liberaes do abundante pêlo que nos cobre da cabeça aos pés, mas que a pressão occasionada pelos vestidos e calçados fará desapparecer totalmente.

Finalmente, em meio a várias previsões imprudentes, o professor Low dá uma quase dentro. Só não foi mais exato, porque a cautela o fez chutar a sua bola de cristal com tanta força que não só passou por cima do travessão, como ultrapassou os limites do estádio e foi cair no ano de 2925. Com a palavra o entusiasmado repórter:

O sabio inglez prevê ainda o desapparecimento dos grande diarios, que serão substituidos por livros, magazines illustrados e revistas especiaes, porque – continua Low, dentro de mil annos, pouco mais ou menos, com o premir de um simples botão electrico, receber-se-ão informações de todas as partes do mundo, o que não impedirá que, ao contacto de outro, se veja na tela-visão, que cada casa possuirá, ao mesmo tempo, uma corrida de cavallos em Belmont-Park, Longchamps ou Paris, ainda que se resida numa villa da America ou da Africa.

Delírios futuristas à parte, o fato é que, como mostra Alasdair MacIntyre [link trocado depois de advertência acertada do Gabriel], uma inovação conceitual radical é imprevisível porque, já na própria previsão, o conceito teria que ser, pelo menos, esboçado. Se é esboçado na previsão, não é um conceito do futuro, mas do presente. Por exemplo: antes da invenção da roda seria impossível alguém adiantá-la sem, ao mesmo tempo, inventá-la. Se alguém dissesse: “no futuro existirá a roda”. Alguém perguntaria: “O que é roda?” A explicação do futurólogo já seria a invenção da roda. Entre as previsões do professor Low não há nenhuma que mencione um conceito radicalmente novo. Nem poderia existir. Mesmo no caso da “tela-visão” não há muita novidade, considerando que a transmissão de sons por meio de ondas de rádio já era conhecida. O realmente novo é e sempre será imprevisível. É por isso que a história e a ciência nunca terão fim, como já quiseram afirmar.

Feriado, ausência e retorno

Tuesday, April 14th, 2009

O retorno do feriado é, como sempre, marcado pelas notícias sobre as estatísticas de acidentes de trânsito, quilometragens de engarrafamentos e transtornos nas rodoviárias. Alguns criticam o fato de que a imprensa sempre repete o mesmo noticiário nas mesmas datas. Mas a falta de criatividade dos jornais não seria correspondente à falta de criatividade das pessoas, que se comportam de uma forma insistentemente regular?

Bom, minha estatística de retorno do feriado se resume a um número. Dez dias sem postar. Meu feriado foi de trabalho. Correção de provas e exercícios. A internet ficou em segundo plano. Poucos dias de menor freqüência à internet tiveram como efeito mais notável a multiplicação de itens não lidos no Google Reader. Não vou escrever sobre a quantidade cada vez maior de informações que recebemos em intervalos de tempo cada vez menores porque seria chover no molhado. Vai longe o tempo em que um jornal impresso diário durava um dia inteiro. Antigamente, quando ainda assinava jornais, costuma chegar em casa no final da noite e levar o jornal do dia para ler na cama, antes de dormir. Não tenho mais esse hábito. Evito receber papel natimorto em casa há um bom tempo. Melhor seria levar o notebook ou o celular, mas não levo nenhum dos dois e tenho dormido desatualizado.

Hoje pela manhã, quando passava as folhas de um jornal impresso que circula em Minas Gerais, pensei na validade cada vez mais limitada das informações nos dias atuais. Folheava o “caderno de informática” e me surpreendi com a sobrevivência da velha e boa coluna de perguntas e respostas sobre problemas com computadores. Alguém perguntava: “Instalei o programa “x” e a minha máquina enlouqueceu, travou tudo, etc, etc.” O técnico dava uma resposta qualquer.

