O texto a seguir foi escrito em 2004 para o meu antigo blog (como disse o Rafael, na pré-história da blogosfera). Republicado com pequenas alterações.
Alguns minutos depois das cinco horas da tarde de um dia de semana, quatro homens entram em um banheiro público, no Parque da Cidade. [...] O que levou esses homens a largar a companhia de tantos outros que a essa hora se dirigem para casa ao longo das estradas? Que interesse comum traz esses homens, com experiências de vida tão diferentes, a essa instalação pública? Eles não vieram pelas razões óbvias, mas sim em busca de sexo imediato. Muitos homens – casados ou solteiros, que se identificam como heterossexuais ou que apresentam uma auto-imagem homossexual – procuram pelo sexo impessoal e sem envolvimento que proporciona excitação sem compromisso. (…) O fenômeno do sexo impessoal permanece como uma forma comum, mas raramente estudada de interação humana.
O sociólogo americano Laud Humphreys (1930 – 1988) pesquisou o tema em sua tese de doutorado de 1968. Derivado da tese, o livro (de onde saiu o trecho transcrito acima) “Tearoom Trade: Impersonal Sex in Public Places“, foi publicado em 1970. As estratégias adotadas durante a investigação provocaram muitas discussões relacionadas à “ética na pesquisa”. [Outras informações]
Esse estudo, além do interesse natural por um assunto pouco conhecido, guarda um aspecto muito curioso. Como seria possível fazer uma pesquisa cujo campo é constituído por banheiros públicos onde vários homens têm encontros sexuais rápidos e anônimos? Se o pesquisador não pretende fazer parte das interações que se desenrolam nesses ambientes, a resposta é bastante difícil. E era exatamente esta a situação de Humphreys.
Uma das alternativas seria entrar no banheiro como se fosse fazer o uso convencional das instalações. O problema, nesse caso, é que o tempo do uso normal seria muito curto para fazer as observações necessárias. Se as visitas se multiplicassem, acabariam provocando suspeitas sobre as intenções do pesquisador, que poderia ser confundido com um policial. Outra alternativa seria simular a espera por alguém que ainda não havia chegado ou pela oportunidade de participar da “ação”. Mas, à medida que a espera se prolongasse, o pesquisador acabaria sendo convidado por alguém a interagir. A observação teria que ser interrompida. Uma terceira opção seria assumir o papel de masturbador, pois entre os freqüentadores havia aqueles que se satisfaziam dessa maneira enquanto observavam as atividades dos outros. Humphreys não se interessou.
Após algumas tentativas, o pesquisador encontrou a maneira ideal para passar mais tempo dentro dos banheiros sem ser incomodado. Descobriu que havia um papel social institucionalizado que era desempenhado por aqueles que apenas olhavam. Era o papel dos chamados voyeurs (watchqueen, na gíria interna). Os freqüentadores gostavam de sua presença porque eles avisavam quando a polícia estava chegando. Para um sociólogo, não podia ser melhor. A pesquisa tornou-se viável. Bastava ao pesquisador ocupar a posição que o grupo já havia moldado.
Humphreys observou e registrou detalhadamente 53 atos sexuais, principalmente felações. Nos dias mais movimentados, um homem chegava a fazer sexo oral com três parceiros em meia hora. Posteriormente, após ter conquistado a confiança dos freqüentadores com o seu papel de watchqueen, expôs sua condição de pesquisador e os objetivos de sua pesquisa a alguns homens, que se tornaram seus informantes.
Um ano após as observações nos banheiros, entrevistou 50 freqüentadores em suas próprias casas, ao lado de suas esposas, quando eram casados. Para conseguir essas entrevistas, anotou as placas dos carros estacionados nas proximidades dos banheiros e descobriu o endereço dos proprietários (contou com a ajuda de um amigo no departamento de trânsito). Para não prejudicar os entrevistados, foi até eles como se estivesse fazendo uma pesquisa sobre as condições sanitárias das moradias. O objetivo destas entrevistas era desenhar um perfil dos freqüentadores quanto à dimensão convencional de suas vidas. Não havia, obviamente, nenhuma pergunta sobre os banheiros.
