Archive for March, 2009

O golpe de 1º de abril

Tuesday, March 31st, 2009

O Golpe de 1964 aconteceu de fato no dia primeiro de abril, mas os militares não gostaram da coincidência com o Dia da Mentira. Decretaram então que o Dia D seria o 31 de março, quando Mourão Filho – a Vaca Fardada – começou a mobilizar as suas tropas em Juiz de Fora – MG. Na verdade, os militares deram o golpe no susto. Chegaram a pensar que a ação tinha fracassado. Quando viram que João Goulart não resistiria, e que o poder estava à disposição de quem chegasse primeiro, decidiram completar a quartelada.

Ernesto Geisel e João Figueiredo (acervo do CPDOC-FGV)

Ernesto Geisel e João Figueiredo (acervo do CPDOC-FGV)

Quando nasci, o Golpe já havia completado seis anos. Minha primeira lembrança relacionada ao Regime Militar é a foto oficial do Presidente Geisel, que ficava pendurada na sala de aula em que fazia a primeira série do primeiro grau. Todos nós éramos vigiados pela foto oficial do Geisel. Para mim, com meus seis – quase sete – anos de idade, aquela figura ser o presidente do Brasil era algo natural e certo. Nem sabia que fazia parte de uma linhagem de militares golpistas. Fazia tanto sentido quanto hastear a Bandeira e cantar o Hino Nacional às quintas-feiras.

Depois disso, me lembro vagamente da nomeação do General Figueiredo. Percebi pela primeira vez que os Presidentes da República eram todos generais. Aos nove anos de idade, esse fato também me pareceu natural e certo.

Não sei quando comecei a entender que o Regime era ditatorial e ilegítimo. Mas na campanha das Diretas em 1984 já tinha consciência dos fatos e acompanhei os acontecimentos com interesse. Lembro com clareza da primeira decepção política: a derrota da Emenda Dante de Oliveira, no dia 25 de abril de 1984.

Continuei acompanhando o noticiário político com entusiasmo crescente. Comecei a entender melhor o significado da foto carrancuda do Geisel na minha sala de aula. Pude localizar as minhas lembranças de infância no quadro mais abrangente da história. Passei a ouvir as histórias do meu avô sobre a sua convivência e admiração por Arthur Bernardes não mais como histórias do MEU AVÔ, mas de um ex-empregado subordinado a um ex-presidente da república conservador, nacionalista e autoritário que tinha governado o país sob estado de sítio. O título deste blog tem a ver com isso: o exercício da “imaginação sociológica” nos permite identificar as conexões entre a nossa biografia pessoal e o contexto sócio-histórico que a envolve.

Há poucos dias, me surpreendi com alunos que não sabiam o que era a campanha das “Diretas-Já”. Alguns disseram nunca ter ouvido falar do assunto. Se de fato não ouviram ou se não registraram, não sei. Talvez a informação não lhes tenha parecido importante. Às vezes preciso me esforçar para não esquecer que tenho alunos que nasceram em 1992, quando eu estava sentado na “Praça 7” (Belo Horizonte) assistindo à votação do impeachment de Fernando Collor.

De qualquer forma, o ano de nascimento não explica ou, muito menos, justifica o desinteresse pela história. Talvez a explicação tenha a ver com diluição do passado num mundo com déficit de atenção, onde as informações têm que ser transmitidas em clipes de 30 segundos. O difícil é provocar interesse pela história quando interessante é sinônimo de acelerado.

Nós vamos invadir sua praia

Monday, March 30th, 2009

Daqui do morro dá pra ver tão legal
O que acontece aí no seu litoral
Nós gostamos de tudo, nós queremos é mais
Do alto da cidade até a beira do cais
Mais do que um bom bronzeado
Nós queremos estar do seu lado
Nós ‘tamo’ entrando sem óleo nem creme
Precisando a gente se espreme
Trazendo a farofa e a galinha
Levando também a vitrolinha
Separa um lugar nessa areia
Nós vamos chacoalhar a sua aldeia
(Nós vamos invadir sua praia – Roger Moreira)

Marcos Donizetti invadiu a praia (sem cerca) dos sociólogos com muita propriedade e fez uma interessante análise dos padrões brasileiros de distinção nas tão faladas “redes sociais” da internet. O atual antagonismo entre Twitter e Orkut mostra que as clivagens sociais há muito presentes nas terras tupiniquins sobrevivem e se reforçam até no ciberespaço.

Não perca tempo, vá ler o post do Donizetti!

Bonito por natureza (que beleza!)

