Archive for the ‘Observações Aleatórias’ Category

“Aspas”

Thursday, March 12th, 2009

De acordo com o Aurélio, aspas são “sinais de pontuação com que se abre e fecha uma citação”.  Mas o Aurélio está desatualizado. Os tais “sinais de pontuação” se transformaram numa espécie de “quebra-galho universal” que resolve diversos problemas de comunicação. E não só na escrita, pois agora tempos também as aspas “gestuais”.  As aspas são usadas em um texto quando se sabe que a palavra escolhida não é a mais adequada, mas não há tempo ou disposição para encontrar outra. São usadas para introduzir um tom eufemístico numa palavra condenada pelo “politicamente correto”. São usadas para denotar ironia. São usadas para mostrar que uma informação não é tão exata, mas é “mais ou menos o que foi escrito ou dito”. E são usadas em situações completamente desnecessárias.

Aproveitando a explosão do uso indiscriminado de aspas, uns malucos criaram um blog muito divertido. the “blog” of “unnecessary” quotation marks.  Tem até uma contribuição brasileira:

Fonte: The "Blog" "Unnecessary" quotation marks.

Fonte: The "blog" "unnecessary" quotation marks.

Dá para perder um bom tempo vendo as “aspas” mais absurdas que alguém é capaz empregar.

Via The General Blog of Crime.

Estupra, mas não aborta!

Friday, March 6th, 2009

Do site G1:

Arcebispo excomunga médicos e parentes de menina que fez aborto

O arcebispo de Olinda e Recife excomungou nesta quarta-feira (4) a mãe, os médicos e outros envolvidos no aborto sofrido por uma menina de 9 anos. Segundo a polícia, o padrastro confessou que abusava da garota. Ele seria o pai dos gêmeos que ela esperava.

Leia a notícia completa no G1.

Diante dessa decisão estapafúrdia, me lembrei do velho Malufão. Para os mais jovens que não sabem do que se trata e para os mais velhos recordarem, um trecho da propaganda eleitoral das eleições presidenciais de 1989.

Dom Sobrinho e dom Maluf, tudo a ver!

Concluindo os comentários dos comentários (algumas palavras não muito organizadas)

Friday, February 13th, 2009

Pois é, Meg, gosto do “Desvendando o arco-íris“. Gosto muito também do “Escalada do monte improvável“, particularmente da paulada destruidora do capítulo 8 sobre o antropocentrismo. Não antevi o que viria, mas você suspeitou corretamente. Veio uma besteira das grandes.

Como escrevi anteriormente, uma das fraquezas que vejo no “Deus, um delírio” é a negação de discutir as concepções mais robustas da religião. Dawkins faz referências explícitas ao budismo e à “religião de Einstein” (mas seria possível incluir também versões teologicamente mais elevadas dentro do monoteísmo judeu, cristão ou islâmico) para dizer que não seriam exemplos de religião, mas de filosofia. Não seriam, portanto, objeto de seu livro.

O Paulo afirmou que não haveria razão para o budismo ser abordado, já que “não tem uma ‘gênese’ nem um deus criador”. O mesmo argumento poderia ser aplicado à “religião de Einstein”, que não reconhece a existência de um deus criador pessoal e intervencionista. Sobre Einstein, reproduzo o link interessante deixado pelo Pedro. Ele só errou feio quando me chamou de Rafael Galvão. Isso não se faz… Não vejo nenhum problema em delimitar os assuntos a serem abordados no livro, a delimitação é inevitável. No entanto, penso que a delimitação foi feita de uma forma um tanto desonesta. Talvez por questões de marketing editorial, o livro é apresentado como um ataque à Religião (com erre maiúsculo). Mas ele não passa de um ataque ao fundamentalismo religioso mais raquítico. Essa “propaganda enganosa” causa decepção.

Mais do que decepção, acredito que a abordagem editorial matou o livro. Se o livro é vendido como um ataque à Religião e a religião descrita no livro é reduzida àquele amontoado de absurdos fundamentalistas, fica, pelo menos para mim, a impressão de que o autor não pôde ou não soube construir argumentos consistentes e definitivos contra a Religião. E aqui concordo com o Gabriel: Dawkins não tem competência para o debate que procurou estabelecer. E discordo do Paulo: a singeleza dos argumentos não se deve ao formato de panfleto, mas à falta de conhecimento sobre o tema.

