Archive for February, 2009

Pena de morte custa caro!

Saturday, February 28th, 2009

Há muito tempo, durante uma aula de “sociologia do crime”, um aluno/delegado de polícia me perguntou se eu era a favor ou contra a pena de morte. Respondi que era contra. Ele disse que também era. Apresentou os argumentos de sempre: somente pobres seriam atingidos e haveria o risco de inocentes serem executados. Afinal, a justiça criminal não funciona bem no Brasil. Em seguida, completou o raciocínio: o certo é a polícia matar, pois a polícia SABE quem tem ou não recuperação. Mas o assunto deste post não é a concepção dos policiais civis sobre o seu trabalho, que poderá ser abordado em outra oportunidade. O assunto agora é a pena de morte.

Quadro do pintor espanhol Francisco de Goya (1814).

Quadro do pintor espanhol Francisco de Goya (1814).

Como naquela ocasião, confirmo a minha opinião contrária à pena de morte. Antes de mais nada, por uma questão de convicção pessoal. Penso que o Estado não pode decidir pela morte de quem quer que seja. Não compartilho do ponto de vista estritamente individualista que responsabiliza exclusivamente o ator individual pelo ato praticado. Qualquer ação, inclusive a contrária à lei, é contextual. Se não devemos ir tão longe, de modo a desresponsabilizar completamente o agente por sua ação, não devemos também esquecer dos diversos fatores que constituem a sua motivação. Ninguém pratica um crime por ser a encarnação do mal. A conduta criminosa é conseqüência de uma variedade de fatores. A escolha individual é um deles, mas apenas um. A punição, o encarceramento em particular, é, muitas vezes, inevitável. Mas a pena de morte nunca será, na minha opinião, justificável.

Argumentos baseados em convicções pessoais não são os mais fortes. Convicções por convicções, cada um tem as suas. Como sempre sou confrontado com essa questão da pena de morte, os alunos sempre perguntam, gosto de acrescentar alguns argumentos mais objetivos.

Analisando as taxas de homícidio (por 100 mil habitantes) dos estados americanos que têm e dos que não têm a pena de morte, não resta dúvida de que esse recurso carece de força dissuasória. Os estados onde não é aplicada a pena de morte têm as taxas mais baixas de homicídios. (FONTE DOS DADOS).

Taxas de Homicídio de estados americanos que têm e dos que não têm a pena de morte.

Taxas de Homicídio dos estados americanos que têm e dos que não têm a pena de morte. CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR

Durante a minha pesquisa de campo para a tese de doutorado, em que entrevistei 54 presos, pude observar que quase todos os entrevistados tinham em mente que a prisão é uma probabilidade muito real na vida de quem se envolve com o crime. Diante desse fato, tomavam as precauções possíveis, mas sabiam que mais cedo ou mais tarde poderiam rodar. Alguém poderia argumentar que a probabilidade de uma pena capital teria força suficiente, maior do que a cadeia, para fazer com que o candidato a fora-da-lei desistisse da empreitada criminosa. No entanto, é preciso considerar que uma pessoa que se dispõe a praticar um crime violento encara a morte muito mais de perto do que numa provável e incerta execução legal. No momento da ação, a vítima pode estar armada e reagir, o estabelecimento comercial pode ter seguranças armados, a polícia pode chegar. É preciso considerar, também, as “técnicas de neutralização da percepção do risco”. Por exemplo: conversas, anteriores à ação, em que os parceiros contam uns para os outros histórias de sucesso. Ou o uso de bebidas alcoólicas e drogas ilícitas. Muita gente pensa que o álcool e as drogas conduzem as pessoas ao crime, mas o oposto também pode ser verdade. O crime pode conduzir as pessoas ao álcool e às drogas.

Outro argumento muito objetivo é o custo, em dinheiro, da aplicação da pena de morte. Os argumentos favoráveis à pena de morte surgem freqüentemente relacionados às informações sobre o que é gasto para manter os presos atrás das grades. A pena de morte seria a alternativa mais barata, pois eliminaria os custos de alojamento, higiene, alimentação, etc. Não há engano maior. A pena de morte custa muito caro.

Segundo matéria publicada no New York Times, vários estados americanos estão considerando a extinção da pena de morte por causa do preço que têm que pagar. Um estudo recente mostrou que um processo por homicídio em que o promotor pede a pena máxima pode custar 3 milhões de dólares (contra algo em torno de 1 milhão nos processos em que a pena de morte não é o objetivo). O custo elevado é conseqüência do número de advogados empregados e da quantidade de apelações e recursos solicitados. Mesmo após a execução, a família do condenado pode tentar obter uma
indenização.

Enfim, acredito que não seja possível justificar a pena de morte. Alguns alunos (amigos do aluno/delegado lá do início?) ainda insistem dizendo que a pena de morte poderia ser barateada. Imagino que a referência seja o modelo chinês. Argumento dizendo que o “barateamento” significa abrir mão de todas as conquistas (e que ainda não são suficientes) que racionalizam o processo penal desde o século XVIII. Quando esse argumento é rejeitado, quando o Estado de Direito não é percebido como imprescindível, falo como um ótimo professor que tive nos tempos de graduação: Então o caso é mais grave…

É carnaval!!! (versão globalizada)

Sunday, February 22nd, 2009

Minha amiga Lúcia Malla escreveu: “é carnaval, é a doce ilusão”. E nos mostrou a folia tentacular de uma anêmona fotografada por Andre Seale.

Eu me inspirei e também escrevi: “é carnaval!!!” Como não vou muito com a cara do carnaval desde que, em meados da década de 1970, me fantasiaram de pirata e me empurraram para uma matinê, vou de carnaval globalizado. Traumas de infância são persistentes…

Não vou escrever no blog até o início do ano fim do carnaval. Então deixo com vocês dois sambinhas globalizados.

O primeiro do Depeche Mode – “Just can’t get enough” – em gravação do Nouvelle Vague, voz de Eloisia.