Friday, March 27th, 2009

Voltando ao assunto do nacionalismo brasileiro, gostaria de indicar um artigo que pode render algumas boas reflexões: O motivo edênico no imaginário social brasileiro (do historiador José Murilo de Carvalho) [PDF AQUI].  A partir de uma pesquisa realizada pelo CPDOC em 1996 (que resultou em um livro publicado em 1997), Carvalho identifica a sobrevivência do “motivo edênico” no Brasil, 500 anos depois da carta de Caminha.

Para identificar o que se entende por motivo edênico, reproduzo a citação – feita por José Murilo – do livro de Rocha Pita (História da América Portuguesa, publicado em 1730), que seria a “primeira história do Brasil escrita por um brasileiro”:

Em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes; as estrelas são mais benignas e se mostram sempre alegres; os horizontes, ou nasça o sol, ou se sepulte, estão sempre claros; as águas, ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos aquedutos, são as mais puras; é enfim o Brasil Terreal Paraíso descoberto, onde têm nascimento e curso os maiores rios; domina salutífero clima; influem benignos astros e respiram auras suavíssimas, que o fazem fértil e povoado de inumeráveis habitadores.

Di Cavalcanti - Nu Deitado - Acredito ser esse o quadro citado por José Murilo de Carvalho.

Di Cavalcanti - Nu Deitado - Acredito ser esse o quadro citado por José Murilo de Carvalho.

Na pesquisa, os entrevistados foram perguntados sobre o orgulho de serem brasileiros. A maioria respondeu que sentia orgulho. Mas quando perguntados sobre o motivo do orgulho, muitos não sabiam responder. Dos que apresentaram algum motivo de orgulho, a maioria fez referência a alguma coisa relacionada à natureza (florestas, praias, ausência de terremotos, fertilidade do solo, clima tropical, etc.).

A avaliação do historiador para a sobrevivência do motivo edênico é a preocupante falta de percepção (pela ausência?) de instituições criadas pela sociedade que poderiam ser apontadas como motivo de orgulho para a população.

Da análise dos dados desagregados, é curiosa a constatação de que o edenismo é mais freqüente entre os mais jovens. Os mesmos que têm maior dificuldade de apontar conquistas políticas e institucionais como motivo de orgulho. De acordo com Carvalho, “a geração da redemocratização não parece ter vivido a mudança política como uma conquista nacional de que se pudesse orgulhar”. Nem mesmo o então recente impedimento de Collor é mencionado, nota o autor.

Na verificação dos dados controlados por escolaridade formal, constata-se que os entrevistados que concluíram apenas a 4ª série do antigo 1º grau têm muita dificuldade de apontar qualquer motivo para o orgulho de serem brasileiros (cerca de 50% dos que se encontravam nessa condição não souberam ou não quiseram responder sobre o motivo do orgulho). O surpreendende, de acordo com Carvalho, é o aumento da freqüência do motivo edênico entre os que têm mais anos de escola. Quanto mais estudo, mais freqüente é a referência à natureza como motivo do orgulho. Os que mais lêem jornais são também mais edenistas.

Após a sugestão e discussão de alguns “motivos tópicos” para  a sobrevivência do edenismo (educação durante o regime militar, revigoração do edenista Hino Nacional pela gravação de Fafá de Belém durante a campanha das Diretas, maior presença da natureza nas religiões mediúnicas), o autor sugere a existência de uma “razão satânica”  – mais duradoura por sua natureza histórica e cultural – relacionada à percepção da “inadequação do elemento humano habitante do país”. A razão satânica teria a ver com a falta de sentimento cívico da população. De acordo com os dados da pesquisa que sustenta o artigo, os brasileiros se vêem como um povo que é sofredor, trabalhador, porém alegre. Essa auto-percepção concorda com os dados de vários levantamentos que mostram a pequena disposição dos brasileiros para a associação e a ação política coletiva.

To make a long story short (o estrangeirismo é proposital), cito a conclusão do artigo: “Parece-me razoável concluir que tal auto-imagem contribui para a existência e a persistência do motivo edênico. Quem não se vê como um ser civil e cívico não se pode ver como agente, individual ou coletivo, de mudanças sociais e políticas de que se possa orgulhar e deve buscar alhures razões para a construção de uma identidade nacional”.

O mais irônico (sintomático?), como aponta José Murilo de Carvalho, é que a mesma natureza, que tanto nos orgulha, tem sido tem sido, desde sempre, solenemente devastada…

CONTRA O PROJETO AZEREDO

Tuesday, March 24th, 2009

Informe-se pelo blog do Sérgio Amadeu sobre o projeto que ameaça a internet no Brasil.

