Archive for April, 2009

Merval não tem cabimento

Thursday, April 30th, 2009

Ontem, voltando do trabalho, liguei o rádio na CBN e pude ouvir (melhor ouvir do que ser surdo, não é?) o medonho comentário do Merval Pereira, em conversa com o Sardenberg, sobre a canalhice do Jungmann.

Ouça a pérola.

Até o Sardenberg ficou constrangido. Quase engasgou. Jungmann diz na propaganda do PPS que “agora o governo vai mexer na poupança, como fez o governo Collor“. Essa afirmação é simplesmente mentirosa. Collor CONFISCOU os depósitos bancários dos brasileiros. NÃO EXISTE a menor possibilidade de o atual governo (ou de qualquer outro governo minimamente sério) repetir esse absurdo.

Mas para Merval essa afirmação tem “cabimento político”, é do jogo. Ou seja, se é para chutar o governo, vale até a mais deslavada mentira. Notem o prazer mal contido com que ele repete que o governo está “enlouquecido” com a fala de Jungmann.

Tamanha cara-de-pau não deixa de ser um talento (pelo menos um talento o Merval Pereira tem).

O mito da ordem

Tuesday, April 28th, 2009

[Escrevi o texto abaixo como uma espécie de comentário ao post "Papéis sexuais, violência e castração química", da Cynthia Semíramis. O assunto é um tanto complicado. Espero ter sido minimamente claro.

Se quiser (e tiver estômago para) ver e ouvir um exemplo perfeito da "construção social do mito da ordem" em operação, indico uma entrevista de Alexandre Garcia com dois especialistas em segurança pública.]
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No livro “The Culture of Public Problems: Drinking-Driving and the Symbolic Order”, em que trata da construção do problema público de “dirigir sob efeito de álcool” (e de sua conversão no problema do “killer-drunk”), Joseph Gusfield, revela como se constitui a ordem moral pública nas sociedades complexas. Ao logo do estudo, Gusfield privilegia os aspectos comunicacionais e simbólicos da lei, entendida como encarnação de significados culturais, em detrimento de seus aspectos utilitários, relacionados ao estabelecimento de objetivos definidos instrumentalmente, como a dissuasão, por exemplo.

De acordo com Gusfield, a doutrina utilitarista que considera a intencionalidade da ação como requisito essencial do comportamento legalmente responsável apresenta uma imagem do ator humano como um indivíduo racional, capaz de fazer previsões sobre cursos de ação e, portanto, responsável pelas conseqüências racionalmente previsíveis de suas escolhas. Esse indivíduo pode ser significativamente influenciado em sua ação pelo medo da punição. Para a citada doutrina, as pessoas devem agir (e na maior parte das vezes agiriam) de acordo com os padrões derivados do modelo de ser humano racional e utilitário. Seriam, assim, responsáveis pela ação intencionalmente pretendida e, especialmente, pelas suas conseqüências danosas, que seriam decorrentes de falhas ou desvios em relação à reprodução dos padrões tidos como desejáveis.

Os “padrões desejáveis” se fundamentam em concepções morais que designam o que é repreensível e o que é desejável. Definem o que seria o comportamento dos “homens de bem” e justificam a punição daqueles que se desviam desse ideal. Nesse contexto, as noções de falha e negligência sustentam um argumento moral que se volta contra o caráter do ator incapaz de reproduzir os padrões da conduta considerada correta. Resulta que, na justiça, julga-se muito mais o caráter moral do indivíduo acusado do que a natureza do seu ato e do prejuízo que ele pode ter causado à vítima.

Por esse ângulo, a lei se mostra como um produto cultural auto-referenciado, como uma forma de comunicação – a fala dos dominantes, por que não dizer? – e não apenas como um instrumento utilizado para obtenção de conformidade por meio da dissuasão. A comunicação realizada por meio dos atos e cerimônias legais conta uma história, elabora um mito que se refere à pretendida existência de uma ordem normativa estável reproduzida regularmente nas condutas racionais da maioria dos membros da sociedade.

A lei e o processo legal dão origem ao mito de uma sociedade composta por um agregado de pessoas engajadas em um conjunto de relações pré-ordenadas e previsíveis. Por meio da enunciação pública da lei, que se dá de acordo com a retórica da aplicação certa e uniforme, se constitui a representação de um mundo de paz e consenso onde a transgressão de princípios morais é necessariamente acompanhada de perigo e ranger de dentes. Somos apresentados, assim, a uma realidade em que a maior parte das ações individuais é guiada por diretrizes morais pretensamente compartilhadas. As ameaças à ordem, perpetradas pelos suspeitos de sempre, têm de ser severamente combatidas para que se preserve o idílio.

O mito da transgressão – ou melhor, de um transgressor recalcitrante cujo comportamento é o sintoma de sua própria incapacidade de seguir os padrões morais compartilhados – produz a metáfora através da qual os “homens de bem” podem reconhecer o seu ambiente – apesar dos indícios contrários – como ordenado e previsível. A condenação regular de transgressores criteriosamente selecionados – que não deixam de ser “bodes expiatórios” – configura-se como um ritual em que a ficção de uma mundo social ordenado e convencional é persistentemente restabelecida como uma visão pública e compartilhada sobre o que é real.

Citando Durkheim, Gusfield afirma que a anomalia do crime (ou do desvio) ameaça a presunção de unanimidade indispensável para que normas tenham autoridade moral. A punição, ao caracterizar e anunciar o transgressor como a exceção que contraria os padrões consensualmente aceitos e reproduzidos pelos “cidadãos de bem”, restaura a autoridade das normas.

