Archive for the ‘Observações Aleatórias’ Category

Quase uma década

Thursday, June 25th, 2009

Recomendo que este post seja lido em associação com esse post da Flávia. Não espere conclusão ou coerência. A seguir, apenas algumas idéias desconexas.

Estamos próximos de completar a primeira década do século XXI. É impressão minha ou neste final de década as coisas estão se precipitando de uma forma torrencial? Pode ser que vários elementos que foram se configurando a partir da segunda metade dos anos 1990 estejam agora transbordando. Penso especificamente na revolução proporcionada pela WEB e num possível salto qualitativo que estaria acontencendo agora, debaixo das nossas barrigas. Para citar apenas três casos emblemáticos, podemos apontar a morte da indústria fonográfica, o estertor da mídia impressa e a crise dos direitos autorais sobre obras impressas em papel provocada pela facilidade da reprodução eletrônica.

Cortázar escreveu no maravilhoso “Histórias de Cronópios e Famas” (1962):

Cada vez más los países serán de escribas y de fábricas de papel y tinta, los escribas de día y las máquinas de noche para imprimir el trabajo de los escribas. Primero las bibliotecas desbordarán de las casas; entonces las municipalidades deciden (ya estamos en la cosa) sacrificar los terrenos de juegos infantiles para ampliar las bibliotecas. Después ceden los teatros, las maternidades, los mataderos, las cantinas, los hospitales. Los pobres aprovechan los libros como ladrillos, los pegan con cemento y hacen paredes de libros y viven en cabañas de libros. Entonces pasa que los libros rebasan las ciudades y entran en los campos, van aplastando los trigales y los campos de girasol, apenas si la dirección de vialidad consigue que las rutas queden despejadas entre dos altísimas paredes de libros.

Mas Cortázar não sabia dos HDs medidos em terabytes e das redes sem fio. Vivemos imersos em palavras, mas elas não estão apenas impressas em papel e não constituem o nosso piso e as nossas paredes. Estão e constituem o ar que respiramos. Circulam, fluem, nas redes wireless a partir de finíssimos discos magnéticos interligados.

É sabido que o conhecimento se distribui socialmente. Em qualquer época, alguns são produtores e outros são consumidores, uns têm acesso e outros não. No passado havia maior simetria. Produtores e consumidores formavam uma única comunidade. O acesso era muito restrito. Pense na reprodução manual de livros anterior aos tipos móveis. Poucos sabiam decifrar a escrita. Agora a alfabetização formal e as facilidades de acesso fazem com que poucos produtores sejam consumidos por uma massa gigantesca de meros consumidores/replicadores. Um zemané qualquer concebe uma boutade duvidosa qualquer e, imeditamente, ela inunda as caixas postais eletrônicas de centenas de pessoas que replicam aquela informação, que se torna rapidamente onipresente.

A assimetria entre produtores e consumidores/replicadores é mais uma ameaça ao pensamento autônomo. O pensamento hoje vem em pacotes fechados, transmitido via email, redes sociais, embutido em hardwares ou softwares. É desnecessário pensar para acessar o conhecimento. Basta apertar botões, com o dedo ou com o mouse. O copy & paste oferece a pá de cal do pensamento autônomo.

Sempre me intrigou a representação em filmes de ficção científica, como na seqüência “Guerra nas Estrelas”, de indivíduos (ou grupo/espécies) aparentemente broncos, mas detentores/utilizadores de tecnologia sofisticada. Não faz muito sentido a imagem de um indivíduo habitante do deserto inóspito, vestido com peles de animais, que faz uso de aparelhos de comunicação intergalática.

Não seria, no entanto, essa representação muito real? Não é essa a realidade que enfrentamos em nosso cotidiano?  Não é fato que qualquer pessoa, incapaz de escrever um texto de três linhas que seja fruto do pensamento autêntico, carrega no bolso um dispositivo que acessa facilmente todo o estoque de conhecimento disponível e o replique com extrema facilidade por meio do “copy & paste” ?

Vivemos no mundo da replicação.  Replicação, autoria, não-autoria, anti-autoria. Sem dúvida, não é por falta de problemas que ficaremos entediados.

Vôo AF 447

Tuesday, June 2nd, 2009

Diante da mais nova pletora de informações técnicas e expressões de sentimentalismo barato (sem querer desfazer do sofrimento de quem, de fato, sofre) só consigo me impressionar com a repetição. Neste exato momento a Globo News recita os dados técnicos do avião A 330-200 que caiu. Entrevista os especialistas que terão os seus 15 minutos de fama. Familiares expressam as dores relacionadas ao acidente. As vítimas são nomeadas e suas credenciais são listadas.

Tudo certo. É mesmo uma situação grave, dolorosa e triste. Não pretendo negar essa realidade. Mas o Ministério das Cidades informa que, nos últimos 10 anos, 327.469 pessoas morreram em acidentes de trânsito no Brasil. São 98 mortes por dia, 35 mil por ano. Muito poucas dessas mortes mereceram/merecem atenção igual à dedicada aos mortos do acidente aéreo de hoje e nos anteriores, que ocuparam tão intensamente a imprensa.