Quem, nessas alturas do campeonato, insiste em resolver dúvidas de informática por meio de cartas (emails, na verdade) para um jornal? O caderno de informática é semanal. Caso o freguês tenha sorte de ver a sua pergunta respondida, vai esperar vários dias. Considerando que a consulta tenha sido feita por email, o que explica a decisão de mandar uma mensagem, que talvez nem seja respondida, em vez de digitar a dúvida no Google? Será que alguma daquelas perguntas foi enviada por meio de uma obsoleta carta de papel, escrita com caneta esferográfica e com um selo postal colado com cuspe? Duvido.

Enfim, volto do feriado de trabalho com essa pergunta um tanto ociosa: quem são esse usuários de computadores que perguntam ao colunista do jornal porque o Windows deu mais um pau e ficam uma semana esperando pela resposta?

CONTRA O PROJETO AZEREDO

Tuesday, March 24th, 2009

Informe-se pelo blog do Sérgio Amadeu sobre o projeto que ameaça a internet no Brasil.

Assine a petição online contra o projeto do senador Azeredo.

Contra o projeto ineficaz do senador Azeredo.

Cartaz elaborado por Mario Amaya.

Cenas dos próximos capítulos

Thursday, March 5th, 2009

Há dois assuntos que pretendo explorar, mas nesta semana ainda não tive tempo suficiente. Inclusive, entre os compromissos, tenho um amanhã que talvez resulte em um terceiro post. Promessas…

Para o movimento aqui não ficar muito parado, deixo os links dos dois posts que me chamaram a atenção. Ambos do blog Sociological Images.

Um trata do livro recém-lançado “Banal Nationalism“. Penso que uma discussão sobre o “nacionalismo banal à brasileira” pode ser muito interessante. Link para o post.

Outro trata da informação de que o número pessoas cumprindo algum tipo de medida correcional (do encarceramento à liberdade condicional) nos Estados Unidos atingiu a proporção de 1 para 31. De cada 31 americanos adultos, 1 cumpre alguma medida de controle social (3,2% da população). O mais grave é que os dados desagregados por segmentos demográficos mostram que, de cada 11 adultos negros, 1 cumpre alguma medida correcional. Enquanto isso, na sala de justiça, de cada 45 adultos brancos, 1 está submetido a algum tipo de medida penal. Link para o post.

Aproveitando o ensejo, gostaria de dizer que vejo os blogs em geral e este em particular como espaços de discussão e debate. Meus posts serão sempre insuficientes e incompletos. Caso contrário, seriam ensaios ou artigos, que também seriam incompletos e insuficientes, mas teriam, pelo menos, a prentensão de aprofundamento. Não tenho a pretensão de aprofudar e, muito menos, de esgotar os assuntos nos posts. É para isso que existe a caixa de comentários: para que cada visitante deixe a sua contribuição, concordando ou discordando. Os posts não são mais do que pretextos para a conversa. Você, visitante, fique totalmente à vontade para discordar, acrescentar, corrigir. Eu mesmo discordo de mim quase o tempo todo.

É carnaval!!! (versão globalizada)

Sunday, February 22nd, 2009

Minha amiga Lúcia Malla escreveu: “é carnaval, é a doce ilusão”. E nos mostrou a folia tentacular de uma anêmona fotografada por Andre Seale.

Eu me inspirei e também escrevi: “é carnaval!!!” Como não vou muito com a cara do carnaval desde que, em meados da década de 1970, me fantasiaram de pirata e me empurraram para uma matinê, vou de carnaval globalizado. Traumas de infância são persistentes…

Não vou escrever no blog até o início do ano fim do carnaval. Então deixo com vocês dois sambinhas globalizados.

O primeiro do Depeche Mode – “Just can’t get enough” – em gravação do Nouvelle Vague, voz de Eloisia.

O segundo do Buzzcocks – “Ever fallen in love” – também em gravação do Nouvelle Vague, voz de Melanie.