O segundo do Buzzcocks – “Ever fallen in love” – também em gravação do Nouvelle Vague, voz de Melanie.

Crítica social, humor e (in)correção política

Friday, February 20th, 2009

O humor é uma ferramenta válida de crítica social? O riso e a reflexão são compatíveis? Quem ri de uma piada mantem a capacidade de pensar sobre o seu conteúdo? A risada não acabaria, no final das contas, por neutralizar a crítica? Borat

Acredito que não há uma única reposta para essas perguntas. Como sempre, depende do contexto. Em alguns casos, o humor pode ser o único caminho. Sob censura, por exemplo. Em outros, pode ser a forma mais direta de atingir pessoas que não estariam dispostas a uma reflexão mais sisuda, elaborada em um texto circunspecto.

Mas o hábito de transformar todos os problemas em piadas não poderia ser também uma forma de suavizá-los? Ou então: fazer piadas preconceituosas (racistas, sexistas, homofóbicas) é um forma de denunciar essas práticas ou apenas um reforço aos precoceitos? Não quero responder, quero perguntar.

Um bom pretexto para desenvolver esse raciocínio é considerar o “falso documentário” Borat. Sacha Baron Cohen, convertido em Borat Segdiyev (o 2º melhor repórter do glorioso país Cazaquistão), não se deixa intimidar pelas exigências de “correção política” e lança mão de piadas de gosto mais do que duvidoso e de agressividade há muito tempo desaparecida dos espaços públicos para expor – e supostamente criticar – os preconceitos dos americanos (e dos povos “civilizados” em geral) contra uma variedade de minorias e outsiders.

O filme alcança o seu objetivo? Como disse, quero perguntar. Você, improvável leitor, assistiu ao filme? O que pensa sobre esse assunto?

–> Para quem se interessa pelos aspectos jurídicos desse tema, recomendo o ótimo post do juiz federal e professor George Marmelstein: Os Aristocratas e os Direitos Fundamentais: devem existir limites jurídicos para o humor politicamente incorreto?

Crime, moral e confiança

Wednesday, February 18th, 2009

Os trechos reproduzidos abaixo foram retirados de entrevistas concedidas por pessoas condenadas pela justiça criminal.

“A justiça é uma máfia. Polícia é máfia. Promotor é máfia. Tudo é bandidagem. Tudo é do crime. Tudo é bandido”.

“O bandido de curso superior róba na caneta”.

“Se existe polícia, existe o bandido. Se existe o bandido, existe o polícia-bandido. Existe o advogado, existe o promotor e existe o juiz. E existe o juiz corrupto. A corrupção começa do pequeno e vai até os grande. Vem do presidente, senador, deputado, juiz, promotor, advogado e vem polícia e vem o ladrão. Tem o pequeno ladrão, o grande ladrão. Tem o ladrão que róba um ônibus, tem o ladrão que róba um banco. Então tudo começa deles mesmo. Vem lá de cima até aqui”.

“Hoje em dia o crime também acabou. Hoje em dia é pouca coisa e eles te matam ocê”. “Antigamente tinha respeito. Hoje esses menino novo tá matando pra fazer nome. Eu saio da cadeia… chego no movimento do crime… eu posso morrer. Por que? Porque o menino novo lá ele quer fazer nome. Eles quer fazer nome e faz. Cê não conhece eles, não sabe a intenção deles. Menino com 12 anos tá matando”.

As falas dos presos chamam a nossa atenção para algo que é muito pouco notado: a perspectiva profundamente moral pela qual os criminosos enxergam a realidade. Muitos têm noção clara de que o comportamento criminoso é errado. Tentam aliviar sua responsabilidade dizendo que teriam entrado para o crime por influência das más companhias. Outros afirmam que a injustiça e a corrupção estão presentes em todos os lugares e que não teriam alternativa de vida fora das atividades ilícitas.

É interessante o fato de que o crime que causa maior repulsa aos próprios criminosos é o roubo a transeuntes e a ônibus. Mesmo aqueles que praticam tais atos costumam afirmar que consideram errado prejudicar trabalhadores e inocentes, que não têm orgulho do que fizeram. Costumam se justificar dizendo que foram conduzidos por alguma força independente da vontade. As drogas, a bebida, uma certa natureza de ladrão (“É o dito, né? O ladrão né, a adrenalina do momento. Que eles fala, o ladrão só serve para matar, roubar e destruir, certo? Tava cheio de droga, tudo era festa.”) ou as quase sempre presentes más companhias têm a preferência nos discursos de neutralização da culpa.

Os roubos a estabelecimentos comerciais e a bancos são vistos como aceitáveis. Mesmo porque não é raro os próprios funcionários “darem a fita”, isto é, avisarem quando o caixa da empresa está cheio. Especialmente no caso dos bancos, existe a crença de que eles têm muito e roubam de seus clientes. Não seria errado, portanto, roubá-los (“Tem que roubar de quem? O banco rouba da gente…”).

No caso dos homicídios é diferente. Muitos dos assassinatos praticados são motivados por alguma atitude da vítima que foi interpretada como ofensiva ou imoral. Normalmente não se arrependem desses homicídios. Na minha pesquisa para o doutorado, conversei com um traficante de drogas condenado a vários anos de prisão. Afirmou categoricamente que nunca se arrependeu de ter matado algumas pessoas. Matou, por exemplo, quando era guarda na porta de uma boate, um sujeito que, apesar de ter sido proibido de entrar, usou da força física para passar pela porta. Não havia escolha, disse o traficante, pois a vítima teria lhe faltado com o respeito. Argumentei que uma falta de respeito, por mais incômoda que pudesse ser, poderia ser administrada de outra forma. Ele poderia ter simplesmente colocado o indivíduo para fora da boate. Mas ele não concordou. Um homem não pode aceitar certas coisas e ponto final. Tentando me convencer do seu ponto de vista, perguntou se eu não o mataria caso ele pegasse o meu “radinho” (um gravador que estava desligado sobre a mesa – não permitiu que a entrevista fosse gravada) e o quebrasse. Disse que, por mais que eu não gostasse de ver o meu “radinho” espatifado no chão, não o mataria por esse motivo. Mesmo porque um “radinho” quebrado nunca justificaria alguns anos de cadeia. Devolvi então a pergunta: não teria sido melhor deixar o cara da boate vivo e economizar alguns anos de cárcere? “Claro que não”, afirmou. É melhor estar preso do que conviver com uma agressão moral que não foi solucionada adequadamente. Durante toda a argumentação o traficante se mostrou irredutível. Da mesma forma que eu não compreendia as suas posições, ele não compreendia as minhas. O fato é que, por mais torta que fosse a sua concepção moral sobre as relações entre as pessoas, ela existia. E era intensa.