Não deixa de ser notável esse imaganinário que se construiu e que se reconstrói em torno dos acidentes aéreos. Uma explicação supostamente neutra diria que a menor freqüência estatística dos acidentes aéreos, em comparação com os acidentes que envolvem automóveis terrestres, responde pelo destaque aumentado. Mas não consigo deixar de pensar que a posição das vítimas na hierarquia social tem mais a ver com as diferenças de comoção. Quando as vítimas partiram de uma rodoviária, ou de uma esquina qualquer num ônibus clandestino, a narrativa é sempre a do desastre esperado, causado pela “imprudência atávica dessa gente”.

Enfim, nos próximos dias vamos saber tudo, mais uma vez, sobre a dor da perda de singulares e insubstituíveis entes queridos cheios de projetos agora interrompidos abruptamente, sobre as intempéries que podem atingir os vôos transoceânicos e sobre as minuciosas tecnicalidades redundantes dos aviões mais perfeitos do mundo. Enquanto isso, os 98 mortos diários nas ruas e estradas brasileiras continuarão sendo nada mais do que estatísticas.

Pra terminar, não posso deixar de mencionar  post do Cloaca News.  Lendo o post do Noblat, especialmente a “correção”, fica muito evidente que a vontade de culpar o Lula é maior do que a dor causada pelo desastre.

Ótimos posts

Thursday, May 28th, 2009

[Texto editado para corrigir erros de digitação. Inserir links e tornar alguns pontos mais claros]

De ontem para hoje, alguns ótimos posts foram publicados. Gostaria de recomendá-los.

Começo com os dois posts da Lúcia (links: post 1post 2) sobre a indústria farmacêutica. Não é sempre que podemos ler as considerações de quem entende de um assunto. O tema dos medicamentos me interessa (principalmente, mas não só por isso) porque diz respeito ao consumo de “drogas”. A paranóia sobre as drogas ilícitas, além de outros prejuízos, contribui para a invisibilidade do problema do consumo das drogas lícitas. Os ansiolíticos, por exemplo, têm sido receitados e usados com enorme facilidade. Não sou especialista e, portanto, não posso avaliar os possíveis danos à saúde causados por essa liberalidade. Mas a ausência de discussão sobre esses danos me deixa intrigado. Se tanta energia é dedicada aos danos à saúde causados pelas drogas ilícitas, por que quase nenhuma é empregada em relação às drogas lícitas? Em tempos de incentivo ao dedo-durismo, não são curiosos os comerciais de Neosaldina? O medicamento, cujo componente principal – a dipirona – não figura entre os mais  inocentes, é apresentado como um Confeti. Por que não voltar ao anúncio dos “cigarros índios“, do início do século XX? (A propósito, Marinol é o medicamento americano feito a partir do THC).

Anúncio do início do século XX - revista Gazeta Médica

Anúncio do início do século XX - revista Gazeta Médica

Como de costume, o Idelber desnuda a indigência intelectual da mais recente mobilização política da “república Ipanema-Morumbi-Belvedere”: Não reeleja ninguém. Não há necessidade de falar mais nada depois do post do Idelber. Nas últimas eleições, votei em branco para deputado federal. Mas tomei essa decisão depois de pensar bastante e chegar à conclusão de que o nosso sistema proporcional combinado com as alianças espúrias é esquizofrênico. Minha decisão atual é votar em eleições proporcionais apenas quando forem proibidas as coligações. Não quero votar em um nome, ou mesmo em uma legenda, sabendo que meu voto ajuda a eleger um energúmeno qualquer do PMDB. Por que os paladinos da “moralzinha na política” não propõem um debate sobre as regras das eleições proporcionais? “Putz, mas assim vamos ter que descobrir quais são as regras atuais! Fazemos tantas coisas! Não temos tempo…”

Como dou aulas para seres humanos que cometem, sem nenhum pudor, o desrespeito de terem nascido no ano de 1992, tenho me ocupado de mostrar que uma denúncia veiculada pela Globo não é, por definição, uma denúncia. Uma enganação muito sedutora, tento alertar, é aquela que apresenta o voto (ou o não-voto) como a maior arma do cidadão. Muito boa essa “arma” (boa pra quem?) que, como se não bastasse o longo intervalo de 4 anos, é  ainda controlada pelo dinheiro e pelo “marketing político”. POLÍTICO NÃO É PRODUTO! Uma campanha com esse slogan não seria mais apropriada que os “cansaços” que andam por aí? Por que não reivindicar uma regulamentação da propaganda política que exclua a contratação de artistas populares, a utilização de “efeitos especiais” e a teledramaturgia?

Por último, mas não menos importante, destaco o post do Rafael sobre o Twitter. Tenho considerado a possibilidade de entrar no tal Twitter. Mas tenho resistido. Os argumentos do Rafael são relevantes. Pra que tantas informações se não conseguimos processá-las? Tenho me policiado também para não embarcar numa fala do tipo “como era bom o meu tempo”. Se tenho me policiado, é evidente que o problema está posto. Os números da minha biografia já estão atingindo valores demasiadamente elevados. Moro em Belo Horizonte há 20 anos. Não é pouco. Minhas referências biográficas estão ficando avantajadas. Freqüento a internet, quase diariamente, desde 1997, quando comprei um avançadíssimo Pentium MMX 200 para substituir o meu valente 386 SX 40. Mas, apesar da idade que não pára de avançar, não tenho saudades dos tempos pré-eletrônicos da minha infância/adolescência. Não sinto a falta da máquina de escrever ou das fichas de orelhão. Meu novo vício, por exemplo, é um smartphone com um pacote de dados 3G. Já sinto dificuldade de usar um desktop que exige uma mesa só para ele e fica preso a um lugar da casa.  Carrego a internet no bolso para qualquer lugar.  E daí? Preciso/precisamos disso?  É possível escapar disso hoje? Mesmo utilizando essa parafernalha toda, cabe questionar o significado dessa overdose de conectividade.

