O Golpe de 1964 aconteceu de fato no dia primeiro de abril, mas os militares não gostaram da coincidência com o Dia da Mentira. Decretaram então que o Dia D seria o 31 de março, quando Mourão Filho – a Vaca Fardada – começou a mobilizar as suas tropas em Juiz de Fora – MG. Na verdade, os militares deram o golpe no susto. Chegaram a pensar que a ação tinha fracassado. Quando viram que João Goulart não resistiria, e que o poder estava à disposição de quem chegasse primeiro, decidiram completar a quartelada.
Quando nasci, o Golpe já havia completado seis anos. Minha primeira lembrança relacionada ao Regime Militar é a foto oficial do Presidente Geisel, que ficava pendurada na sala de aula em que fazia a primeira série do primeiro grau. Todos nós éramos vigiados pela foto oficial do Geisel. Para mim, com meus seis – quase sete – anos de idade, aquela figura ser o presidente do Brasil era algo natural e certo. Nem sabia que fazia parte de uma linhagem de militares golpistas. Fazia tanto sentido quanto hastear a Bandeira e cantar o Hino Nacional às quintas-feiras.
Depois disso, me lembro vagamente da nomeação do General Figueiredo. Percebi pela primeira vez que os Presidentes da República eram todos generais. Aos nove anos de idade, esse fato também me pareceu natural e certo.
Não sei quando comecei a entender que o Regime era ditatorial e ilegítimo. Mas na campanha das Diretas em 1984 já tinha consciência dos fatos e acompanhei os acontecimentos com interesse. Lembro com clareza da primeira decepção política: a derrota da Emenda Dante de Oliveira, no dia 25 de abril de 1984.
Continuei acompanhando o noticiário político com entusiasmo crescente. Comecei a entender melhor o significado da foto carrancuda do Geisel na minha sala de aula. Pude localizar as minhas lembranças de infância no quadro mais abrangente da história. Passei a ouvir as histórias do meu avô sobre a sua convivência e admiração por Arthur Bernardes não mais como histórias do MEU AVÔ, mas de um ex-empregado subordinado a um ex-presidente da república conservador, nacionalista e autoritário que tinha governado o país sob estado de sítio. O título deste blog tem a ver com isso: o exercício da “imaginação sociológica” nos permite identificar as conexões entre a nossa biografia pessoal e o contexto sócio-histórico que a envolve.
Há poucos dias, me surpreendi com alunos que não sabiam o que era a campanha das “Diretas-Já”. Alguns disseram nunca ter ouvido falar do assunto. Se de fato não ouviram ou se não registraram, não sei. Talvez a informação não lhes tenha parecido importante. Às vezes preciso me esforçar para não esquecer que tenho alunos que nasceram em 1992, quando eu estava sentado na “Praça 7” (Belo Horizonte) assistindo à votação do impeachment de Fernando Collor.
De qualquer forma, o ano de nascimento não explica ou, muito menos, justifica o desinteresse pela história. Talvez a explicação tenha a ver com diluição do passado num mundo com déficit de atenção, onde as informações têm que ser transmitidas em clipes de 30 segundos. O difícil é provocar interesse pela história quando interessante é sinônimo de acelerado.