É curiosa também a freqüência com se referem ao fato de que “o crime não é mais o mesmo”, de que “nos dias de hoje não existe mais respeito”. Principalmente os mais velhos se mostram saudosos do tempo em que os velhos códigos de honra tinham validade. “O nome que eu carregava lá era…, qualquer lugar que chegasse e falasse [o nome] a banca era minha”. Hoje já não seria mais assim. Os jovens matam qualquer um sem nenhuma consideração. Sem os códigos, que já não valem nada, não há confiança. Tudo é resolvido a bala.

O problema – moral – da falta de confiança não atinge apenas os criminosos. Em uma pesquisa realizada há algum tempo no Rio de Janeiro, foi constatado que 60,1% da população de 16 anos ou mais consideram o brasileiro pouco ou não confiável. Quando os dados são desagregados, percebe-se que entre as pessoas de 16 a 24 anos o número chega a 70%. Ou seja, os mais jovens são mais desconfiados do que os mais velhos (das pessoas de 55 anos ou mais, 46,9% acreditam que o brasileiro é pouco ou não confiável). É uma evidência de que estamos vivendo um processo continuado de deterioração das relações sociais. O fato é que se as pessoas em geral andam tão “desconfiadas”, é de se esperar, por motivos óbvios, que os bandidos andem mais desconfiados ainda.

Correndo nas veias da cidade

Sunday, February 15th, 2009

A maioria das pessoas, nas grandes cidades, vive uma rotina diária que envolve deslocamentos mais ou menos longos para o trabalho e/ou escola. Saem pela manhã e retornam no fim do dia. Os que trabalham e estudam costumam voltar para casa somente no fim da noite. Eu saio pela manhã, volto na hora do almoço, saio novamente no fim da tarde e retorno mais uma vez no fim da noite. Fazendo isso quase todos os dias, com exceção dos finais de semana e dos períodos de férias, acabamos tão acostumados que deixamos de pensar sobre a nossa experiência de habitantes de cidade grande. Mas podemos fazer um exercício de imaginação para redescobrirmos aquilo que o hábito cobriu com a sua baba, como diria Cortázar.

Se existe um consenso nas ciências sociais, é a concepção de somos parte de complexas estruturas que condicionam e limitam as nossas escolhas e ações. Acredito que percepção das conseqüências de fazer parte de estruturas de classe, etnia ou gênero já faz parte do conhecimento de senso comum. Qualquer pessoa já ouviu informações sobre as diferenças de oportunidade (de acesso ao dinheiro, à saúde, ao emprego, à educação, etc.) entre ricos e pobres, negros e brancos ou mulheres e homens. Essas questões são tema de conversas de bar.

No entanto, a estrutura espacial do locais onde vivemos e as suas conseqüências sobre a nossa vida diária são menos evidentes. Os meios de comunicação falam do trânsito à exaustão, mas o noticiário superficial (que se preocupa apenas com o tamanho dos engarrafamentos) o transforma em uma entidade com vida própria e não mostram a realidade de um conjunto complexo de interações sociais estruturadas por um traçado urbano específico.

Cada cidade tem o seu desenho, que define os caminhos que percorremos diariamente em nossos deslocamentos citados anteriormente. Se gastamos mais ou menos tempo indo de casa ao trabalho; se ficamos mais ou menos tempo em casa; se optamos pelo carro, pelo ônibus, pela bicicleta ou pelos pés; se transitamos em alta velocidade ou vagarosamente; se o nosso meio de transporte já se tornou o lugar onde boa parte de nossa vida acontece; se corremos mais ou menos riscos de acidentes durante nossas idas e vindas, se nos estressamos mais ou menos; tudo isso é conseqüência direta de como a cidade onde vivemos é desenhada. Sem esquecer, é claro, que a nossa posição na estrutura econômica abre ou fecha as opções relacionadas ao local de moradia, de trabalho, ao tipo de transporte, etc.

Talvez seja o fato de vivermos no chão, sem muitas oportunidades de observarmos a cidade de cima, um dos fatores responsáveis pela percepção incompleta que temos da nossa imersão em uma complexa rede de vias expressas, avenidas e ruas que nos conduzem – sobre rodas ou a pé – de um lugar para outro. Observando imagens aéreas em movimento acelerado de uma cidade, podemos ter uma noção mais clara de como participamos de fluxos pré-definidos, aos quais somos obrigados a nos adaptar e nos adaptamos tão profundamente que quase não os identificamos.

Uma oportunidade de ter essa experiência (e a partir dela despertarmos a nossa imaginação sociológica) é assistir ao excelente Koyaanisqatsi, filme de Godfrey Reggio, com trilha sonora não menos excelente de Philip Glass. Os fluxos de carros e de pedestres apresentados do alto e de forma acelerada são impressionantes. A cidade ganha a aparência de uma espécie de organismo em cujas artérias correm algumas estranhas substâncias. Essas substâncias somos nós.