Só uma conclusão (entre várias possíveis): a vida inteligente hoje não está, exclusivamente, impressa em papel. Ainda que o papel não seja, por enquanto, imprescindível, já não é mais, obviamente, suficiente.

Gripe

Tuesday, May 26th, 2009

Vim aqui apenas para justificar a infreqüência e, pricipalmente, a falta de resposta aos últimos comentários. Peguei uma gripe na sexta-feira. Senti o exato momento em que os sintomas começaram a se manifestar. À noite tomei um remédio vendido-sob-prescrição-médica-sem-prescrição-médica e passei o sábado inteiro meio acordado, meio dormindo. No domingo me ocupei de descansar de um sábado sonolento. Aproveitei para ler mais de 1/3 do “Armas, Germes e Aço” do Jared Diamond. Por coincidência, assim que comprei o livro, descobri uma trilha de links para uma polêmica entre antropólogos e o Diamond. E leituras que levam a leituras são sempre melhores do que leituras que não levam a nada.

Antes de escrever essas besteiras aqui, como não poderia deixar de ser, dei uma googlada. Descobri que não tive/tenho gripe, mas um reles resfriado. O fato é que o remédio me derrubou mais do que a suposta gripe. Afinal, como mostra o Diamond, não é um virus amigo qualquer que derruba um descendente de eurasianos. Mas estava mesmo precisando compensar o déficit semanal de sono.

Gripe no google é a suína. De todas as informações, as mais curiosas que vi desde o início dessa seqüência de notícias (que será, em breve, substituída por outra) são as que falam do “autocontágio“.  Isso prova que os humanos são meio doidos. Se em situações não muito graves aparecem idéias “interessantes”, imagine o que aconteceria numa verdadeira catástrofe mundial. Imagine uma pandemia definitivamente mortal. Não é, evidentemente, algo bom de se imaginar. Mas o que fariam diante do fim iminente – e ignorante das hierarquias de classe – os humanos atuais, especialmente aqueles mais seguros de sua identidade e de seu destino, supostamente garantidos por seu patrimônio material? Uma pista do que são capazes os “bípedes implumes” pode ser encontrada no “História do medo no ocidente“, de Jean Delumeau. No século XIV, o problema era a peste, sem dúvida pior que a nossa gripe do porco. Algo semelhante à peste na aldeia global? A sensatez não seria a regra.

Terminando: para informações sobre a gripe suína em português visite o Science Blogs Brasil. Clique aqui para ir diretamente aos links do portal.

Rádio Relógio (AM 580 Khz)

Friday, May 15th, 2009

Você se lembra DA Rádio Relógio? DA e não DO rádio relógio? Considerando que muitos entram na faculdade com 17 anos, no ano que vem terei alunos nascidos em 1993. Ano em que iniciei o mestrado! Para mim, a experiência do evelhecimento já começou. Estou neste planeta há longos 39 anos. Dia desses falei numa aula, advertindo por antecipação que se tratava de uma lembrança de tempos distantes, sobre a Rádio Relógio. Uma aluna respondeu que já tinha ouvido falar DO rádio relógio, sucessor moderno do velho relógio despertador. Quando me vi explicando que não falava de um dos gadgets comuns nos anos 90, mas de uma estação de rádio que se dedicava a transmitir a hora certa durante as 24 horas do dia, percebi que sou mesmo pré-histórico.

Os alunos arregalaram os olhos e duvidaram da existência de uma estação de rádio como a Rádio Relógio. Se você, leitor, já ouviu a Rádio Relógio, não se iluda. Jovem você não é.

Ultimamente, quandos os alunos me cobram uma promessa esquecida (enviar um email, entregar um texto, etc.) digo que minha memória foi uploudada para o google. “Só me lembro do que está no google”. “Um sociólogo francês que viveu entre o século dezenove e o início do vinte? O primeiro nome é Émile? Espere que vou ver no google”.  A Rádio Relógio CONFUNDE ATÉ O GOOGLE! Pesquisando por “rádio relógio”, os resultados são todos sobre um dos principais gadgets dos anos 1990 (lembra dos modelos que vinham com slot para uma bateria de 9 volts que evitava a parada do device por falta de energia elétrica?). Para achar a rádio no google, é preciso incluir alguma referência aos anos 1970.

E o resultado entristece. A outrora pública Rádio Relógio é hoje propriedade do Missionário R. R. Soares. Ouça um trecho das tramissões da Rádio Relógio.