Assine a petição online contra o projeto do senador Azeredo.

Contra o projeto ineficaz do senador Azeredo.

Cartaz elaborado por Mario Amaya.

Siga o link!

Sunday, March 22nd, 2009

Hoje é o “Dia Mundial da Água“. A partir do blog Faça a sua parte você pode encontrar muitas informações sobre a tragédia-anunciada da escassez de água que não é um possível problema de um futuro incerto. É um problema presente e muito real para 1/3 da polulação da Terra. Uma das questões sérias é a apropriação privada da água por empresas que deixam as pessoas sem esse recurso indispensável. No Rajistão, Índia, as pessoas têm que disputar a água com a Coca-Cola que se apropria de 500 mil litros diários da água subterrânea local. Leia mais neste link.

Idelber Avelar compartilha seu texto para a Revista Fórum deste mês. Tortura, verdade e democracia estão muito mais próximos do que gostamos de pensar. Aproveitando o ensejo, para quem se interessar, um artigo do antropólogo Roberto Kant de Lima que aborda o problema da convivência de diferentes sistemas de produção da verdade no processo penal brasileiro. Particularmente grave é a produção da verdade no “inquérito policial”, conduzido pela Polícia Civil. A tortura é recurso freqüente e seu uso se dá de acordo com a classe social do “suspeito” (ou seria a suspeição predeterminada de que há uma verdade interna a ser trazida à luz pela tortura que se dá pela classe social do indivíduo?).

A discussão sobre o futuro do jornalismo, especialmente do tradicional jornalismo impresso, no mundo online é importante. Estaríamos, como diz o subtítulo do livro citado por Nicholas Kristof, vivendo em uma sociedade pós-factual? O tema está em pauta na blogosfera brasileira. A partir do post do Rafael Galvão é possível seguir os links do debate. Kristof faz referência à tendência do Daily Me, isto é, de cada leitor conectado à internet se tranformar em seu próprio editor de notícias, selecionando o que interessa de diversas fontes. O perigo, de acordo com o colunista, está no fato fartamente confirmado de que não procuramos a melhor informação, mas aquela que confirma nossas idéias e percepções preconcebidas. O resultado seria a sectarização e a conseqüente intolerância para com a opinião divergente. A solução apontada Kristof, que sempre me pareceu adequada – não só em relação ao noticiário – é cultivar o hábito intelectual de levar a sério e combater as idéias das quais mais discordamos. Nesse caso, é importante a adoção de uma postura de “honestidade intelectual” para reconhecer que uma idéia que nos desagradava incialmente acabou por vencer a “luta pela sobrevivência”. Estimular essa “seleção natural” das idéias me parece uma forma válida de evitarmos a tendência para o consenso que nos marca como animais sociais que gostamamos de nos perder no bando.

Marcha da Insensatez

Friday, March 20th, 2009

Papa rejeita preservativos como solução para Aids na África
(Via BBC Brasil)

Joseph Ratzinger (o coveiro da Igreja Católica) afirmou que a distribuição de preservativos não é a solução para para o controle do HIV na África. A solução está em um “despertar espiritual e humano”, disse o pontífice. Sua santidade vai ainda pregar aos jovens para ensiná-los que a AIDS deve ser combatida com abstinência sexual e fidelidade.Ratzinger

Concordo com quem diz que é besteira atacar os dogmas medievais católicos. Se querem viver numa fantasia insana, que vivam. Mas quando representantes da Igreja saem por aí afirmando publicamente absurdos como esses últimos do papa, estão agindo politicamente. Estão falando para todos, católicos ou não, e, mais grave, estão falando para os que são vulneráveis a essas palavras.

Penso que as pessoas que querem ouvir e seguir as regras do papa têm todo o direito de fazê-lo. Assim como os seguidores do bispo Macedo. Querem dar dinheiro para a Igreja Universal? Fiquem à vontade. Não condeno as igrejas que pedem dinheiro aos fiéis. Todo mundo tem direito de pedir. Quem quiser dar, que dê. Quem quiser praticar a abstinência sexual, que pratique. Quem quiser amarrar um cinto de pregos na cintura, que amarre. Acredito que todos devem ter garantido o direito de fazer qualquer coisa que tenham vontade, desde que essa coisa esteja circunscrita ao âmbito privado e não agrida outras pessoas.

A contaminação por HIV, no entanto, é um problema público. Suas conseqüências ultrapassam o âmbito privado. A conta do tratamento é paga pelo estado. O impacto do aumento do número de casos de AIDS se dá na esfera coletiva.