Veja um trecho do filme:

Depois de assistir ao filme, quando atravessar uma rua ou entrar de carro em uma via de trânsito rápido por um acesso lateral, lembre-se que você não passa de um pequeno objeto que corre nas veias da cidade.

Concluindo os comentários dos comentários (algumas palavras não muito organizadas)

Friday, February 13th, 2009

Pois é, Meg, gosto do “Desvendando o arco-íris“. Gosto muito também do “Escalada do monte improvável“, particularmente da paulada destruidora do capítulo 8 sobre o antropocentrismo. Não antevi o que viria, mas você suspeitou corretamente. Veio uma besteira das grandes.

Como escrevi anteriormente, uma das fraquezas que vejo no “Deus, um delírio” é a negação de discutir as concepções mais robustas da religião. Dawkins faz referências explícitas ao budismo e à “religião de Einstein” (mas seria possível incluir também versões teologicamente mais elevadas dentro do monoteísmo judeu, cristão ou islâmico) para dizer que não seriam exemplos de religião, mas de filosofia. Não seriam, portanto, objeto de seu livro.

O Paulo afirmou que não haveria razão para o budismo ser abordado, já que “não tem uma ‘gênese’ nem um deus criador”. O mesmo argumento poderia ser aplicado à “religião de Einstein”, que não reconhece a existência de um deus criador pessoal e intervencionista. Sobre Einstein, reproduzo o link interessante deixado pelo Pedro. Ele só errou feio quando me chamou de Rafael Galvão. Isso não se faz… Não vejo nenhum problema em delimitar os assuntos a serem abordados no livro, a delimitação é inevitável. No entanto, penso que a delimitação foi feita de uma forma um tanto desonesta. Talvez por questões de marketing editorial, o livro é apresentado como um ataque à Religião (com erre maiúsculo). Mas ele não passa de um ataque ao fundamentalismo religioso mais raquítico. Essa “propaganda enganosa” causa decepção.

Mais do que decepção, acredito que a abordagem editorial matou o livro. Se o livro é vendido como um ataque à Religião e a religião descrita no livro é reduzida àquele amontoado de absurdos fundamentalistas, fica, pelo menos para mim, a impressão de que o autor não pôde ou não soube construir argumentos consistentes e definitivos contra a Religião. E aqui concordo com o Gabriel: Dawkins não tem competência para o debate que procurou estabelecer. E discordo do Paulo: a singeleza dos argumentos não se deve ao formato de panfleto, mas à falta de conhecimento sobre o tema.

Seria, talvez, mais apropriado vender o livro como um ataque ao fundamentalismo religioso mais obtuso, mas, do ponto de vista editorial, imagino que isso poderia dimuir o interesse pela obra. De qualquer forma, continuo achando que o livro oferece munição para o inimigo. Dá uma excelente oportunidade aos pregadores fundamentalistas para se fazerem de vítimas dos ateus demoníacos e incendiarem, assim, as suas assembléias.

(O Paulo citou o Carl Sagan. Gosto muito do “Mundo assombrado pelos demônios“. Tem o foco mais bem ajustado e, com isso, desenvolve argumentos muito mais fortes contra uma seleção de crenças espúrias. Tudo isso com a elegância singular de Sagan.)

Como disse ao Bia em um comentário, acredito que os maiores alvos do livro não são sensíveis aos argumentos apresentados. Alguém que crê na existência de um velho barbudo pendurado em algum lugar lá em cima que não só criou o universo, mas também se ocupou da elaboração de regrinhas sobre como os humanos devem fazer sexo, não vai mudar de opinião depois de ler um punhado de argumentos contrários. Fica a pergunta: para quem o livro foi escrito?

Finalmente, o Fernando lembrou bem que “contra Dawkins e sua bandeira operam todos os fatores, dentre os quais a necessidade humana de acreditar em alguma coisa, seja o que for”. Voltamos à questão da necessidade de “segurança ontológica” (para um resumo das idéias de Giddens a respeito da modernindade, clique aqui). Definindo o conceito de uma forma pouco rigorosa, poderíamos dizer que tem a ver com a necessidade de acreditar que “tudo é e continuará sendo o que sempre pareceu ser”. Como construir e manter essa crença no mundo que Bauman chama de líquido? Fácil não é. Essa dificuldade talvez explique a profusão de fundamentalismos, não apenas religiosos, nos tempos que correm.

Ah! Já estava esquecendo: concordo com o Thiago!!!

Resposta ao comentário do Gabriel.

Thursday, February 12th, 2009

Gabriel, estava respondendo na caixa de comentários, mas a resposta quase virou um post. Então vou colocar aqui fora. O seu comentário:

Ok. Não vou nem entrar na questão da ingerência da religião nos assuntos políticos (me lembro de ter dó do Rawls e dos paradigmas de sua “razão pública”). Mas o que verdadeiramente me irrita é o pressuposto de que crentes (i.e. pessoas que crêem) são necessariamente desprovidas de “Ratio”, do qual só são seus zelosos guardadores os defensores de um secularismo estrito e tacanho. É absolutamente impossível conceber um interlocutor religioso à altura? Ele é a priori portador de uma posição indefensável? Isso é, de fato, um dogmatismo desvairado.
Abs.

Minha resposta:

Aqui em BH tem um pastor que disse mais de uma vez em seu programa DIÁRIO de televisão que não podendo evitar que suas filhas estudassem a teoria da evolução na escola, já que é matéria curricular e cobrada no vestibular, a alternativa por ele adotada foi explicar a elas que aquilo tudo estava errado, que era “coisa do mundo secular” que elas tinham que tolerar para concluir os estudos. A VERDADE está na Bíblia, dizia a elas.

Esse pastor se elegeu vereador, posteriormente deputado estadual e segue em sua carreira política, que não deve parar por aí. É isso que me preocupa. É esse tipo de “religião” que me provoca arrepios.