Pois é. Depois que o Hermenauta nos apresentou o blog do bispo Macedo, ninguém pode me acusar de ser implicante com a religião (veja as idéias simpáticas do bispo sobre a Índia). Não implico apenas ou especificamente com a religião. Implico com os engolidores da pílula azul. A imaginação sociológica demanda a pílula vermelha. As religiões intitucionalizadas vendem a pílula azul (lembre-se fiel, o dízimo é sobre o bruto. Deus não tem culpa de o governo meter a mão primeiro no seu salário. Engraçado esse Deus onipotente que perde para a Receita Federal). O RR meter a mão na Rádio Relógio é apenas uma confirmação. É claro que a Rádio Relógio não tinha nenhum conteúdo emancipador, não é esse o ponto. O ponto é a sopa tomada pelas beiradas. Enquanto a maioria está atenta ao que não merece atenção.

O fato é que sou, cada vez mais, assembleista.

Algumas notas inconclusivas roubadas do tempo de sono

Wednesday, May 13th, 2009

Chego em casa às 11 da noite. Ligo o computador e a tevê, volume baixo, na Globo News. Vou para o Google Reader para saber do que interessa, enquanto escuto ao longe as abobrinhas de um programinha da Waldvogel. Parece que o tema tem a ver com reforma política. Como os ouvidos não têm tampa (daí o ditado “melhor ouvir do que ser surdo”) , escuto qualquer coisa como “o voto é a grande arma do cidadão”. Felizmente um dos convidados (Henrique Fontana – PT/RS) relativizou a afirmação. Essa é a “politização” que as Organizações Tabajara Globo esperam dos seus súditos: comparecer na data marcada numa seção eleitoral e digitar os números dos seus candidatos, que depois serão “denunciados” no Jornal Nacional. “Político é tudo ladrão”. Mas não tem problema. “O brasileiro não tem mesmo memória!” E tome chavões na cabeça. Padrão “Fauto Silva” de consciência política.

Vejo no Rainha Vermelha uma foto de um macaco sem pelos (o post é muito mais interessante do que a minha memória biográfica). É inevitável me lembrar de um dos muitos casos que meu avô contava. Certa vez foi convidado a participar de uma refeição cujo prato principal seria um pequeno macaco. Declinou quando viu o macaco despelado e notou a grande semelhança com uma criança humana. Não tenho idéia do que o meu avô pensaria sobre a teoria da evolução. Mas tenho certeza de que a experiência do macaco/criança o aproximava da conclusão de que somos mamíferos-primatas como quaisquer outros.

Essa lembrança me remete a uma conversa recente com meus alunos. Falávamos sobre o ditanciamento que se estabeleceu entre o consumidor moderno de carne e o animal que a oferece. Compramos as “peças” no supermercado, naquelas bandejas com cortes pré-definidos – e nos esquecemos convenientemente que são parte de animais que já foram vivos. Cresci na “roça”.  A carne à mesa, com freqüência, andava há pouco pelo quintal. Para os urbanos, essa informação pode ser estranha. Tem muita gente por aí que não liga o bife ao boi. Não sou e nem pretendo ser vegetetariano. Mas não deixa de ser interessante essa situação de que hoje as pessoas comem coisas cuja origem desconhecem completamente. Se soubessem, não comeriam.

Essas notas talvez seguissem por outros caminhos, mas para chegar até aqui tive que recorrer  a um “ponto de restauração do windows” e tive que escrever novamente alguns pedaços. Parece que isso foi obra de uma interação pouco amistosa entre o meu notebook e o windows-update. Moral da história: não legalize o seu windows por causa  das  vantagens que que a MICOsoft oferece. O windows é um programa pirata por essência. Não adianta a Microsoft oferecer agora as vantagens da legalização.  (Em tempo: estou escrevendo a partir de uma cópia perfeitamente legal do Vista).

Como digo aos meus alunos: só mais uma coisa, para concluir, SILÊNCIO, sigam a discussão sobre a conscientização ambiental  a partir do blog da Lúcia. Quero entrar na conversa, mas agora não posso.

Sou feliz por ser ateu (continuação) ou Entrando na briga!

Saturday, May 9th, 2009

Continuando o post anterior, não quero me desviar da questão proposta. Terminei com a afirmação/pergunta: “Tenho me espantado com a quantidade de carros que exibem algum emblema religioso. ‘Sou feliz por ser católico’, ‘Deus é fiel’, logomarcas de igrejas, acrônimos religiosos diversos. Qual seria a explicação para tamanha necessidade de dizer publicamente ‘acredito nisso ou naquilo’?

De saída, é bom esclarecer que o problema não é especificamente a religião, mas a necessidade de fazer afirmações identitárias públicas e ostensivas. Tal necessidade parece denunciar a fraqueza das mesmas identidades anunciadas publicamente. Googlando sobre “adesivos religiosos automotivos” (não foi bem essa a minha busca, mas a expressão é engraçada), cheguei a um post que se refere à “guerra dos adesivos“. Não tinha pensado em competição, mas a idéia é interessante. É bem possível que a crescente “adesivação religiosa automotiva” tenha a ver com uma cisão religiosa na classe média brasileira (a disputa seria intra-classe na medida em que as batalhas se travam nos vidros e latarias de carros relativamente caros). Se no passado a classe média era quase totalmente católica, hoje existe um contingente evangélico cada vez mais numeroso. O conflito está posto.