Aqueles que vivem no mundo real, onde as pessoas fazem sexo e são infiéis (e continuarão sendo infiéis e fazendo sexo, pois se o tal “despertar espiritual” não veio nas últimas dezenas de milhares de anos de existência da humanidade não será agora que virá), e não no universo paralelo criado pelos santos agostinhos da vida, precisam rebater esse discurso irresponsável de que doenças sexualmente transmissíveis se combatem com abstinência e fidelidade. As autoridades públicas, principalmente, não podem ignorar essa tarefa. O exemplo da França deve ser seguido.

PS cômico-trágico: Num semáforo em que passo todos os dias, um homem pede esmolas exibindo um cartaz onde informa que é portador do vírus da AIDS. Sempre penso em sugerir a ele que encontre outro problema para sensibilizar os possíveis doadores, já que a política brasileira de enfrentamento da AIDS é referência mundial.

Nacionalismo Banal

Tuesday, March 17th, 2009

Como mencionado em um post anterior, me chamou a atenção a notícia (via Sociological Images – Lisa Wade) do lançamento do livro “Banal Nationalism” de Michael Billig. O nacionalismo banal seria quase invisível e reproduzido pelas pessoas comuns em sua vida diária. Mais do que as celebrações oficiais e as paradas militares patrioticas, o nacionalismo banal – representado pela bandeira do país exposta no adesivo do carro ao lado, pela menção à nação no dinheiro, pelos nomes de programas de televisão, pelas seleções nacionais e eventos esportivos – seria o responsável pela manutenção do sentimento de pertencer a uma realidade que não é natural, mas abstrata e construída socialmente. Bandeira do Brasil

De acordo com Lisa Wade, os sociólogos criticam o nacionalismo por ele ser uma das causas da lealdade irracional  que tornaria as pessoas dispostas a matar e morrer pela nação.

Em seu argumento, Billig assevera que, embora pareça inofensivo à superfície, o nacionalismo banal pode ser mobilizado para se converter em nacionalismo exaltado. O nacionalismo banal não seria, portanto, um tipo brando de nacionalismo, mas o próprio fundamento dos tipos radicais e fanáticos que se fazem presentes nas guerras e conflitos mais violentos.

Não posso julgar o livro, pois não o li. O que me deixou curioso foi a possibilidade de pensar sobre a aplicação da idéia de nacionalismo banal à realidade brasileira. Desde que fiquei sabendo do lançamento do livro, tenho procurado por indícios desse fenômeno nos lugares onde passo. Não vi muitos. Vi uma bandeira do Brasil colada na traseira de um carro-forte. Abaixo da bandeira estava escrito: “AME-O!” A empresa deve ser propriedade de algum ex-militar saudoso da ditaDURA. Vi, na traseira de um carro de passeio, duas bandeiras pequenas – do Brasil e de Minas Gerais – estilizadas, algo que parece ter sido moda há algum tempo. Nas ruas não vi mais do que isso. Existem ainda os programas de tevê que trazem “Brasil” no nome e a TV Brasil.

Temos, é claro, o esporte, nem tanto os olímpicos, mas especialmente o futebol e a seleção brasileira. Todos sabem como o país se torna verde e amarelo durante a copa do mundo. Todos têm o desprazer de assistir às coberturas televisivas, especialmente da Globo e daquele locutor que prefiro não nomear, que elevam à nausea o ufanismo mais estúpido. No entanto, até mesmo esse ufanismo periódico está em decadência, cada vez mais artificial e forçado já que não se baseia em nada de minimamente verossímel. A seleção brasileira torna-se, cada vez mais, um grande mico de parreiras e zagalos.

Existe ainda a esquizofrenia das transmissões da Fórmula 1. O talvez mais globalizado dos negócios esportivos é convertido em epopéia nacional com direito a muitos “Brasiiiiiiil-il-il-il-il-il-il-il-il”… Mas o piloto brasileiro que motiva tantos gritos é apenas uma peça em um engrenagem que do Brasil não tem mais nada.

Enfim, no Brasil, o nacionalismo banal, de tão banal é quase inexistente.  Por que?

No livro “A Nova Sociedade Brasileira“, Bernardo Sorj afirma que há uma distância entre a “identidade de ser brasileiro” e os símbolos políticos ou cívicos do Estado. “O Estado brasileiro não teria chegado a construir uma cultura cívica e nacional devido ao abandono do principal intrumento ideológico do Estado: a escola.” Para Sorj, “se, por um lado, o desligamento entre a identidade coletiva de ser brasileiro e os símbolos políticos está associado à falta de instrução e à desigualdade social, por outro permitiu o desenvolvimento de uma cultura não xenófoba e uma vida política pouco permeável a discursos nacionalistas conservadores ou de intolerância”.

