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Literatura e Fotografia: Juan Rulfo

Sunday, April 19th, 2009

O mexicano Juan Rulfo (1917 – 1986) é mais conhecido como um dos maiores escritores latino-americanos. Mas foi também um grande fotógrafo. Em suas fotografias, Rulfo revela a mesma apreensão da realidade que caracteriza a sua literatura de poucas, porém valiosas, páginas.

Para Carlos Fuentes, “las fotografías de Juan Rulfo [...] parecieran atestiguar a primera vista, por más que retraten desiertos, pedregales y muros desnudos, una maravillosa transparencia líquida, como si fuesen retratos de agua. Es como si Rulfo se asomase fuera de las tumbas de Comala para descubrir la luminosidad de las sombras“.

Fotografia de Juan Rulfo

Fotografia de Juan Rulfo

Há a luz dura e transparente do sol, que deixa tudo quieto, como se “tudo estivesse à espera de alguma coisa“. Há também, conforme Fuentes, o fogo sombrio que vem das brasas da terra. Comala (a cidade de Pedro Páramo) fica bem na boca do inferno. O lugar é tão quente que “muitos dos que morrem por lá, quando chegam ao inferno voltam para buscar um cobertor“. Existe sempre alguma coisa oculta por trás da primeira aparência. A luminosidade mais clara  e esperançosa denuncia as sombras que podem capturar a felicidade dos moradores, que continuam andando por Comala, mesmo depois de mortos. Só há vida no mundo dos vivos, mesmo para os mortos, condenados às suas sepulturas.

Há “uma terra em que tudo se dá, graças à providência, mas tudo se dá com acidez“. Há um povo prisioneiro dos próprios sonhos que se revelam promessas incumpridas. As ilusões são perigosas. E o que seria a ilusão senão uma apreensão limitada da realidade? Somente luz ou somente sombra, quando a sombra nasce da luz e a luz pode ser sombria?

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Fotografia de Juan Rulfo

– Ilusão? Isso custa caro. A mim custou viver mais do que o devido. Paguei com isso a dívida de encontrar meu filho, que não foi, por assim dizer, nada além de uma ilusão a mais; porque nunca tive filho algum. Agora que estou morta me deu tempo para pensar e ficar sabendo de tudo. Nem mesmo o ninho para guardá-lo Deus me deu. Só esta longa vida arrastada que tive, levando daqui para lá meus olhos tristes que sempre olharam de viés, como buscando atrás das pessoas, suspeitando que alguém tivesse me escondido o meu menino. E tudo por culpa do maldido sonho. Tive dois: um deles eu chamo de ‘bendito’ e o outro de ‘maldito’. O primeiro foi o que me fez sonhar que tinha tido um filho. E, enquanto vivi, nunca deixei de acreditar que fosse verdade; porque o senti entre meus braços, novinho, terno, cheio de boca e de olhos e de mãos; durante muito tempo conservei em meus dedos a impressão de seus olhos adormecidos e o palpitar de seu coração. Como não ia pensar que aquilo fosse verdade? Eu o levava comigo aonde quer que fosse, envolto no meu xale, e de repente o perdi. No céu me disseram que tinham se enganado comigo. Que tinham me dado um coração de mãe, mas um seio de uma qualquer. Esse foi o outro sonho que tive. Cheguei ao céu e fui ver se entre os anjos reconhecia a cara de meu filho. E nada. Todas as caras eram iguais, feitas com a mesma fôrma. então perguntei. Um daqueles santos se aproximou de mim e, sem me dizer nada, afundou uma das mãos em meu estômago, como se a tivesse afundado num montão de cera. Ao tirá-la, mostrou algo assim como uma casca de noz: ‘Isto prova o que demonstra’.

Você sabe como eles falam esquisito lá em cima; mas dá para entender.  Quis dizer a eles que aquilo era só o meu estômago enrugado pelas fomes e pelo pouco que comi; mas outro daqueles santos me empurrou pelos ombros em mostrou a porta de saída: ‘Vai descançar um pouco mais na terra, filha, e procure ser boa para que seu purgatório não seja tão longo’.

Esse foi o sonho maldito que tive e do qual tirei a explicação de que nunca havia tido nenhum filho. Soube quando já era demasiado tarde, quando meu corpo tinha se desmedrado, quando a espinha saltou por cima da minha cabeça, quando já não podia caminhar. E de arremate, o povoado foi ficando sozinho; todos tomaram caminho para outros rumos e com eles foi-se embora também a caridade da qual eu vivia. Então me sentei para esperar a morte. Depois que encontramos você, meus ossos se revolveram e ficaram quietos. Ninguém me dará importância, pensei. Sou uma coisa que não estorva ninguém. Você vê, nem mesmo roubei espaço aqui na terra. Fui enterrada na sua própria sepultura e coube muito bem no oco dos seus braços. Aqui neste canto, onde você me vê agora. Só me ocorre que deveria ser eu que estivesse abraçando você. Está me ouvindo? Lá fora está chovendo. Você não sente o bater da chuva?

– Sinto como se alguém caminhasse em cima de nós.

– Deixe de ter medo. Ninguém mais pode botar medo em você. Faça por pensar em coisas agradáveis porque vamos estar muito tempo enterrados.

–> Trecho de “Pedro Páramo”. Edição da “Record”. Tradução de Eric Nepomuceno.

–> Post parcialmente inspirado pelo texto de Carlos Fuentes.

Fotografia: Lewis Hine

Saturday, February 7th, 2009
Lewis Hine

Lewis Hine - Fotografia de Robert W. Marks

O fotógrafo, sociólogo e professor norte-americano Lewis Hine (1874-1940) usava a sua câmera como um instrumento a favor da reforma social. Esse objetivo é evidente no trabalho realizado, no início do século XX, para o National Child Labor Committee (NCLC). Hine documentou o emprego de crianças a partir de cinco anos de idade em pesadas atividades remuneradas. No ano de 1900, nos Estados Unidos, cerca de 20% das crianças entre cinco e dez anos de idade estavam trabalhando. As imagens eram usadas para alertar as autoridades para a necessidade de elaboração de leis contrárias ao trabalho infantil.

Hine chamava a si mesmo de “fotógrafo social”. A combinação que estabeleceu entre a sociologia e a fotografia tem a ver com a perspectiva dos primeiros sociólogos dos Estados Unidos, que viam a nova disciplina como um empreendimento essencialmente prático muito próximo do assistencialismo. A produção teórica e empirica mais preocupada com a explicação científica dos fenômenos sociais, desenvolvida por aqueles estudiosos que procuravam conquistar um lugar mais respeitável nas grandes universidades, começou somente por volta da década de 1920.

As fotografias das crianças são sensíveis e denunciam a sua precária situação sem apelar para o drama exagerado. Os retratados têm a sua dignidade respeitada e se apresentam com altivez.

Hine também é autor de muitas fotografias que registram a construção do Empire State Building.

CRIANÇAS TRABALHADORAS

Algumas crianças eram tão pequenas que tinham que subir nas máquinas para operá-las:

Fotografia de Lewis Hine

Subindo na máquina



As condições de trabalho nas minas destruíam a saúde dos meninos. O pó denso penetrava nos pulmões:

Fotografia de Lewis Hine

Na mina - destaque para o capataz empunhando um bastão usado para castigar os desobedientes



As meninas também trabalhavam:
Menina na tecelagem - dignidade preservada pelo fotógrafo, apesar da gravidade da situação

Menina na tecelagem - dignidade preservada, apesar da gravidade da situação



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