Os evangélicos, por serem minoritários e, no interior da classe média, vistos com desconfiança, teriam partido para uma estratégia afirmativa de inversão do estigma: “Sou evangélico, SIM! Tenho orgulho disso, e estou ganhando dinheiro!” A estratégia afirmativa teria se materializado inicialmente no “adorno metálico” do peixe, tradicionalmente católico, conforme o post do Ronaldo, e que teria sido seqüestrado pelos evangélicos. Além do peixe, é muito freqüente o adesivo que informa: “Deus é fiel”.

Nunca entendi essa frase. Mas o google me diz que a frase completa é “Deus é fiel, mesmo quando não somos”. Assim faz mais sentido. Não obstante, a supressão da segunda parte não me parece casual. De fato, parece uma inversão de perspectiva. O humilde pecador, que confiava abolutamente em Deus, parece agora ameaçá-lo: “Seja fiel! Ou não conte comigo” (a classe média, especialmente a ascendente, é orgulhosa de suas conquistas materiais). Aqui em Belo Horizonte, vale destacar, um adesivo muito popular é o da extremamente bem sucedida “Igreja Batista da Lagoinha“, negócio muito bem administrado pela família Valadão. O uso desse adesivo no carro talvez esconda o anúncio público menos confessável e mais prosaico do sucesso material.

Seguindo o raciocínio, os católicos, assustados com a perda de espaço, reagiram. Vieram com o “Sou feliz por ser católico”. Numa leitura contrária, o significado real pode ser: “apesar de católico, sou feliz (ainda que não esteja ganhando tanto dinheiro)”. Max Weber já dizia que os protestantes são mais adaptados ao capitalismo. Depois introduziram a imagem da Virgem Maria envolvida pelo terço. De acordo com o Ronaldo, a escolha teria sido proposital, já que os evangélicos não se entusiasmam muito com essa história de virgindade da mãe do Homem. Um pouco mais tarde apareceu a “Virgem de Aparecida” envolvida por um terço que forma o mapa do Brasil. Não é preciso lembrar do episódio mais explícito da guerra religiosa midiática no Brasil que teve seu clímax quando um pastor da Universal aplicou, em rede nacional, uns pontapés na imagem da “Nossa Senhora Aparecida”.

(Parêntesis: é também comum em Belo Horizonte um adesivo em que se lê a expressão “Mundo Novo“. Sabia que se tratava de alguma coisa relacionada à Canção Nova – uma espécie de braço evangélico do catolicismo. Não sabia que essa associação tinha como um dos membros de destaque o ex (e felizmente derrotado) candidato a vice-prefeito Eros Biondini).

Enfim, pensei em escrever essa continuação falando na fragilidade das identidades tradicionais no mundo contemporâneo, da modernidade líquida e até da anomia durkheimiana. Mas, ainda que o problema da “adesivação religiosa automotiva” tenha a ver com essas macro-questões, o fato é que estamos diante de uma pequena guerra religiosa travava no interior da classe média brasileira: católicos versus evangélicos.

E os ateus? Bem, pode não ser muito, mas na falta de soldados para esta causa, me apresento. Aproveitando uma dica do blog do Ronaldo, encomendei o meu adesivo. Assim que chegar, será colado na traseira do meu carro. Postarei uma foto no blog. Aguardem!

Adesivo vendido no site Sticker Giant

Adesivo vendido no site Sticker Giant

The Future

Friday, May 8th, 2009

I’ve seen the future, brother:
it is murder.

Andando a pé na rua, depois de ter dirigido muito, você já levantou os olhos procurando pelo espelho retrovisor para ver o que está acontecendo atrás? Eu já. Lendo um texto em papel, você já sentiu falta de um hiperlink? Eu já. Folheando um livro, também em papel, você já sentiu falta de uma ferramenta de busca por palavra ou frase? Eu já.

A integração organismo-máquina nos espera?

Dia desses estava pensando em como seria bom conectar o cérebro diretamente à internet via wireless. Essa possibilidade já não é tão absurda. E tudo começou assim.

Veja o vídeo:

Leia sobre o projeto aqui. Site oficial.

O que Damásio e Castells diriam sobre isso?

Via orgtheory.net.

Sou feliz por ser ateu

Thursday, May 7th, 2009

Sobre o título do post (todas as definições – entre aspas – serão, por conveniência, retiradas do dicionário Houaiss): Se ateu é quem se identifica com a (1) “doutrina ou atitude de espírito que nega categoricamente a existência de Deus, asseverando a inconsistência de qualquer saber ou sentimento direta ou indiretamente religioso, seja aquele calcado na fé ou revelação, seja o que se propõe alcançar a divindade em uma perspectiva racional ou argumentativa”, sou, então, ateu. Se ateu é quem se identifica com a (2) “doutrina originada no enciclopedismo setecentista, esp. em Holbach (1723-1789), que recusa a existência de Deus, com base em uma concepção materialista e cientificista da realidade” ou quem se identifica com o (3) “pensamento fundamentado em um pessimismo radical que conclui pela descrença em Deus, cuja existência se mostra incompatível com o sofrimento humano (Schopenhauer), ou um instrumento de fuga diante da tragicidade (Nietzsche) e do absurdo (Sartre) da existência” não sou, então, ateu.