Considerando os argumentos de Sorj e sua menção à afirmação de Eric Hobsbawm de que na Europa a escola foi o principal instrumento de construção da ideologia nacional, surge uma dúvida sobre a tese de Michael Billig, que só poderá ser devidamente sanada com a leitura do livro. Na falta do livro, especulemos assim mesmo.

A questão é: de onde vem o nacionalismo banal? Não poderia nascer do nada. Não viria então de um esforço de construção de uma identidade nacional levado adiante pelo Estado por meio de seus intrumentos ideológicos? Nesse caso, cerimônias oficiais, paradas militares, hasteamento da bandeira e execução do hino nas escolas, todos esses rituais cívicos teriam grande importância, pelo menos incialmente. Se esquecidos posteriormente, se considerados de mau gosto em algum momento e substituídos pela versão “light” do nacionalismo banal, não deixariam de ser importantes como fundamentos e raízes sempre prontas a renascer. O nacionalismo banal poderia ser, então, não o próprio fundamento, mas o húmus que preserva em latência o nacionalismo exaltado.

No caso do Brasil, portanto, não seria a ausência do nacionalismo banal que nos faria mais xenófilos do que xenófobos. A falta de um empenho estatal, principalmente por meio da escola, para a construção de uma identidade nacional é que nos teria deixado privados do nacionalismo banal.  Sobra-nos assim o nacionalismo da decadente “pátria em chuteiras” que nos acomete de 4 em 4 anos.

(Des)confiança nas instituições

Saturday, March 14th, 2009

O projeto General Social Survey pesquisa as opiniões dos americanos sobre uma variedade de temas políticos e sociais desde 1972. Publicaram agora os dados preliminares referentes ao ano de 2008. O site Five Thirty Eight mostra um gráfico sobre a confiança nas instituições:

Porcentagem de "Muita Confiança" nas instituições listadas

Porcentagem de "Muita Confiança" nas instituições listadas

É notável a queda na confiança de quase todas as instituições. Em muitos casos, a queda é muito significativa. No caso da educação a confiança aumentou em relação ao ano de 2000, mas é menor do que no ano de 1976. A única instituição cuja confiança aumentou é a identificada como “os militares”. O citado site atribui esse aumento ao 11/09. Interessante o declínio na confiança nas religiões organizadas. Nate Silver sugere, sem afirmar, a possibilidade de que os escândalos de pedofilia eclesiástica tenham a ver com essa queda.

No Brasil

Não é possível fazer uma comparação precisa, mas como curiosidade vale dar uma olhada na confiança nas instituições aqui no Brasil. Os dados são do survey publicado no livro “A cabeça do brasileiro” (lançado em 2007 – dados coletados em 2002), de Antônio Carlos Almeida. Considero esse livro muito ruim. É um exemplo de como não fazer uma pesquisa. Em ciências sociais, já dizia o velho Max Weber, de nada valem os dados empíricos sem uma boa teoria que sustente a sua interpretação. O maior problema do “Cabeça do Brasileiro” é sua indigência teórica. O objetivo principal da pesquisa, “um teste quantitativo da antropologia de Roberto DaMatta”, não pode ser alcançado, pois nem mesmo a tal “antropologia de Roberto DaMatta” é apresentada com um mínimo de rigor teórico. Uma crítica importante da “antropologia de DaMatta é, por exemplo, completamente ignorada. De qualquer maneira, acredito que os dados sobre a “confiança nas instituições” (entre outros) não estão irremediavelmente comprometidos já que houve um cuidado técnico (apenas técnico e não teórico) na coleta.

Dados da pesquisa publicada no livro "A cabeça do brasileiro"

Dados da pesquisa publicada no livro A cabeça do brasileiro

Disparada na frente a Igreja Católica com 60% de confiança. Faltou o dado sobre outras igrejas, seria interessante a comparação. Os partidos políticos e o congresso estão na última e na penúltima colocações respectivamente. O que não é uma surpresa.  As demais instituições estão em situação parecida.

Das duas pesquisas, o que me parece positivo é o alto grau de desconfiança nas instituições em geral. Ainda que a Igreja Católica no Brasil tenha sido muito bem avaliada, é provável que D. Sobrinho esteja ajudando a diminuir o percentual de confiança.