Seria, talvez, mais apropriado vender o livro como um ataque ao fundamentalismo religioso mais obtuso, mas, do ponto de vista editorial, imagino que isso poderia dimuir o interesse pela obra. De qualquer forma, continuo achando que o livro oferece munição para o inimigo. Dá uma excelente oportunidade aos pregadores fundamentalistas para se fazerem de vítimas dos ateus demoníacos e incendiarem, assim, as suas assembléias.

(O Paulo citou o Carl Sagan. Gosto muito do “Mundo assombrado pelos demônios“. Tem o foco mais bem ajustado e, com isso, desenvolve argumentos muito mais fortes contra uma seleção de crenças espúrias. Tudo isso com a elegância singular de Sagan.)

Como disse ao Bia em um comentário, acredito que os maiores alvos do livro não são sensíveis aos argumentos apresentados. Alguém que crê na existência de um velho barbudo pendurado em algum lugar lá em cima que não só criou o universo, mas também se ocupou da elaboração de regrinhas sobre como os humanos devem fazer sexo, não vai mudar de opinião depois de ler um punhado de argumentos contrários. Fica a pergunta: para quem o livro foi escrito?

Finalmente, o Fernando lembrou bem que “contra Dawkins e sua bandeira operam todos os fatores, dentre os quais a necessidade humana de acreditar em alguma coisa, seja o que for”. Voltamos à questão da necessidade de “segurança ontológica” (para um resumo das idéias de Giddens a respeito da modernindade, clique aqui). Definindo o conceito de uma forma pouco rigorosa, poderíamos dizer que tem a ver com a necessidade de acreditar que “tudo é e continuará sendo o que sempre pareceu ser”. Como construir e manter essa crença no mundo que Bauman chama de líquido? Fácil não é. Essa dificuldade talvez explique a profusão de fundamentalismos, não apenas religiosos, nos tempos que correm.

Ah! Já estava esquecendo: concordo com o Thiago!!!

Resposta ao comentário do Gabriel.

Thursday, February 12th, 2009

Gabriel, estava respondendo na caixa de comentários, mas a resposta quase virou um post. Então vou colocar aqui fora. O seu comentário:

Ok. Não vou nem entrar na questão da ingerência da religião nos assuntos políticos (me lembro de ter dó do Rawls e dos paradigmas de sua “razão pública”). Mas o que verdadeiramente me irrita é o pressuposto de que crentes (i.e. pessoas que crêem) são necessariamente desprovidas de “Ratio”, do qual só são seus zelosos guardadores os defensores de um secularismo estrito e tacanho. É absolutamente impossível conceber um interlocutor religioso à altura? Ele é a priori portador de uma posição indefensável? Isso é, de fato, um dogmatismo desvairado.
Abs.

Minha resposta:

Aqui em BH tem um pastor que disse mais de uma vez em seu programa DIÁRIO de televisão que não podendo evitar que suas filhas estudassem a teoria da evolução na escola, já que é matéria curricular e cobrada no vestibular, a alternativa por ele adotada foi explicar a elas que aquilo tudo estava errado, que era “coisa do mundo secular” que elas tinham que tolerar para concluir os estudos. A VERDADE está na Bíblia, dizia a elas.

Esse pastor se elegeu vereador, posteriormente deputado estadual e segue em sua carreira política, que não deve parar por aí. É isso que me preocupa. É esse tipo de “religião” que me provoca arrepios.

Acredito que seja plenamente possível um interlocutor religioso e racional. Concordo com o comentário do Catatau:”Existem debates muito interessantes sobre as tradições bíblicas sobre a origem do mundo; algo bem diferente do que levar a Bíblia ao pé da letra como um manual unitário para a vida, e daí legislar sobre tudo sem nenhum princípio racional…”

A condição que me parece indispensável para a qualificação de qualquer interlocutor, cientista (social ou natural), religioso, político, etc. é que ele compreenda que a nossa (humana) apreensão da realidade é inevitavelmente mediada pela linguagem (que, não raramente, esconde mais do que revela). Considero indispensável o entedimento de que conceitos, categorias ou quaisquer outras representações mentais do real são e sempre serão imperfeitas e incompletas; que em qualquer interlocução é imprescindível confrontar CONCEPÇÕES DO REAL (quase escrevi “idéias”, mas preferi não acordar o fantasma de Platão) e não pedaços supostamente objetivos da realidade.