Não gosto da acepção (2) porque ela me parece envolver uma crença ou “contra-crença”. A crença em Deus é substituída pela crença no materialismo ou na ciência (bom que o Houaiss foi cuidadoso e se referiu ao “cientificismo”). Crença é crença (”atitude de quem se persuadiu de algo pelos caracteres de verdade que ali encontrou” – “convicção profunda e sem justificativas racionais em qualquer pessoa ou coisa”). Não vejo diferenças significativas.

Não gosto, também, da acepção (3). Há um sentido de orfandade, de desamparo, que, para mim, denuncia uma crença de fundo. Uma negação de Deus, não por sua simples inexistência, mas por sua falta ou negligência.

No entanto, os sentimentos da tragicidade e do absurdo da existência me acompanham o tempo todo. Esses sentimentos me aproximam da idéia de agnosticismo, ou seja, da “doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião (a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc.), na medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica”.

Sou cientista, ainda que estabelecido na periferia da periferia da ciência – um cientista social que se identifica com as metodologias qualitativas – e tenho em alta conta o método científico. É evidente que a idéia de “comprovação científica” deve ser relativizada. O critério da falseabilidade é muito mais adequado. De qualquer forma, penso que a realidade última nos é inacessível. Como Max Weber, penso que a realidade sempre será infinitamente mais complexa do que seremos capazes de compreender com o nosso intelecto limitado. A experiência religiosa (e a partir daqui não posso reivindicar o apoio de Weber, que não tratou disso), entendida como compreensão absoluta da EXISTÊNCIA (existência de tudo o que está diante de nossos sentidos), é a mais incompreensível de todas.

Para Joseph Campbell, as religiões institucionalizadas funcionam como anteparos à verdadeira experiência religiosa. A verdadeira experiência religiosa é disruptiva, caótica. Tem a ver com o contato com o inefável, com o incognoscível, com o completo absurdo da existência de tudo que existe. Para qualquer ordem estabelecida, a experiência religiosa autêntica é ameaçadora.

É por isso que me coloco contra qualquer religião da certeza, contra qualquer certeza. A certeza é a abdicação do conhecimento. O conhecimento é impossível? Nem sempre, mas o conhecimento último, para mim, é impossível.

Nós, animais humanos, evoluímos achando padrões e regularidades no mundo e a habilidade para reconhecer regularidades e padrões deve ter sido decisiva. Ficamos dependentes.

Tudo o que foi escrito até aqui é para dizer que me espanta (ou irrita) a necessidade atual que as pessoas têm de expor publicamente crenças meramente pessoais. Passo considerável tempo da minha vida no trânsito, me deslocando de carro de um lugar para outro. Entre as músicas do meu pendrive de 8 gigas e as abobrinhas da CBN, olho para os vizinhos de deslocamento motorizado mais ou menos lento. Tenho me espantado com a quantidade de carros que exibem algum emblema religioso. “Sou feliz por ser católico”, “Deus é fiel”, logomarcas de igrejas, acrônimos religiosos diversos. Qual seria a explicação para tamanha necessidade de dizer publicamente “acredito nisso ou naquilo”? Continua…

Merval não tem cabimento

Thursday, April 30th, 2009

Ontem, voltando do trabalho, liguei o rádio na CBN e pude ouvir (melhor ouvir do que ser surdo, não é?) o medonho comentário do Merval Pereira, em conversa com o Sardenberg, sobre a canalhice do Jungmann.

Ouça a pérola.

Até o Sardenberg ficou constrangido. Quase engasgou. Jungmann diz na propaganda do PPS que “agora o governo vai mexer na poupança, como fez o governo Collor“. Essa afirmação é simplesmente mentirosa. Collor CONFISCOU os depósitos bancários dos brasileiros. NÃO EXISTE a menor possibilidade de o atual governo (ou de qualquer outro governo minimamente sério) repetir esse absurdo.

Mas para Merval essa afirmação tem “cabimento político”, é do jogo. Ou seja, se é para chutar o governo, vale até a mais deslavada mentira. Notem o prazer mal contido com que ele repete que o governo está “enlouquecido” com a fala de Jungmann.

Tamanha cara-de-pau não deixa de ser um talento (pelo menos um talento o Merval Pereira tem).

Lula, o crédito e o velho barbudo

Thursday, April 16th, 2009

Não faço parte da turma que gosta de repetir as críticas fáceis ao Lula e ao seu governo. Mas considero as ações e as falas presidenciais referentes ao crédito muito negativas. Penso que o crédito consignado para idosos foi uma das piores realizações da atual administração nacional. O incentivo à tomada de empréstimos para o consumo, principalmente no caso de um consumo tão fugaz como uma viagem à praia, é uma irresponsabilidade.

Karl Marx (1818 - 1883)

Karl Marx (1818 - 1883)

Agora, diante da crise econômica mundial, o presidente Lula tem falado insistentemente que é preciso restaurar o crédito para sustentar o consumo. Para Lula, é o crédito que vai fazer as pessoas voltarem a comprar.

E por que as pessoas não podem parar de comprar? Porque, como já dizia o velho e redivivo barbudo alemão, o feitiço capitalista só funciona com base no consumo desenfreado. Se os trabalhadores não recebem o suficiente para atender às elevadíssimas necessidades de consumo da máquina capitalista, que façam os seus empréstimos, pagáveis em dezenas de impagáveis prestações mensais.