Acredito que seja plenamente possível um interlocutor religioso e racional. Concordo com o comentário do Catatau:”Existem debates muito interessantes sobre as tradições bíblicas sobre a origem do mundo; algo bem diferente do que levar a Bíblia ao pé da letra como um manual unitário para a vida, e daí legislar sobre tudo sem nenhum princípio racional…”

A condição que me parece indispensável para a qualificação de qualquer interlocutor, cientista (social ou natural), religioso, político, etc. é que ele compreenda que a nossa (humana) apreensão da realidade é inevitavelmente mediada pela linguagem (que, não raramente, esconde mais do que revela). Considero indispensável o entedimento de que conceitos, categorias ou quaisquer outras representações mentais do real são e sempre serão imperfeitas e incompletas; que em qualquer interlocução é imprescindível confrontar CONCEPÇÕES DO REAL (quase escrevi “idéias”, mas preferi não acordar o fantasma de Platão) e não pedaços supostamente objetivos da realidade.

Alguém que diz às filhas e ao público da tevê que o mundo foi criado por um deus pessoal em 6 dias de 24 horas há 10 mil anos está, na minha opinião, atirando paralelepípedos de realidade pseudo-objetiva na testa do interlocutor!

Abraço.

Comentário dos comentários: é só o começo (ou desculpem-me pela verborragia)

Wednesday, February 11th, 2009

Fazer promessas é uma prática perigosa. Inflaciona as expectativas e aumenta as chances de ocorrer uma decepção. Aquilo que é muito anunciado acaba por gerar uma reação do tipo: “AH… Era só isso…” O fato é que, ainda que de uma forma não consciente, aquele que aguarda elabora e antecipa mentalmente o que espera ver no momento da realização da promessa. Não raramente, as expectativas se frustram.

Corro esse risco agora. Atentei para isso depois que o Fernando (nos comentários) disse que estava esperando os comentários dos comentários. Proponho um exercício então. Aquele que porventura sentir que faltou alguma coisa nas minhas respostas, faça uma investigação mental sobre o que imaginou que eu escreveria. O resultado pode ser interessante.

Seguindo a ordem:

O Catatau disse: “Quanto ao criacionismo, parece-me que, ao invés de bater no bêbado, hoje em dia é como se um exército de bêbados reagissem, como bem mostram teus dados acima”. Concordo. Considerando que o apoio ao criacionismo esteja crescendo, é apropriado pensar que há uma reação do exército embriagado. Fico imaginando uma cena daqueles filmes em que uma massa de zumbis toma, aos poucos, toda a cidade. Falta-lhes inteligência e estratégia, mas certos automatismos “post mortem” e o número crescente garante que os resultados – devorar todos os vivos restantes – sejam alcançados. Temos então pela frente um comando de bêbados-zumbis numeroso, que pode nos causar problemas.

Embora tenha chamado os fundamentalistas de bêbados em meu post, esclareço agora que não deixo de me preocupar com eles. Minha maior preocupação se refere ao seu avanço político. Têm cada vez mais ocupado vagas nos parlamentos e mesmo nos executivos (mais raramente, felizmente). Tenho arrepios ao pensar que posso ser obrigado a fazer alguma coisa ou proibido de fazer outra porque uma lei de orientação religiosa entrou em vigor (um candidato a vice-prefeito de Belo Horizonte, por exemplo, deputado estadual em MG, usou as suas prerrogativas para homenagear um juiz de não-me-lembro-qual-cidade porque o Preclaro Magistrado negou o direito ao aborto a uma mulher cuja gravidez resultava de um estupro. Sei que não se trata de uma lei que pode interferir na vida de alguém. Mas esse tipo de coisa – homenagem a uma decisão repulsiva de um juiz – representa para mim um sinal de que devemos estar muito alertas para não termos que lamentar depois por ocorrências mais graves).

Confesso que não entendi direito a segunda parte do comentário, que diz: “Algo como supor que a China seja verdadeiramente o melhor time do mundo baseado no número dos torcedores…” Quanto ao link sugerido – blog de Luciana Christante – achei interessante o post. Mas quanto à opinião do “sociólogo da UFF” (parece personagem do Nelson Rodrigues!), não concordei muito, se é que a entendi adequadamente (notem que estou com algum problema de entendimento – espero que passe).

De acordo com o “sociólogo da UFF”, citado indiretamente por Christante, “o recrudescimento do criacionismo nos últimos anos tem um paralelo com a deterioração das condições de vida de uma grande parte da população (dados da ONU) que, por sua vez, tem relação com essa instabilidade social gerada pela globalização; tudo isso vem acompanhado de vulnerabilidade, incerteza e desamparo”. Tive a impressão de que o argumento leva em consideração de forma destacada o aspecto econômico relacionado “à deterioração das condições de vida” e que, dessa forma, as variáveis “vulnerabilidade, incerteza e desamparo” estariam também associadas às carências econômicas e materiais, ou à pobreza, enfim.

Acredito que o problema seja bem maior. No aspecto econômico, não vejo a pobreza como único ou principal problema. A insegurança econômica, o risco da perda do emprego, as dificuldades de pagar por aquilo que a sociedade de consumo nos empurra são situações enfrentadas por todas as classes. Ainda que cada uma vivencie o problema à sua maneira, de acordo com parâmentros e referências específicos. Essa realidade explicaria o fato de que – não tenho dados estatísticos, é uma impressão – a adesão ao fundamentalismo esteja aumentando também nas classes médias e altas.

Além disso, penso que o aspecto econômico não seja o único a ser considerado. Existe um problema “existencial” também, por assim dizer. Vivemos em um mundo perigoso e incerto, a realidade escorrega por entre os nossos dedos quando tentamos apreendê-la, enfrentamos dificuldades relacionadas à construção/manutenção de nossa própria identidade – tanto a identidade social, como a mais ou menos correspondente auto-imagem pessoal. Falta-nos a todos aquilo que Anthony Giddens chama de “segurança ontológica”.