Vejamos o caso da imprensa, por exemplo. Considerando o dado do ano 2000 (já que a pesquisa brasileira é de 2002), 90% dos americanos não confiam na imprensa. No Brasil, 72% dos entrevistados não confiam na imprensa. É muito bom que as pessoas não confiem na imprensa. Não que ela não seja importante. É muito importante. Mas não deve ser automaticamente acreditada. Ainda mais nos tempos de hoje, em que a liberdade de expressão não é mais um valor fundamental para boa parte da grande imprensa.

É engraçado que a divulgação desses dados pelos jornais seja, quase sempre, acompanhada de comentários moralistas que apontam uma suposta “crise de confiança”, como se a desconfiança fosse necessariamente ruim. Talvez os órgãos de imprensa estejam, implicitamente, lamentando o fato de já não gozarem de uma aprovação automática da parte dos consumidores de seus produtos.

Penso que em relação às instituições, a desconfiança seja melhor que a confiança. Os desconfiados correm menor risco de errar. Se um cidadão desconfiado chega à conclusão de que, em um caso específico, vale a pena confiar, provavelmente refletiu sobre o assunto. Aqueles predispostos à confiança são, também, provavelmente, indispostos à reflexão.

Marimbondos de Fogo

Friday, March 13th, 2009

Nova gestão? Velhas práticas? Sob nova direção? Hábitos antigos? Parece piada (de mau gosto) a matéria do Sistema Globo, que vi na Globonews agora. Desde quando José Sarney significa algo de novo? Sarney é a mais velha das coisas mais velhas que existem nesse Brasil velho. A matéria acusa. Precisa acusar Sarney? O que significa acusar Sarney? Parece que a idéia de que o telespectador padrão é o Homer Simpson vingou.

Veja aí um trecho do “Jornal das 10″. Não é a mesma edição que vi na tevê. Mas é interessante também porque, além do que acabei de ver, há um comentário “interessantíssimo”, como sempre, do – também obviamente bigodudo – Merval Pereira.

E ainda tem o Trigueiro. O que é o Trigueiro? Costumava pensar que o Bonner era um organismo geneticamente modificado em que experimentaram uma mistura genética de Cid Moreira com Sérgio Chapelin. E o Trigueiro? Deve ser um OGM resultante de uma mistura do OGM primário Bonner com os genes originais do Moreira e do Chapelin. O resultado é o que resulta.

“Aspas”

Thursday, March 12th, 2009

De acordo com o Aurélio, aspas são “sinais de pontuação com que se abre e fecha uma citação”.  Mas o Aurélio está desatualizado. Os tais “sinais de pontuação” se transformaram numa espécie de “quebra-galho universal” que resolve diversos problemas de comunicação. E não só na escrita, pois agora tempos também as aspas “gestuais”.  As aspas são usadas em um texto quando se sabe que a palavra escolhida não é a mais adequada, mas não há tempo ou disposição para encontrar outra. São usadas para introduzir um tom eufemístico numa palavra condenada pelo “politicamente correto”. São usadas para denotar ironia. São usadas para mostrar que uma informação não é tão exata, mas é “mais ou menos o que foi escrito ou dito”. E são usadas em situações completamente desnecessárias.

Aproveitando a explosão do uso indiscriminado de aspas, uns malucos criaram um blog muito divertido. the “blog” of “unnecessary” quotation marks.  Tem até uma contribuição brasileira:

Fonte: The "Blog" "Unnecessary" quotation marks.

Fonte: The "blog" "unnecessary" quotation marks.

Dá para perder um bom tempo vendo as “aspas” mais absurdas que alguém é capaz empregar.

Via The General Blog of Crime.

Dia Internacional da Mulher

Sunday, March 8th, 2009

O texto abaixo é a transcrição de um trecho da entrevista concedida a mim em 2006 por uma mulher presa em uma penitenciária da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Você quer saber a minha história? Minha história é triste, não vale nada. Mas você quer saber assim mesmo? Não sei nem por onde começar. Porque estou aqui? Do começo? Minha infância?

Ah… Minha infância foi mais ou menos. A gente não tinha fartura, mas não passava necessidade. Minha mãe era muito boa. Meu pai bebia. Brigava com a minha mãe. Vivia perdendo o emprego. Minha mãe é que segurava as pontas fazendo faxina. Aí meu pai saiu de casa atrás de uma mulher lá que virou a cabeça dele. Minha mãe ficou sozinha com nós todos. Quatro irmãos.