Problema adiado é problema resolvido, pelo menos num mundo onde só existe o tempo presente.

A questão: É apropriado receitar como principal remédio para a crise o exato veneno que a produziu, ou seja, o crédito duvidoso? Acredito que não. No final da contas, o velho alemão barbudo parece estar, pelo menos parcialmente, certo. O capitalismo moderno é um feitiço que saiu do controle do feiticeiro. Apesar de de ser essencialmente contraditório, o sistema vai se reproduzir até que se realize a sua própria ruína. Infelizmente, não podemos concordar com a conclusão iluminista marxiana de que o futuro será melhor que o passado. O que nos reservaria, então, o futuro?

Feriado, ausência e retorno

Tuesday, April 14th, 2009

O retorno do feriado é, como sempre, marcado pelas notícias sobre as estatísticas de acidentes de trânsito, quilometragens de engarrafamentos e transtornos nas rodoviárias. Alguns criticam o fato de que a imprensa sempre repete o mesmo noticiário nas mesmas datas. Mas a falta de criatividade dos jornais não seria correspondente à falta de criatividade das pessoas, que se comportam de uma forma insistentemente regular?

Bom, minha estatística de retorno do feriado se resume a um número. Dez dias sem postar. Meu feriado foi de trabalho. Correção de provas e exercícios. A internet ficou em segundo plano. Poucos dias de menor freqüência à internet tiveram como efeito mais notável a multiplicação de itens não lidos no Google Reader. Não vou escrever sobre a quantidade cada vez maior de informações que recebemos em intervalos de tempo cada vez menores porque seria chover no molhado. Vai longe o tempo em que um jornal impresso diário durava um dia inteiro. Antigamente, quando ainda assinava jornais, costuma chegar em casa no final da noite e levar o jornal do dia para ler na cama, antes de dormir. Não tenho mais esse hábito. Evito receber papel natimorto em casa há um bom tempo. Melhor seria levar o notebook ou o celular, mas não levo nenhum dos dois e tenho dormido desatualizado.

Hoje pela manhã, quando passava as folhas de um jornal impresso que circula em Minas Gerais, pensei na validade cada vez mais limitada das informações nos dias atuais. Folheava o “caderno de informática” e me surpreendi com a sobrevivência da velha e boa coluna de perguntas e respostas sobre problemas com computadores. Alguém perguntava: “Instalei o programa “x” e a minha máquina enlouqueceu, travou tudo, etc, etc.” O técnico dava uma resposta qualquer.

Quem, nessas alturas do campeonato, insiste em resolver dúvidas de informática por meio de cartas (emails, na verdade) para um jornal? O caderno de informática é semanal. Caso o freguês tenha sorte de ver a sua pergunta respondida, vai esperar vários dias. Considerando que a consulta tenha sido feita por email, o que explica a decisão de mandar uma mensagem, que talvez nem seja respondida, em vez de digitar a dúvida no Google? Será que alguma daquelas perguntas foi enviada por meio de uma obsoleta carta de papel, escrita com caneta esferográfica e com um selo postal colado com cuspe? Duvido.

Enfim, volto do feriado de trabalho com essa pergunta um tanto ociosa: quem são esse usuários de computadores que perguntam ao colunista do jornal porque o Windows deu mais um pau e ficam uma semana esperando pela resposta?

Quando o ator é vítima do personagem

Saturday, April 4th, 2009

Nas últimas eleições municipais, Belo Horizonte viveu uma situação inusitada. Havia um candidato duplamente chapa branca cujos apoiadores (Fernando Pimentel e Aécio Neves) acreditavam que ganharia no primeiro turno com 80% dos votos. Os eleitores belorizontinos demonstraram uma insuspeitada maturidade e não engoliram a “indicação”. Exigiram o segundo turno para decidir com maior independência.

No segundo turno, um candidato azarão de campanha errática – Leonardo Quintão – despontou na frente e levou o pânico ao QG do constructo eleitoral pimentécio. Arrisco afirmar que o Quintão perdeu para si próprio (e para os genes paternos). Seu personagem matuto teve vida curta quando precisou lidar com os infinitos 15 minutos do horário eleitoral gratuito do segundo turno. A ausência de substância da candidatura foi notada até mesmo por aqueles que se entusiasmaram com os bordões do primeiro turno. Quintão reproduziu a situação típica em que o excesso de esperteza se volta contra o esperto.

Algumas pessoas disseram que a última campanha para a prefeitura de Belo Horizonte representou mais uma decepção política, pois no segundo turno restou aos eleitores a escolha entre o ruim e o menos pior. Discordo. Há muito tempo não tínhamos uma campanha com tamanho envolvimento dos eleitores. O pleito foi discutido em todos os lugares, o tempo todo. Muita gente se posicionou como nunca. Eu mesmo tinha saído pela última vez às ruas para panfletar e fazer boca-de-urna em 1992, quando Patrus Ananias foi eleito. Em 2008 não fui às ruas, mas, estando desblogado, usei o velho e bom email para espamear o meu apoio ao menos pior Márcio Lacerda.