Alguém que diz às filhas e ao público da tevê que o mundo foi criado por um deus pessoal em 6 dias de 24 horas há 10 mil anos está, na minha opinião, atirando paralelepípedos de realidade pseudo-objetiva na testa do interlocutor!

Abraço.

Comentário dos comentários: é só o começo (ou desculpem-me pela verborragia)

Wednesday, February 11th, 2009

Fazer promessas é uma prática perigosa. Inflaciona as expectativas e aumenta as chances de ocorrer uma decepção. Aquilo que é muito anunciado acaba por gerar uma reação do tipo: “AH… Era só isso…” O fato é que, ainda que de uma forma não consciente, aquele que aguarda elabora e antecipa mentalmente o que espera ver no momento da realização da promessa. Não raramente, as expectativas se frustram.

Corro esse risco agora. Atentei para isso depois que o Fernando (nos comentários) disse que estava esperando os comentários dos comentários. Proponho um exercício então. Aquele que porventura sentir que faltou alguma coisa nas minhas respostas, faça uma investigação mental sobre o que imaginou que eu escreveria. O resultado pode ser interessante.

Seguindo a ordem:

O Catatau disse: “Quanto ao criacionismo, parece-me que, ao invés de bater no bêbado, hoje em dia é como se um exército de bêbados reagissem, como bem mostram teus dados acima”. Concordo. Considerando que o apoio ao criacionismo esteja crescendo, é apropriado pensar que há uma reação do exército embriagado. Fico imaginando uma cena daqueles filmes em que uma massa de zumbis toma, aos poucos, toda a cidade. Falta-lhes inteligência e estratégia, mas certos automatismos “post mortem” e o número crescente garante que os resultados – devorar todos os vivos restantes – sejam alcançados. Temos então pela frente um comando de bêbados-zumbis numeroso, que pode nos causar problemas.

Embora tenha chamado os fundamentalistas de bêbados em meu post, esclareço agora que não deixo de me preocupar com eles. Minha maior preocupação se refere ao seu avanço político. Têm cada vez mais ocupado vagas nos parlamentos e mesmo nos executivos (mais raramente, felizmente). Tenho arrepios ao pensar que posso ser obrigado a fazer alguma coisa ou proibido de fazer outra porque uma lei de orientação religiosa entrou em vigor (um candidato a vice-prefeito de Belo Horizonte, por exemplo, deputado estadual em MG, usou as suas prerrogativas para homenagear um juiz de não-me-lembro-qual-cidade porque o Preclaro Magistrado negou o direito ao aborto a uma mulher cuja gravidez resultava de um estupro. Sei que não se trata de uma lei que pode interferir na vida de alguém. Mas esse tipo de coisa – homenagem a uma decisão repulsiva de um juiz – representa para mim um sinal de que devemos estar muito alertas para não termos que lamentar depois por ocorrências mais graves).

Confesso que não entendi direito a segunda parte do comentário, que diz: “Algo como supor que a China seja verdadeiramente o melhor time do mundo baseado no número dos torcedores…” Quanto ao link sugerido – blog de Luciana Christante – achei interessante o post. Mas quanto à opinião do “sociólogo da UFF” (parece personagem do Nelson Rodrigues!), não concordei muito, se é que a entendi adequadamente (notem que estou com algum problema de entendimento – espero que passe).

De acordo com o “sociólogo da UFF”, citado indiretamente por Christante, “o recrudescimento do criacionismo nos últimos anos tem um paralelo com a deterioração das condições de vida de uma grande parte da população (dados da ONU) que, por sua vez, tem relação com essa instabilidade social gerada pela globalização; tudo isso vem acompanhado de vulnerabilidade, incerteza e desamparo”. Tive a impressão de que o argumento leva em consideração de forma destacada o aspecto econômico relacionado “à deterioração das condições de vida” e que, dessa forma, as variáveis “vulnerabilidade, incerteza e desamparo” estariam também associadas às carências econômicas e materiais, ou à pobreza, enfim.

Acredito que o problema seja bem maior. No aspecto econômico, não vejo a pobreza como único ou principal problema. A insegurança econômica, o risco da perda do emprego, as dificuldades de pagar por aquilo que a sociedade de consumo nos empurra são situações enfrentadas por todas as classes. Ainda que cada uma vivencie o problema à sua maneira, de acordo com parâmentros e referências específicos. Essa realidade explicaria o fato de que – não tenho dados estatísticos, é uma impressão – a adesão ao fundamentalismo esteja aumentando também nas classes médias e altas.