….Mas a janela de tempo que estava aproveitando se fechou. A continuação será continuada depois!

Contradição do ateísmo

Tuesday, February 10th, 2009

O post anterior provocou vários comentários interessantes e quero dizer o que penso de cada um deles. Mas já está tarde e tenho que madrugar. Os comentários dos comentários vão ficar para depois. Gostaria de dizer apenas o seguinte: É evidente que o ateísmo militante não é a única e nem a mais importante causa do aumento do apoio ao criacionismo, design inteligente e similares. No entanto, continuo acreditando que Dawkins deu um tiro no pé com o “Deus, um delírio”. Além de ter escrito um livro que considero ruim, caiu em uma armadilha. Entrou no jogo dos crentes. Sobre essa armadilha, penso que John Gray (Cachorros de Palha – Record – 2006) acertou na veia quando escreveu:

A descrença é uma jogada num jogo cujas regras são estabelecidas pelos que crêem. Negar a existência de Deus é aceitar as categorias do monoteísmo. Quando essas categorias caem em desuso, a descrença torna-se desinteressante e, em pouco tempo, sem sentido. Os ateus dizem que querem um mundo secular, mas um mundo definido pela ausência do deus cristão continua sendo um mundo cristão. O secularismo é como a castidade, uma condição definida pelo que é negado. Se o ateísmo tem um futuro, só pode ser uma revivificação cristã; mas de fato o cristianismo e o ateísmo estão declinando juntos. O ateísmo é um fruto tardio da paixão cristã pela verdade. Nenhum pagão está pronto para sacrificar o prazer da vida em troca da mera verdade. Prezam a ilusão artificial, não a realidade despida de enfeites. Entre os gregos, a meta da filosofia era a felicidade ou a salvação, não a verdade. A adoração da verdade é um culto cristão. Os antigos pagãos estavam certos ao estremecer diante da assustadora determinação dos primeiros cristãos. Nenhuma das religiões de mistérios que abundavam no mundo antigo pretendia o que os cristãos afirmavam – que todas as outras crenças estavam erradas. Por isso mesmo nenhum de seus seguidores poderia algum dia tornar-se um ateu. Quando os cristãos insistiam em que apenas eles possuíam a verdade, condenavam a extravagante abundância do mundo pagão à danação final. Num mundo de muitos deuses, a descrença nunca pode ser total. Pode apenas significar a rejeição de um deus e a aceitação de outro ou, como no caso de Epicuro e seus seguidores, a convicção de que os deuses não importam, já que há muito deixaram de se importar com as questões humanas. O cristianismo atingiu, na raiz, a tolerãncia pagã à ilusão. Ao sustentar que existe uma única fé verdadeira, deu à verdade um valor supremo que não tinha tido antes. E também tornou possível, pela primeira vez, a descrença no divino. A conseqüência de efeito retardado da fé cristã foi uma idolatria da verdade que teve sua mais completa expressão no ateísmo. Se vivemos num mundo sem deuses, devemos agradecer ao cristianismo.

Continuo em breve…

Teoria da evolução, criacionismo e o imponderável

Sunday, February 8th, 2009

Em um post logo abaixo, escrevi:

Acredito que uma das maiores contribuições da teoria sociológica para a compreensão da vida em sociedade é a definição do que podemos chamar de “conseqüências não-antecipadas da ação social”. Para Robert Merton (1979), um dos sistematizadores dessa descoberta recorrente entre os sociólogos clássicos, em princípio, “as conseqüências de uma ação proposital seriam limitadas aos elementos da situação resultante que são, exclusivamente, efeito da ação, isto é, que não ocorreriam se a ação não tivesse sido praticada” (p. 196). Mas as conseqüências concretas de uma ação são, na verdade, ainda de acordo com Merton, o resultado da interação entre a ação propositada e as condições objetivas do ambiente em que a ação se deu. A partir de um propósito inicial e na relação com as condições objetivas do ambiente da ação, podem ocorrer efeitos que não foram pretendidos ou antecipados. Vale ressaltar que os efeitos não-antecipados não são necessariamente indesejáveis. Podem ser positivos sob algum aspecto, ainda que obtidos involuntariamente.

Hoje a Folha de São Paulo trouxe uma informação [link para assinantes] que pode exemplificar como a falta de previsão das conseqüências de uma ação pode ser desastrosa.

Darwin apoiaria Dawkins?

Darwin apoiaria Dawkins?


Por conta dos 200 anos de nascimento de Darwin, dois institutos ingleses – Theos e Faraday – publicaram uma pesquisa cujos números indicam que 32% dos entrevistados aprovam a idéia de “criacionismo da Terra Jovem” (o universo e tudo que nele se encontra teriam sido criados por Deus em 6 dias de 24 horas há, mais ou menos, 10 mil anos) e 51% apoiam a hipótese do “design inteligente” (a vida como a conhecemos não poderia ter se desenvolvido por meio de processos naturais aleatórios – só a orientação de uma força inteligente poderia explicar a complexidade e a diversidade que presenciamos hoje). De acordo com a matéria, os números não são excludentes, pois o questionário permitia respostas múltiplas.

Os próprios responsáveis pela pesquisa consideram que os resultados são de difícil interpretação, já que os entrevistados não têm muito conhecimento sobre os temas em questão (a teoria darwiniana, o criacionismo e o design inteligente). De qualquer forma, é correta a conclusão de Denis Alexander – diretor do Instituto Faraday – que considera “desconcertante que, em 2009, existam pessoas que pensam que o mundo tem essa idade [10 mil anos] por conta de uma leitura da Bíblia, quando toda evidência científica demonstra que isso é errado”.

Para Alexander, que adverte sobre a falta de evidências estatísticas conclusivas, existem indícios de que o criacionismo esteja em ascensão na Inglaterra. O pequisador aponta três causas. As duas primeiras estariam relacionadas ao aumento da população de imigrantes islâmicos e à multiplicação de igrejas pentecostais de negros e afrodescendentes [grifos meus] (para quem simpatizou com a primeira opinião do pesquisador sobre a relevância do conhecimento científico, essa agora é um chute etnocêntrico e, porque não dizer, racista bem no meio do … da canela!).

