Fazer promessas é uma prática perigosa. Inflaciona as expectativas e aumenta as chances de ocorrer uma decepção. Aquilo que é muito anunciado acaba por gerar uma reação do tipo: “AH… Era só isso…” O fato é que, ainda que de uma forma não consciente, aquele que aguarda elabora e antecipa mentalmente o que espera ver no momento da realização da promessa. Não raramente, as expectativas se frustram.
Corro esse risco agora. Atentei para isso depois que o Fernando (nos comentários) disse que estava esperando os comentários dos comentários. Proponho um exercício então. Aquele que porventura sentir que faltou alguma coisa nas minhas respostas, faça uma investigação mental sobre o que imaginou que eu escreveria. O resultado pode ser interessante.
Seguindo a ordem:
O Catatau disse: “Quanto ao criacionismo, parece-me que, ao invés de bater no bêbado, hoje em dia é como se um exército de bêbados reagissem, como bem mostram teus dados acima”. Concordo. Considerando que o apoio ao criacionismo esteja crescendo, é apropriado pensar que há uma reação do exército embriagado. Fico imaginando uma cena daqueles filmes em que uma massa de zumbis toma, aos poucos, toda a cidade. Falta-lhes inteligência e estratégia, mas certos automatismos “post mortem” e o número crescente garante que os resultados – devorar todos os vivos restantes – sejam alcançados. Temos então pela frente um comando de bêbados-zumbis numeroso, que pode nos causar problemas.
Embora tenha chamado os fundamentalistas de bêbados em meu post, esclareço agora que não deixo de me preocupar com eles. Minha maior preocupação se refere ao seu avanço político. Têm cada vez mais ocupado vagas nos parlamentos e mesmo nos executivos (mais raramente, felizmente). Tenho arrepios ao pensar que posso ser obrigado a fazer alguma coisa ou proibido de fazer outra porque uma lei de orientação religiosa entrou em vigor (um candidato a vice-prefeito de Belo Horizonte, por exemplo, deputado estadual em MG, usou as suas prerrogativas para homenagear um juiz de não-me-lembro-qual-cidade porque o Preclaro Magistrado negou o direito ao aborto a uma mulher cuja gravidez resultava de um estupro. Sei que não se trata de uma lei que pode interferir na vida de alguém. Mas esse tipo de coisa – homenagem a uma decisão repulsiva de um juiz – representa para mim um sinal de que devemos estar muito alertas para não termos que lamentar depois por ocorrências mais graves).
Confesso que não entendi direito a segunda parte do comentário, que diz: “Algo como supor que a China seja verdadeiramente o melhor time do mundo baseado no número dos torcedores…” Quanto ao link sugerido – blog de Luciana Christante – achei interessante o post. Mas quanto à opinião do “sociólogo da UFF” (parece personagem do Nelson Rodrigues!), não concordei muito, se é que a entendi adequadamente (notem que estou com algum problema de entendimento – espero que passe).
De acordo com o “sociólogo da UFF”, citado indiretamente por Christante, “o recrudescimento do criacionismo nos últimos anos tem um paralelo com a deterioração das condições de vida de uma grande parte da população (dados da ONU) que, por sua vez, tem relação com essa instabilidade social gerada pela globalização; tudo isso vem acompanhado de vulnerabilidade, incerteza e desamparo”. Tive a impressão de que o argumento leva em consideração de forma destacada o aspecto econômico relacionado “à deterioração das condições de vida” e que, dessa forma, as variáveis “vulnerabilidade, incerteza e desamparo” estariam também associadas às carências econômicas e materiais, ou à pobreza, enfim.
Acredito que o problema seja bem maior. No aspecto econômico, não vejo a pobreza como único ou principal problema. A insegurança econômica, o risco da perda do emprego, as dificuldades de pagar por aquilo que a sociedade de consumo nos empurra são situações enfrentadas por todas as classes. Ainda que cada uma vivencie o problema à sua maneira, de acordo com parâmentros e referências específicos. Essa realidade explicaria o fato de que – não tenho dados estatísticos, é uma impressão – a adesão ao fundamentalismo esteja aumentando também nas classes médias e altas.
Além disso, penso que o aspecto econômico não seja o único a ser considerado. Existe um problema “existencial” também, por assim dizer. Vivemos em um mundo perigoso e incerto, a realidade escorrega por entre os nossos dedos quando tentamos apreendê-la, enfrentamos dificuldades relacionadas à construção/manutenção de nossa própria identidade – tanto a identidade social, como a mais ou menos correspondente auto-imagem pessoal. Falta-nos a todos aquilo que Anthony Giddens chama de “segurança ontológica”.
….Mas a janela de tempo que estava aproveitando se fechou. A continuação será continuada depois!