Na panfletagem eletrônica que tomou conta da internet belorizontina, uma imitação dos trejeitos do Leonardo Quintão, feita por Tom Cavalcante, ganhou destaque:

Tom Cavalcante não inventou nada. Usou os cacoetes que já eram piada na cidade inteira para ridicularizar o adversário do seu amigo Aécio Neves (os representantes de Quintão afirmam que o comediante recebeu 500 mil reais para fazer o vídeo). O caráter fictício do matuto apresentado por Quintão já era comentado por muita gente. Pessoas que tinham conhecido o Quintão em outras circunstâncias garantiam que ele não tinha o sotaque caipira carregado que empregou na campanha. Parece que o filho do Sebastião não atentou para uma lição sociológica elementar: não se deve, na apresentação social de um personagem, deixar que diferentes platéias se misturem. No final das contas, o azarão, que chegou a achar que ia ganhar, perdeu por causa da própria incompetência (e de seus marqueteiros, que, tudo indica, se deixaram contaminar pelo sucesso fácil do início da campanha).

Agora aparece a notícia de que Leonardo Quintão está processando Tom Cavalcante. O derrotado alega que o vídeo o prejudicou. Mas se a sátira não inventou nada, se usou apenas os bordões repetidos à exaustão por Quintão durante a campanha, quem prejudicou quem? Não sei, obviamente, o que a justiça vai decidir. No entanto, caso fosse eu o juiz, diria ao azarão que ele deveria processar o personagem por ele mesmo inventado.

Marcha da Insensatez

Friday, March 20th, 2009

Papa rejeita preservativos como solução para Aids na África
(Via BBC Brasil)

Joseph Ratzinger (o coveiro da Igreja Católica) afirmou que a distribuição de preservativos não é a solução para para o controle do HIV na África. A solução está em um “despertar espiritual e humano”, disse o pontífice. Sua santidade vai ainda pregar aos jovens para ensiná-los que a AIDS deve ser combatida com abstinência sexual e fidelidade.Ratzinger

Concordo com quem diz que é besteira atacar os dogmas medievais católicos. Se querem viver numa fantasia insana, que vivam. Mas quando representantes da Igreja saem por aí afirmando publicamente absurdos como esses últimos do papa, estão agindo politicamente. Estão falando para todos, católicos ou não, e, mais grave, estão falando para os que são vulneráveis a essas palavras.

Penso que as pessoas que querem ouvir e seguir as regras do papa têm todo o direito de fazê-lo. Assim como os seguidores do bispo Macedo. Querem dar dinheiro para a Igreja Universal? Fiquem à vontade. Não condeno as igrejas que pedem dinheiro aos fiéis. Todo mundo tem direito de pedir. Quem quiser dar, que dê. Quem quiser praticar a abstinência sexual, que pratique. Quem quiser amarrar um cinto de pregos na cintura, que amarre. Acredito que todos devem ter garantido o direito de fazer qualquer coisa que tenham vontade, desde que essa coisa esteja circunscrita ao âmbito privado e não agrida outras pessoas.

A contaminação por HIV, no entanto, é um problema público. Suas conseqüências ultrapassam o âmbito privado. A conta do tratamento é paga pelo estado. O impacto do aumento do número de casos de AIDS se dá na esfera coletiva.

Aqueles que vivem no mundo real, onde as pessoas fazem sexo e são infiéis (e continuarão sendo infiéis e fazendo sexo, pois se o tal “despertar espiritual” não veio nas últimas dezenas de milhares de anos de existência da humanidade não será agora que virá), e não no universo paralelo criado pelos santos agostinhos da vida, precisam rebater esse discurso irresponsável de que doenças sexualmente transmissíveis se combatem com abstinência e fidelidade. As autoridades públicas, principalmente, não podem ignorar essa tarefa. O exemplo da França deve ser seguido.

PS cômico-trágico: Num semáforo em que passo todos os dias, um homem pede esmolas exibindo um cartaz onde informa que é portador do vírus da AIDS. Sempre penso em sugerir a ele que encontre outro problema para sensibilizar os possíveis doadores, já que a política brasileira de enfrentamento da AIDS é referência mundial.

Marimbondos de Fogo

Friday, March 13th, 2009

Nova gestão? Velhas práticas? Sob nova direção? Hábitos antigos? Parece piada (de mau gosto) a matéria do Sistema Globo, que vi na Globonews agora. Desde quando José Sarney significa algo de novo? Sarney é a mais velha das coisas mais velhas que existem nesse Brasil velho. A matéria acusa. Precisa acusar Sarney? O que significa acusar Sarney? Parece que a idéia de que o telespectador padrão é o Homer Simpson vingou.

Veja aí um trecho do “Jornal das 10″. Não é a mesma edição que vi na tevê. Mas é interessante também porque, além do que acabei de ver, há um comentário “interessantíssimo”, como sempre, do – também obviamente bigodudo – Merval Pereira.

E ainda tem o Trigueiro. O que é o Trigueiro? Costumava pensar que o Bonner era um organismo geneticamente modificado em que experimentaram uma mistura genética de Cid Moreira com Sérgio Chapelin. E o Trigueiro? Deve ser um OGM resultante de uma mistura do OGM primário Bonner com os genes originais do Moreira e do Chapelin. O resultado é o que resulta.