Mas é a terceira causa que me chamou a atenção por se conectar com o problema das “conseqüências não-antecipadas da ação”. Segundo Alexander, o ateísmo militante de “intelectuais neodarwinistas”, capitaneados por Richard Dawkins, tem provocado o crescimento do apoio ao criacionismo na Inglaterra. As igrejas, mesquitas e sinagogas aproveitam a militância de Dawkins e cia, fazem uma caricatura de seus argumentos, e repetem aos fiéis que evolucionismo é sinônimo de ateísmo. Como os fiéis rejeitam fortemente o ateísmo, acabam por se afastar da teoria da evolução. A violência dos ataques de Dawkins à religião (não considero despropositada a especulação sobre a existência de um certo fundamentalismo ateu nesses ataques) estaria estimulando reações também violentas do outro lado. No final das contas, Dawkins estaria ajudando os fundamentalistas do criacionismo. Trata-se da típica conseqüência não-antecipada da ação em sua pior forma: o efeito não-antecipado é contrário ao objetivo inicial. Talvez fosse bom para Dawkins ler um pouco da literatura das ciências sociais… ela nos alerta para o imponderável que sempre acompanha as ações humanas (quero crer…).

Um depoimento pessoal: Como leigo, sempre admirei a beleza e a genialidade da teoria da evolução. Darwin é um de meus heróis desde que li a sua biografia. Sou leitor entusiasmado dos livros de divulgação científica que tratam de biologia. Foi assim que conheci e passei a gostar do Dawkins, há muito tempo. Mas não posso deixar de admitir que o “Deus, um delírio” me decepcionou. É aquela hitória de chutar cachorro morto. Escrever um livro inteiro para atacar o fundamentalismo religioso mais tacanho me parece um desperdício de energia e talento, ainda mais no caso de Dawkins. O que mais me desagradou no livro foi a incongruência entre a violência dos ataques aos raquíticos fundamentalistas e uma espécie de “corrida do pau” no enfrentamento das religiões mais esclarecidas. Não engoli, por exemplo, a estratégia de chamar o budismo de filosofia para diferenciá-lo da religião e, assim, não ter que encará-lo de frente. Parece que Dawkins optou por bater no bêbado. Bater no bêbado não é vantagem. Mas apanhar dele é feio.

Fotografia: Lewis Hine

Saturday, February 7th, 2009
Lewis Hine

Lewis Hine - Fotografia de Robert W. Marks

O fotógrafo, sociólogo e professor norte-americano Lewis Hine (1874-1940) usava a sua câmera como um instrumento a favor da reforma social. Esse objetivo é evidente no trabalho realizado, no início do século XX, para o National Child Labor Committee (NCLC). Hine documentou o emprego de crianças a partir de cinco anos de idade em pesadas atividades remuneradas. No ano de 1900, nos Estados Unidos, cerca de 20% das crianças entre cinco e dez anos de idade estavam trabalhando. As imagens eram usadas para alertar as autoridades para a necessidade de elaboração de leis contrárias ao trabalho infantil.

Hine chamava a si mesmo de “fotógrafo social”. A combinação que estabeleceu entre a sociologia e a fotografia tem a ver com a perspectiva dos primeiros sociólogos dos Estados Unidos, que viam a nova disciplina como um empreendimento essencialmente prático muito próximo do assistencialismo. A produção teórica e empirica mais preocupada com a explicação científica dos fenômenos sociais, desenvolvida por aqueles estudiosos que procuravam conquistar um lugar mais respeitável nas grandes universidades, começou somente por volta da década de 1920.

As fotografias das crianças são sensíveis e denunciam a sua precária situação sem apelar para o drama exagerado. Os retratados têm a sua dignidade respeitada e se apresentam com altivez.

Hine também é autor de muitas fotografias que registram a construção do Empire State Building.

CRIANÇAS TRABALHADORAS

Algumas crianças eram tão pequenas que tinham que subir nas máquinas para operá-las:

Fotografia de Lewis Hine

Subindo na máquina



As condições de trabalho nas minas destruíam a saúde dos meninos. O pó denso penetrava nos pulmões:

Fotografia de Lewis Hine

Na mina - destaque para o capataz empunhando um bastão usado para castigar os desobedientes



As meninas também trabalhavam:
Menina na tecelagem - dignidade preservada pelo fotógrafo, apesar da gravidade da situação

Menina na tecelagem - dignidade preservada, apesar da gravidade da situação



Para ver muitas outras fotos de Lewis Hine clique aqui.

Aparecida-SP

Thursday, February 5th, 2009

Neste início de ano, levei a minha mãe para conhecer a basílica de Aparecida. Ela tinha um interesse religioso. Eu tinha alguma curiosidade por esse que deve ser o maior centro de peregrinação do Brasil. A primeira impressão foi a de um trânsito confuso, com placas de “PARE” no meio de rotatórias. Tive que me concentrar para não avançá-las.

Não sei se foi causada pela longa e difícil viagem, mal orientada por um guia online, mas tive a sensação de estar em uma cidade cansada. Cidade de romeiros que viram noites em ônibus desconfortáveis para realizar o objetivo de alcançar um milagre qualquer.

A conclusão definitiva sobre a cidade é a de que ela se parece com uma grande e total estação rodoviária. Existem incontáveis lojas de bugigangas e produtos de origem suspeita. Até mesmo na enorme área da basílica, funciona uma espécie de shopping de tudo, inclusive de muambas paraguaias.

Não me vi em um lugar sagrado. Estive, sim, em um centro de comércio popular onde, em meio a tantos outros itens, destacam-se as mercadorias da fé.

