Archive for the ‘Sociologia de Boteco’ Category

Distribuição do conhecimento

Friday, May 22nd, 2009

Estava caminhando até o estacionamento, voltando para casa depois do trabalho, e vi/ouvi um rapaz explicando para umas moças, todos esperando o ônibus, a psicanálise. Pude ouvir apenas a introdução: “a psicanálise faz a transposição…” Bem, não quis parar e esperar o resto da explicação. Mas continuei o meu percurso pensando naquele mínimo fragmento de conversa.

É evidente que o acesso à informação é muito maior hoje do que já foi em outros tempos. Mas as mudanças podem não ser tão grandes. O rapaz tinha cara de tudo, menos de especialista em psicanálise. É bem possível que estivesse reproduzindo imperfeitamente alguma definição superficial de psicanálise mal-ouvida em sala de aula. Tinha uma informação que poucas pessoas tinham há poucas décadas. No entanto, estava usando esse pedaço mal-compreendido de informação a que teve acesso para fins absolutamente práticos. Impressionar as meninas enquanto esperavam o ônibus.

No episódio 6 da serie Evolução um pesquisador afirma que as pessoas falam muito, mas a maior parte das conversas trata de amenidades (gossips). Imagino que essa seja a regra desde que os humanos começaram a falar. No final das contas, o tempo passa e muda o conteúdo das amenidades, mas as amenidades continuam sendo o assunto principal.

Psicanálise virou assunto de espera de ônibus, mas essa psicanálise tem muito pouco a ver com aquela de Freud ou Lacan. Quantas pessoas conhecem a psicanálise em profundidade hoje? Imagino que muito poucas. Proporcionalmente, o número de conhecedores de algum assunto hoje e há 20 mil anos não deve ter mudado muito.

Assistindo aos programas de televisão, mesmo os que se apresentam como “educativos”, o que se vê é uma grande superficialidade. Por trás de uma suposta transmissão de conhecimento, o objetivo real é o mesmo passa-tempo de sempre. Quem assiste não vai, obviamente, se tornar conhecedor, mas vai conseguir alguns assuntos para impressionar um interlocutor incauto no dia seguinte.

Em tempo real: a moça que perde mais uma noite de sono para reler, pela enésima vez do dia, o teleprompter da Globo News diz: “Mais uma do presidente da Venezuela”. Nem sei qual é a “mais uma” do Chavez (ligo a tevê na Globo News, mas não presto atenção). O que importa não está no que eles falam, mas no que a gente entende. Essa manchete “Mais uma do Chavez” mostra a “vejanização” da imprensa e a “xuxanização” do entretenimento. Se noticiário e diversão não se diferenciam, é tudo uma coisa só.

Parece que a “mais uma” do Chavez (ouvi mais um fragmento do que a moça da Globo News está relendo) tem a ver com a nacionalização das mineradoras. Engraçado: aqui em Minas as mineradoras têm “autorização” para tudo o que quiserem fazer, mas isso não é “mais uma” do govenador de Minas. Nem é notícia. Pela manhã, alguém vai repetir: “Viu a última do Chavez”? E a pseudo-informação vai se disseminando.

Talvez seja o caso de rever a minha idéia inicial. Proporcionalmente, hoje, considerando todas as fontes de informação disponíveis, o conhecimento não seria menor do que no passado?

Algumas notas inconclusivas roubadas do tempo de sono

Wednesday, May 13th, 2009

Chego em casa às 11 da noite. Ligo o computador e a tevê, volume baixo, na Globo News. Vou para o Google Reader para saber do que interessa, enquanto escuto ao longe as abobrinhas de um programinha da Waldvogel. Parece que o tema tem a ver com reforma política. Como os ouvidos não têm tampa (daí o ditado “melhor ouvir do que ser surdo”) , escuto qualquer coisa como “o voto é a grande arma do cidadão”. Felizmente um dos convidados (Henrique Fontana – PT/RS) relativizou a afirmação. Essa é a “politização” que as Organizações Tabajara Globo esperam dos seus súditos: comparecer na data marcada numa seção eleitoral e digitar os números dos seus candidatos, que depois serão “denunciados” no Jornal Nacional. “Político é tudo ladrão”. Mas não tem problema. “O brasileiro não tem mesmo memória!” E tome chavões na cabeça. Padrão “Fauto Silva” de consciência política.

Vejo no Rainha Vermelha uma foto de um macaco sem pelos (o post é muito mais interessante do que a minha memória biográfica). É inevitável me lembrar de um dos muitos casos que meu avô contava. Certa vez foi convidado a participar de uma refeição cujo prato principal seria um pequeno macaco. Declinou quando viu o macaco despelado e notou a grande semelhança com uma criança humana. Não tenho idéia do que o meu avô pensaria sobre a teoria da evolução. Mas tenho certeza de que a experiência do macaco/criança o aproximava da conclusão de que somos mamíferos-primatas como quaisquer outros.

Essa lembrança me remete a uma conversa recente com meus alunos. Falávamos sobre o ditanciamento que se estabeleceu entre o consumidor moderno de carne e o animal que a oferece. Compramos as “peças” no supermercado, naquelas bandejas com cortes pré-definidos – e nos esquecemos convenientemente que são parte de animais que já foram vivos. Cresci na “roça”.  A carne à mesa, com freqüência, andava há pouco pelo quintal. Para os urbanos, essa informação pode ser estranha. Tem muita gente por aí que não liga o bife ao boi. Não sou e nem pretendo ser vegetetariano. Mas não deixa de ser interessante essa situação de que hoje as pessoas comem coisas cuja origem desconhecem completamente. Se soubessem, não comeriam.

Essas notas talvez seguissem por outros caminhos, mas para chegar até aqui tive que recorrer  a um “ponto de restauração do windows” e tive que escrever novamente alguns pedaços. Parece que isso foi obra de uma interação pouco amistosa entre o meu notebook e o windows-update. Moral da história: não legalize o seu windows por causa  das  vantagens que que a MICOsoft oferece. O windows é um programa pirata por essência. Não adianta a Microsoft oferecer agora as vantagens da legalização.  (Em tempo: estou escrevendo a partir de uma cópia perfeitamente legal do Vista).

Como digo aos meus alunos: só mais uma coisa, para concluir, SILÊNCIO, sigam a discussão sobre a conscientização ambiental  a partir do blog da Lúcia. Quero entrar na conversa, mas agora não posso.