Archive for the ‘A gerência’ Category

Contradição do ateísmo

Tuesday, February 10th, 2009

O post anterior provocou vários comentários interessantes e quero dizer o que penso de cada um deles. Mas já está tarde e tenho que madrugar. Os comentários dos comentários vão ficar para depois. Gostaria de dizer apenas o seguinte: É evidente que o ateísmo militante não é a única e nem a mais importante causa do aumento do apoio ao criacionismo, design inteligente e similares. No entanto, continuo acreditando que Dawkins deu um tiro no pé com o “Deus, um delírio”. Além de ter escrito um livro que considero ruim, caiu em uma armadilha. Entrou no jogo dos crentes. Sobre essa armadilha, penso que John Gray (Cachorros de Palha – Record – 2006) acertou na veia quando escreveu:

A descrença é uma jogada num jogo cujas regras são estabelecidas pelos que crêem. Negar a existência de Deus é aceitar as categorias do monoteísmo. Quando essas categorias caem em desuso, a descrença torna-se desinteressante e, em pouco tempo, sem sentido. Os ateus dizem que querem um mundo secular, mas um mundo definido pela ausência do deus cristão continua sendo um mundo cristão. O secularismo é como a castidade, uma condição definida pelo que é negado. Se o ateísmo tem um futuro, só pode ser uma revivificação cristã; mas de fato o cristianismo e o ateísmo estão declinando juntos. O ateísmo é um fruto tardio da paixão cristã pela verdade. Nenhum pagão está pronto para sacrificar o prazer da vida em troca da mera verdade. Prezam a ilusão artificial, não a realidade despida de enfeites. Entre os gregos, a meta da filosofia era a felicidade ou a salvação, não a verdade. A adoração da verdade é um culto cristão. Os antigos pagãos estavam certos ao estremecer diante da assustadora determinação dos primeiros cristãos. Nenhuma das religiões de mistérios que abundavam no mundo antigo pretendia o que os cristãos afirmavam – que todas as outras crenças estavam erradas. Por isso mesmo nenhum de seus seguidores poderia algum dia tornar-se um ateu. Quando os cristãos insistiam em que apenas eles possuíam a verdade, condenavam a extravagante abundância do mundo pagão à danação final. Num mundo de muitos deuses, a descrença nunca pode ser total. Pode apenas significar a rejeição de um deus e a aceitação de outro ou, como no caso de Epicuro e seus seguidores, a convicção de que os deuses não importam, já que há muito deixaram de se importar com as questões humanas. O cristianismo atingiu, na raiz, a tolerãncia pagã à ilusão. Ao sustentar que existe uma única fé verdadeira, deu à verdade um valor supremo que não tinha tido antes. E também tornou possível, pela primeira vez, a descrença no divino. A conseqüência de efeito retardado da fé cristã foi uma idolatria da verdade que teve sua mais completa expressão no ateísmo. Se vivemos num mundo sem deuses, devemos agradecer ao cristianismo.

Continuo em breve…

Novo Semestre

Monday, February 2nd, 2009

Pois é, estamos começando mais um semestre. Mais um período de conversas sociológicas. Depois de 15 anos dando aulas de sociologia, ainda me surpreendo com a distância que essa disciplina pode estabelecer em relação aos não iniciados. Não se trata de uma área distante, esse é o motivo da surpresa. A sociologia fala do dia-a-dia de cada um de nós. Daquilo que nos é mais próximo. Talvez a proximidade provoque o distanciamento. “Tão perto, tão longe”. Gostaria muito de contribuir para que todos superassem esse distanciamento em relação a essa disciplina tão próxima. O nome deste blog tem a ver com esse objetivo. O exercício da “imaginação sociológica” é uma forma de desenvolvermos uma compreensão do mundo com horizontes ampliados. Percebendo como somos criados por uma complexa sociedade global e como ela é, ao mesmo tempo, um produto de nossas ações cotidianas. Esse é o exercício que proponho a cada aluno: observar como a sociedade nos impõe algumas ações e como nós contribuímos para a construção e manutenção da sociedade na qual vivemos. Espero, pelo menos, sensibilizar as pessoas para alguns problemas que enfrentamos em nossa vida diária. O cotidiano, muitas vezes, nos absorve. Mas cada gesto cotidiano está, de alguma forma, interligado a resultados coletivos e complexos. Colocando em prática a “imaginação sociológica”, talvez seja possível compreender melhor essa situação.

Sejam bem-vindos a este blog. Paricipem das discussões. Abaixo de cada post, há um link para os comentários. Vamos construir esse espaço em conjunto, trocando idéias e informações. Aguardo as contribuições de cada um.

Começando – 2009

Saturday, January 24th, 2009

Começando este blog junto com um ano estranho que também começa. Ou tenta…

Crise econômica inesperada-mas-já-bastante-anunciada, com as conseqüências mais profundas ainda por se apresentarem. Novo presidente do mundo dos Estados Unidos, mas que talvez não seja tão novo assim, pois nada é mesmo completamente novo nesse mundo já meio velho e repetitivo.

No Brasil, 2009 já começa em 2010 e daqui a pouco o ano acaba e ninguém vai saber muito bem por onde ele passou.

Enfim, sem mais delongas, este é apenas o chute inicial. Diria que é uma “bicuda”, que a direção da bola é incerta e que é assim que deve ser. Espero que ela vá longe, quicando por aí e encontrando sempre a melhor direção. O caminho será construído pelo próprio percurso.

Estamos então começados. E que 2009 também comece e, mais importante, termine melhor do que começou. Pois já estamos quase em 2010.