Eu ia à escola, gostava. Fui até a oitava série. Ah… Conheci um menino lá no bairro. Comecei a ficar com ele. Minha mãe tava chata demais nessa época, mandando a gente fazer isso, fazer aquilo, ir na igreja toda hora. Acho que ela pirou porque meu pai largou ela. Eu não tava agüentando. Fui morar com o Robson.

Comecei a cheirar pó. Crack? Eu fumei, mas não gostei da onda não. A gente fica neurada pra caralho. Com medo de todo mundo. Quando eu fumava gostava de ficar segurando o revólver. Tinha sim. Tinha revólver em casa porque o Robson vendia. Vendia de tudo. Bagulho, pó, pedra.

Ele? Tá preso ali na Dutra. Dois 121 [artigo referente ao homicídio] . Fora o 12 [artigo referente ao tráfico de drogas]. O 121? É que ele matou dois cara. Mas ele teve que matar, senão eles matavam ele. Antes de eu ser presa eu visitava ele. Agora a gente escreve carta. Quando ele sai? Ah… Ele pegou 12 anos de cada 121 e 4 no 12. Depois unificou e caiu pra 20. Com essa lei nova aí, como é que chama? Do crime hediondo, né? Já deve tá perto dele conseguir uma descida.

Eu? Então. O Robson foi preso. Aí fiquei sozinha na nossa casa. Sozinha não, né. Com meu filho. Tenho sim. Um menino de 3 anos. Tá com a minha avó agora. Ela cuida muito bem dele. Mas aí eu tinha que sustentar a casa e meu menino. Pra casa da minha mãe eu não voltava. Ah. Ela ia pegar no meu pé. Jogar na minha cara que eu era errada. Não dava pra voltar. Com a minha avó eu não queria morar, achava sacanagem. Ela já não tem saúde.
Aí o Robson me passou o canal dele e eu comecei a vender. Maconha, pó e pedra. Com o tanto que eu vendia dava uns 120 por semana. Pra mim e pro meu menino e pra pagar o barraco dava.

Eu visitava o Robson toda semana. Levava droga pra ele na cadeia. Pra ele usar e pra vender lá. Porque sem dinheiro lá dentro cê tá fundido. Como eu levava? Ah. Cê desculpa eu falar, mas é na vagina, né? Eu passava na revista, tirava a roupa, mas as agente não via.

Aí uns cara lá da cadeia viram que eu levava e me ofereceram. O que? De levar droga pro pessoal deles. Ele pagavam meu aluguel, minha despesa de supermercado e me davam 200 reais por visita. Aí comecei a levar droga em quase todas as cadeia de Belo Horizonte. Ganhava quatro mil por mês. Vendendo a droga? Continuei, uai. Era fácil. Eu já tinha o canal. Comprei roupa, pra mim e pro meu filho. Comprei coisas pra minha casa. Televisão, DVD, som. Dinheiro pra minha mãe? Não dei não. Ela não aceitava dinheiro do crime.

Um dia, lá na Nelson Hungria, eles me pegaram. Como? Na revista mesmo. Olha… Vou te falar uma coisa… A melhor revista de BH é a da Nelson Hungria, viu? A mulher me mandou tirar a roupa, deitou no chão e me mandou agachar na cara dela. Aí ela viu que eu tava levando. Como? A gente enrola no plástico, depois passa fita isolante e depois coloca dentro da camisinha e… Cê sabe, né? Era segunda-feira, sabe? No sábado e no domingo eu tinha bebido e cheirado demais. Acho que isso ajudou eles me pegar. Ah… Nem sei como. Mas acho que ajudou sim. Sei lá.

Quando a gente acabar de pagar nossa cadeia a gente que criar nosso filho. A gente não quer envolver com o crime mais não. Essa vida não compensa. Ah… Aprendi a fazer umas almofadas, umas costuras. A sociedade não quer a gente de volta não. Mas eu vou pagar o que eu devo e vou sair de cabeça erguida. Eu tenho fé de que a gente não vai precisar mexer com o crime mais não.

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De acordo com dados de 2007 da Senasp – Ministério da Justiça, o Brasil tem a 8ª maior população carcerária do mundo. Em 1995 tínhamos 95 presos para cada 100.000 habitantes. Em 2007 chegamos a 227 presos para cada 100.000 habitantes. Considerando os mandados de prisão expedidos e não cumpridos (cerca de 500.000), estaríamos disputando a 3ª colocação em população carcerária com Cuba.

A população carcerária feminina tem crescido significativamente nos últimos anos.