Além disso, penso que o aspecto econômico não seja o único a ser considerado. Existe um problema “existencial” também, por assim dizer. Vivemos em um mundo perigoso e incerto, a realidade escorrega por entre os nossos dedos quando tentamos apreendê-la, enfrentamos dificuldades relacionadas à construção/manutenção de nossa própria identidade – tanto a identidade social, como a mais ou menos correspondente auto-imagem pessoal. Falta-nos a todos aquilo que Anthony Giddens chama de “segurança ontológica”.

….Mas a janela de tempo que estava aproveitando se fechou. A continuação será continuada depois!

Teoria da evolução, criacionismo e o imponderável

Sunday, February 8th, 2009

Em um post logo abaixo, escrevi:

Acredito que uma das maiores contribuições da teoria sociológica para a compreensão da vida em sociedade é a definição do que podemos chamar de “conseqüências não-antecipadas da ação social”. Para Robert Merton (1979), um dos sistematizadores dessa descoberta recorrente entre os sociólogos clássicos, em princípio, “as conseqüências de uma ação proposital seriam limitadas aos elementos da situação resultante que são, exclusivamente, efeito da ação, isto é, que não ocorreriam se a ação não tivesse sido praticada” (p. 196). Mas as conseqüências concretas de uma ação são, na verdade, ainda de acordo com Merton, o resultado da interação entre a ação propositada e as condições objetivas do ambiente em que a ação se deu. A partir de um propósito inicial e na relação com as condições objetivas do ambiente da ação, podem ocorrer efeitos que não foram pretendidos ou antecipados. Vale ressaltar que os efeitos não-antecipados não são necessariamente indesejáveis. Podem ser positivos sob algum aspecto, ainda que obtidos involuntariamente.

Hoje a Folha de São Paulo trouxe uma informação [link para assinantes] que pode exemplificar como a falta de previsão das conseqüências de uma ação pode ser desastrosa.

Darwin apoiaria Dawkins?

Darwin apoiaria Dawkins?


Por conta dos 200 anos de nascimento de Darwin, dois institutos ingleses – Theos e Faraday – publicaram uma pesquisa cujos números indicam que 32% dos entrevistados aprovam a idéia de “criacionismo da Terra Jovem” (o universo e tudo que nele se encontra teriam sido criados por Deus em 6 dias de 24 horas há, mais ou menos, 10 mil anos) e 51% apoiam a hipótese do “design inteligente” (a vida como a conhecemos não poderia ter se desenvolvido por meio de processos naturais aleatórios – só a orientação de uma força inteligente poderia explicar a complexidade e a diversidade que presenciamos hoje). De acordo com a matéria, os números não são excludentes, pois o questionário permitia respostas múltiplas.

Os próprios responsáveis pela pesquisa consideram que os resultados são de difícil interpretação, já que os entrevistados não têm muito conhecimento sobre os temas em questão (a teoria darwiniana, o criacionismo e o design inteligente). De qualquer forma, é correta a conclusão de Denis Alexander – diretor do Instituto Faraday – que considera “desconcertante que, em 2009, existam pessoas que pensam que o mundo tem essa idade [10 mil anos] por conta de uma leitura da Bíblia, quando toda evidência científica demonstra que isso é errado”.

Para Alexander, que adverte sobre a falta de evidências estatísticas conclusivas, existem indícios de que o criacionismo esteja em ascensão na Inglaterra. O pequisador aponta três causas. As duas primeiras estariam relacionadas ao aumento da população de imigrantes islâmicos e à multiplicação de igrejas pentecostais de negros e afrodescendentes [grifos meus] (para quem simpatizou com a primeira opinião do pesquisador sobre a relevância do conhecimento científico, essa agora é um chute etnocêntrico e, porque não dizer, racista bem no meio do … da canela!).