Por falar em fé, o lugar que mais me chamou a atenção se chama “Sala das Promessas”. Trata-se de uma sala de ex-votos modernizada, com uma decoração bem elaborada, onde os romeiros podem observar os testemunhos dos milagres alcançados por aqueles que pediram alguma coisa à Nossa Senhora Aparecida, e foram atendidos. As expressões de esperança são visíveis nos rostos dos freqüentadores.

Abaixo, algumas fotos que tirei na sala de ex-votos. Na última é possível entrever o balcão de recebimento dos artigos levados pelos fiéis. Talvez seja esse ar de repartição pública um dos responsáveis pelo enfraquecimento do significado religioso do lugar, pelo menos para quem não estava à sua procura.

A postura e a expressão desse senhor passa a impressão de que sente respeito pelo lugar

A postura e a expressão desse senhor passam a impressão de que sente respeito pelo lugar



A sala é repleta de objetos expostos de todas as maneiras

A sala é repleta de objetos expostos de todas as maneiras



As pessoas olham os ex-votos com muito interesse

As pessoas olham os ex-votos com muito interesse



Ao fundo, o balcão de recebimento dos ex-votos

Ao fundo, o balcão de recebimento dos ex-votos

As conseqüências não-antecipadas da ação

Wednesday, February 4th, 2009

Acredito que uma das maiores contribuições da teoria sociológica para a compreensão da vida em sociedade é a definição do que podemos chamar de “conseqüências não-antecipadas da ação social”. Para Robert Merton (1979), um dos sistematizadores dessa descoberta recorrente entre os sociólogos clássicos, em princípio, “as conseqüências de uma ação proposital seriam limitadas aos elementos da situação resultante que são, exclusivamente, efeito da ação, isto é, que não ocorreriam se a ação não tivesse sido praticada” (p. 196). Mas as conseqüências concretas de uma ação são, na verdade, ainda de acordo com Merton, o resultado da interação entre a ação propositada e as condições objetivas do ambiente em que a ação se deu. A partir de um propósito inicial e na relação com as condições objetivas do ambiente da ação, podem ocorrer efeitos que não foram pretendidos ou antecipados. Vale ressaltar que os efeitos não-antecipados não são necessariamente indesejáveis. Podem ser positivos sob algum aspecto, ainda que obtidos involuntariamente.

A fonte mais óbvia de conseqüências não-antecipadas é a falta de um conhecimento adequado sobre as condições de realização da ação. O conhecimento inadequado pode ser resultado da “ignorância” (p. 200). É o caso típico das ciências do comportamento humano, de acordo com Merton, e refere-se ao fato de que os cientistas sociais geralmente encontram relações probabilísticas e não funcionais entre variáveis. Mesmo quando há um certo controle das conseqüências possíveis da associação, é impossível prever com certeza os resultados.

A ignorância se torna um problema mais grave na medida em que as exigências da vida prática nos obrigam, muitas vezes, a agir sob graus maiores ou menores de incerteza. Impõe-se a necessidade de distribuição racional do tempo e da energia disponíveis entre a aquisição do máximo possível de conhecimento sobre a situação e a realização efetiva da ação. A busca de um conhecimento ótimo pode se alongar a ponto de inviabilizar a ação, ao passo que a ação possível pode exigir um certo grau de ignorância que daria margem a conseqüências fortuitas (p. 202).

Outra fonte importante de conseqüências não antecipadas é chamada por Merton de “previsões auto-anuladas”. Nesse caso, “as previsões públicas de futuros desenvolvimentos sociais freqüentemente não são mantidas porque a previsão tornou-se um novo elemento da situação concreta, tendendo assim a mudar o curso inicial dos desenvolvimentos” (p. 206). O fato de que a previsão é pública impede que se cumpra a condição de que “as outras coisas devam permanecer iguais”, muitas vezes necessária para que se realize um certo objetivo. De acordo com Merton, as outras coisas não permanecerão iguais justamente porque o cientista introduziu uma nova outra coisa, isto é, a própria previsão (p. 207).

No mundo atual, onde há tanta coisa a ser construída, especialmente pela iniciativa pública, é importante estarmos atentos para os problemas relacionados às conseqüências não-antecipadas da ação social.

MERTON, R. As conseqüências não-antecipadas da ação social. In: __________ A ambivalência sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

Novo Semestre

Monday, February 2nd, 2009

Pois é, estamos começando mais um semestre. Mais um período de conversas sociológicas. Depois de 15 anos dando aulas de sociologia, ainda me surpreendo com a distância que essa disciplina pode estabelecer em relação aos não iniciados. Não se trata de uma área distante, esse é o motivo da surpresa. A sociologia fala do dia-a-dia de cada um de nós. Daquilo que nos é mais próximo. Talvez a proximidade provoque o distanciamento. “Tão perto, tão longe”. Gostaria muito de contribuir para que todos superassem esse distanciamento em relação a essa disciplina tão próxima. O nome deste blog tem a ver com esse objetivo. O exercício da “imaginação sociológica” é uma forma de desenvolvermos uma compreensão do mundo com horizontes ampliados. Percebendo como somos criados por uma complexa sociedade global e como ela é, ao mesmo tempo, um produto de nossas ações cotidianas. Esse é o exercício que proponho a cada aluno: observar como a sociedade nos impõe algumas ações e como nós contribuímos para a construção e manutenção da sociedade na qual vivemos. Espero, pelo menos, sensibilizar as pessoas para alguns problemas que enfrentamos em nossa vida diária. O cotidiano, muitas vezes, nos absorve. Mas cada gesto cotidiano está, de alguma forma, interligado a resultados coletivos e complexos. Colocando em prática a “imaginação sociológica”, talvez seja possível compreender melhor essa situação.

Sejam bem-vindos a este blog. Paricipem das discussões. Abaixo de cada post, há um link para os comentários. Vamos construir esse espaço em conjunto, trocando idéias e informações. Aguardo as contribuições de cada um.