COMPARATIVO DE EVOLUÇÃO ENTRE A POPULAÇÃO CARCERÁRIA
MASCULINA E FEMININA 2003 a 2007

Fonte: Ministério da Justiça - Infopen

Fonte: Ministério da Justiça - Infopen

Segundo o artigo “A Femininidade Encarcerada” (p. 169-186) do Relatório “Direitos Humanos no Brasil – 2008” [texto completo em .pdf],

As mulheres presas no Brasil hoje são jovens, mães solteiras, afro-descendentes e, majoritariamente, condenadas por tráfico de drogas. Quando presas, são abandonadas pela família, sem garantia do direito à visita íntima e de permanecerem com os filhos nascidos no cárcere, o que demonstra a dupla (múltipla) punição da mulher, seja pelo sistema penal, seja pela sociedade. Em São Paulo, quase metade das mulheres, 49%, esperam mais de um ano para ir definitivamente para um presídio contra 36,9% dos homens. Não raro as mulheres optam por ficar presas em delegacias abarrotadas, para estarem mais próximas da família e dos filhos, o que demonstra a carência de políticas de construção de estabelecimentos prisionais adequados para a execução da pena na localidade onde moram – a maior parte das prisões femininas encontra-se nas capitais dos estados.

Durante o período em que freqüentei algumas penitenciárias e carceragens femininas, pude conhecer um pouco dessa situação. É verdade que a maioria foi condenada por tráfico. Mas esse “tráfico” não passa, muitas vezes, de venda de crack em troca de algumas pedras para consumo pessoal. Trata-se, evidentemente, de um problema de saúde e não criminal. Grande parte das mulheres presas seria atendida de forma muito mais apropriada em algum tipo de instituição social de apoio do que em cadeias.

Estupra, mas não aborta!

Friday, March 6th, 2009

Do site G1:

Arcebispo excomunga médicos e parentes de menina que fez aborto

O arcebispo de Olinda e Recife excomungou nesta quarta-feira (4) a mãe, os médicos e outros envolvidos no aborto sofrido por uma menina de 9 anos. Segundo a polícia, o padrastro confessou que abusava da garota. Ele seria o pai dos gêmeos que ela esperava.

Leia a notícia completa no G1.

Diante dessa decisão estapafúrdia, me lembrei do velho Malufão. Para os mais jovens que não sabem do que se trata e para os mais velhos recordarem, um trecho da propaganda eleitoral das eleições presidenciais de 1989.

Dom Sobrinho e dom Maluf, tudo a ver!

Cenas dos próximos capítulos

Thursday, March 5th, 2009

Há dois assuntos que pretendo explorar, mas nesta semana ainda não tive tempo suficiente. Inclusive, entre os compromissos, tenho um amanhã que talvez resulte em um terceiro post. Promessas…

Para o movimento aqui não ficar muito parado, deixo os links dos dois posts que me chamaram a atenção. Ambos do blog Sociological Images.

Um trata do livro recém-lançado “Banal Nationalism“. Penso que uma discussão sobre o “nacionalismo banal à brasileira” pode ser muito interessante. Link para o post.

Outro trata da informação de que o número pessoas cumprindo algum tipo de medida correcional (do encarceramento à liberdade condicional) nos Estados Unidos atingiu a proporção de 1 para 31. De cada 31 americanos adultos, 1 cumpre alguma medida de controle social (3,2% da população). O mais grave é que os dados desagregados por segmentos demográficos mostram que, de cada 11 adultos negros, 1 cumpre alguma medida correcional. Enquanto isso, na sala de justiça, de cada 45 adultos brancos, 1 está submetido a algum tipo de medida penal. Link para o post.

Aproveitando o ensejo, gostaria de dizer que vejo os blogs em geral e este em particular como espaços de discussão e debate. Meus posts serão sempre insuficientes e incompletos. Caso contrário, seriam ensaios ou artigos, que também seriam incompletos e insuficientes, mas teriam, pelo menos, a prentensão de aprofundamento. Não tenho a pretensão de aprofudar e, muito menos, de esgotar os assuntos nos posts. É para isso que existe a caixa de comentários: para que cada visitante deixe a sua contribuição, concordando ou discordando. Os posts não são mais do que pretextos para a conversa. Você, visitante, fique totalmente à vontade para discordar, acrescentar, corrigir. Eu mesmo discordo de mim quase o tempo todo.

Novo blog do Doni

Monday, March 2nd, 2009

Ou melhor, novo blog menos hedonista do Marcos Donizetti (clique no nome para visitar e visite, pois os textos estão muito bons).