O interesse propriamente sociológico do estudo reside na tentativa de compreender e descrever um tipo específico de interação social – o sexo impessoal – em uma sociedade onde essa prática é moralmente condenada. Uma relação sexual é uma ação coletiva que reúne, pelo menos, dois indivíduos. A maior parte das pessoas acredita que o sexo deve envolver algum relacionamento pessoal, alguma reciprocidade de sentimentos ou, até mesmo, o amor romântico. Nos banheiros públicos acontecia exatamente o oposto. Os freqüentadores buscavam satisfação imediata com o mínimo de custos, fossem eles materiais ou psicológicos.
Uma das principais regras descobertas por Humphreys nos banheiros públicos era a do silêncio. Como se tratava de um comportamento evidentemente “desviante” era preciso marcar a sua diferença em relação ao sexo convencional. Afinal de contas, todos que iam aos banheiros queriam impessoalidade e anonimato. E, como sabemos, quem muito fala, muito revela. As interações sempre aconteciam sem a troca de palavras. Outra regra importante era a de que somente aqueles que demonstrassem claramente sua intenção de participar deveriam ser abordados. Essas duas regras combinadas levavam os participantes a se entenderem por meio de sinais e gestos convencionados.
De um modo geral, os homens interessados em algum tipo de atividade sexual se colocavam a uma distância do mictório que deixava o órgão sexual à mostra. Os “ativos”, quando percebiam a presença de alguém “interessante”, manipulavam o pênis até que ficasse ereto. Os “passivos” interessados se tocavam e olhavam fixamente para o membro rijo do parceiro, encarando algumas vezes seus olhos. Estava estabelecida a comunicação.
A falta de envolvimento, a impessoalidade e o anonimato permitiam que homens com as mais diferentes características – raciais, sociais, educacionais e físicas – se encontrassem naqueles lugares conhecidos pelos freqüentadores como “salas de chá” (tearooms). Nestas circunstâncias, em que o envolvimento emocional não faz parte das regras do jogo, as preferências pessoais seriam menos restritivas.
Fica a pergunta: no sexo convencional essas “preferências pessoais” não seriam usadas, algumas vezes pelo menos, como uma estratégia (ainda que não-consciente) para reproduzir as condições moralmente requeridas para um relacionamento sexual considerado apropriado ou correto?
A polêmica
Deve-se principalmente às visitas às residências dos freqüentadores, feitas posteriormente, a enorme polêmica que se desenrolou após a publicação do livro. Até hoje, a pesquisa de Humphreys é tema de estudo nos cursos de ética em pesquisa. Se a observação nos banheiros é controvertida, a visita às casas dos freqüentadores é ainda mais complicada. Em ambos os casos ocorre invasão de privacidade e dissimulação de intenções. As pessoas foram enganadas. Há informações de que algumas das pessoas entrevistadas em casa acabaram se reconhecendo ou foram reconhecidas após a publicação do livro. O fato é que nos dias de hoje uma pesquisa como essa não seria aprovada pelos comitês de ética.
Esse é um dos tantos dramas da sociologia. O que há de mais interessante para ser estudado e conhecido é o que, de uma forma ou de outra, mais se esconde. Se os sociólogos pesquisadores puderem trabalhar apenas com dados oficiais e com as informações autorizadas pelas pessoas, muito pouco poderá ser desvendado sobre as características mais profundas das interações, dos grupos e das sociedades humanas. Não há uma saída fácil. Mesmo considerando válidos os princípios da privacidade e da observação consentida, há, por outro lado, a ética do saber, do conhecimento. Precisamos colocar em questão os nossos “tabus”. Discutir sobre quais são as dimensões sagradas e, portanto, invioláveis das nossas vidas e das sociedades a que pertencemos. A questão é: o sociólogo só pode entrar aonde é convidado?