Mas é a terceira causa que me chamou a atenção por se conectar com o problema das “conseqüências não-antecipadas da ação”. Segundo Alexander, o ateísmo militante de “intelectuais neodarwinistas”, capitaneados por Richard Dawkins, tem provocado o crescimento do apoio ao criacionismo na Inglaterra. As igrejas, mesquitas e sinagogas aproveitam a militância de Dawkins e cia, fazem uma caricatura de seus argumentos, e repetem aos fiéis que evolucionismo é sinônimo de ateísmo. Como os fiéis rejeitam fortemente o ateísmo, acabam por se afastar da teoria da evolução. A violência dos ataques de Dawkins à religião (não considero despropositada a especulação sobre a existência de um certo fundamentalismo ateu nesses ataques) estaria estimulando reações também violentas do outro lado. No final das contas, Dawkins estaria ajudando os fundamentalistas do criacionismo. Trata-se da típica conseqüência não-antecipada da ação em sua pior forma: o efeito não-antecipado é contrário ao objetivo inicial. Talvez fosse bom para Dawkins ler um pouco da literatura das ciências sociais… ela nos alerta para o imponderável que sempre acompanha as ações humanas (quero crer…).

Um depoimento pessoal: Como leigo, sempre admirei a beleza e a genialidade da teoria da evolução. Darwin é um de meus heróis desde que li a sua biografia. Sou leitor entusiasmado dos livros de divulgação científica que tratam de biologia. Foi assim que conheci e passei a gostar do Dawkins, há muito tempo. Mas não posso deixar de admitir que o “Deus, um delírio” me decepcionou. É aquela hitória de chutar cachorro morto. Escrever um livro inteiro para atacar o fundamentalismo religioso mais tacanho me parece um desperdício de energia e talento, ainda mais no caso de Dawkins. O que mais me desagradou no livro foi a incongruência entre a violência dos ataques aos raquíticos fundamentalistas e uma espécie de “corrida do pau” no enfrentamento das religiões mais esclarecidas. Não engoli, por exemplo, a estratégia de chamar o budismo de filosofia para diferenciá-lo da religião e, assim, não ter que encará-lo de frente. Parece que Dawkins optou por bater no bêbado. Bater no bêbado não é vantagem. Mas apanhar dele é feio.

Aparecida-SP

Thursday, February 5th, 2009

Neste início de ano, levei a minha mãe para conhecer a basílica de Aparecida. Ela tinha um interesse religioso. Eu tinha alguma curiosidade por esse que deve ser o maior centro de peregrinação do Brasil. A primeira impressão foi a de um trânsito confuso, com placas de “PARE” no meio de rotatórias. Tive que me concentrar para não avançá-las.

Não sei se foi causada pela longa e difícil viagem, mal orientada por um guia online, mas tive a sensação de estar em uma cidade cansada. Cidade de romeiros que viram noites em ônibus desconfortáveis para realizar o objetivo de alcançar um milagre qualquer.

A conclusão definitiva sobre a cidade é a de que ela se parece com uma grande e total estação rodoviária. Existem incontáveis lojas de bugigangas e produtos de origem suspeita. Até mesmo na enorme área da basílica, funciona uma espécie de shopping de tudo, inclusive de muambas paraguaias.

Não me vi em um lugar sagrado. Estive, sim, em um centro de comércio popular onde, em meio a tantos outros itens, destacam-se as mercadorias da fé.

Por falar em fé, o lugar que mais me chamou a atenção se chama “Sala das Promessas”. Trata-se de uma sala de ex-votos modernizada, com uma decoração bem elaborada, onde os romeiros podem observar os testemunhos dos milagres alcançados por aqueles que pediram alguma coisa à Nossa Senhora Aparecida, e foram atendidos. As expressões de esperança são visíveis nos rostos dos freqüentadores.

Abaixo, algumas fotos que tirei na sala de ex-votos. Na última é possível entrever o balcão de recebimento dos artigos levados pelos fiéis. Talvez seja esse ar de repartição pública um dos responsáveis pelo enfraquecimento do significado religioso do lugar, pelo menos para quem não estava à sua procura.

A postura e a expressão desse senhor passa a impressão de que sente respeito pelo lugar

A postura e a expressão desse senhor passam a impressão de que sente respeito pelo lugar



A sala é repleta de objetos expostos de todas as maneiras

A sala é repleta de objetos expostos de todas as maneiras



As pessoas olham os ex-votos com muito interesse

As pessoas olham os ex-votos com muito interesse



Ao fundo, o balcão de recebimento dos ex-votos

Ao fundo, o balcão de recebimento dos ex-votos