O mito da ordem social, ou do consenso moral, persiste por causa da “ignorância pluralística”, mais intensa nas sociedades complexas, que convivem com a diversidade/conflito cultural e com a segmentação dos grupos sociais. A “ignorância pluralística” faz com que cada indivíduo impute aos outros uma conduta virtuosa que ele mesmo não pratica com tanta convicção. Cada um, ignorante dos demais, acredita em um consenso moral muito maior do que aquele que realmente existe. A ignorância permite a fixação de um senso de ordem comum muito mais intenso do que do que a ordem realmente existente. Aquilo que as pessoas elaboram como sendo “o modo virtuoso como os outros pensam e agem” conduz ao reconhecimento da sociedade como um lugar de paz e harmonia (desde que os suspeitos de sempre sejam bem vigiados e, se preciso, exemplarmente punidos).

A dramatização pública da lei estabelece as expectativas e percepções do que é normal e aplaudido e do que é desviante e condenado, estabelece, enfim, o que é admitido publicamente. O comportamento desempenhado publicamente, por seu turno, põe em evidência as próprias bases da ordem moral comum (ainda que esta não seja, de fato, a ordem governante das relações interpessoais rotineiras). A conduta pública reproduz e reafirma a ficção legal. Ignorantes das transgressões uns dos outros, enganam-se todos reciprocamente e o mito da prevalência dos padrões consensuais se torna convincente.

Afirmando e reafirmando o modelo abstrato da transgressão em termos simultaneamente cognitivos e morais, o aparato da enunciação legal reforça a crença no mito da ordem moral pública. O mito transfigura-se, para a sua audiência, no “fato” objetivo da ordem social. Os rituais da lei promovem a impressão de que o entendimento da transgressão como falha moral não só é compartilhado por todos, mas é real. A declaração da lei na arena pública reforça as próprias pressuposições legais sobre aquilo que é reconhecido como a ordem social compartilhada. Dessa forma, a lei cria a nossa imagem da sociedade habitada pelos “cidadãos de bem”.

Propaganda enganada

Friday, April 24th, 2009

Não sei se é propaganda enganosa ou apenas propaganda enganada. Nem sei o que é pior: manipulação ou ignorância. O fato é que recebi recentemente um email das Lojas Americanas oferecendo uma “edição comemorativa” do livro 1984, de George Orwell. No texto, vinha a informação de que se tratava do livro que inspirou o programa televisivo “Big Brother”.

Bom, diria que inspirou o título do programa. Além do título, mais do que um programa inspirado no livro 1984, o programa do Bial é um exemplo de como a sociedade do “Grande Irmão” pode se estabelecer de uma forma mais sutil do que supunha Orwell. Nesse programa, ironicamente chamado de reality show, o que menos comparece é a realidade “como ela é”. Ainda mais no Brasil, em que as edições já se acumulam, o que mais se vê é a reprodução de uma realidade propriamente televisiva que se define pelos padrões criados pela teledramaturgia.

Se não bastassem os recursos de edição nas mãos dos produtores, os próprios participantes do “show” se inspiram nos personagens bem sucedidos das edições anteriores. O progama se transformou numa máquina auto-reprodutora. A realidade apresentada no Big Brother Brasil é o próprio Big Brother Brasil. Essa confusão entre ficção teledramatúrgica e realidade me parece muito mais a confirmação de uma (doce) alienação orwelliana do que a sua denúncia.

Quando os indivíduos já não sabem distinguir entre quem eles são de fato, como integrantes posicionados numa estrutura social concreta/determinada, e os personagens que podem representar (com conseqüências reais e não apenas imaginadas) nas interações sociais de que participam, a compreensão da realidade sócio-política que os rodeia está comprometida. Comprometida está também a possibilidade de agirem como atores sócio-políticos autônomos e conscientes dos constrangimentos sociais que precisam enfrentar.

O sucesso do BBB do Bial não estaria relacionado ao fato de que vivemos em uma sociedade acostumada a acreditar que a mobilidade social é fruto natural do resultado da mega-sena acumulada? Posso sonhar em ser o personagem que eu quiser, contra todas as evidências empíricas, pois estão ao meu lado os prêmios das várias loterias estatais, a possibilidade de entrar no BBB 10 por meio da revista do Faustão, o talento para o futebol de um familiar ou o sucesso inesperado no último modismo musical popular.

Numa “Morelliana” do “Jogo da Amarelinha“, Julio Cortázar escreve: “O reino será de matéria plástica, não resta dúvida. E não é que o mundo vá se converter num pesadelo orwelliano ou huxleiano; será muito pior, será um mundo delicioso, à medida dos seus habitantes, sem nenhum mosquito, sem nenhum analfabeto, com galinhas enormes e, provavelmente, dezoito patas, saborosíssimas todas elas, com banheiros telecomandados, água de cores diferentes, segundo o dia da semana, uma delicada atenção do serviço nacional de higiene,”

“com televisão em todos os quartos, por exemplo grandes paisagens tropicais para os habitantes de Reykjavik, vistas de iglus para a gente de Havana, compensações sutis que conformarão todas as rebeldias”,

“etcétera.”

[...]

“Whishiful thinking, talvez; mas essa é outra definição possível do bípede implume”.

Enfim, é certo que o programa televisivo “Big Brother” não se inspirou, além do título, no livro de Orwell. Mas o mundo em que esse programa faz sucesso pode ser um mundo orwelliano pior do aquele imaginado pelo próprio autor de “1984″. Não é preciso reprimir as manifestações individuais. O “indivíduo” de hoje não seria uma mera imagem teledramatúrgica, ou cinematográfica para os mais afortunados? O indivíduo ainda existe?

Literatura e Fotografia: Juan Rulfo

Sunday, April 19th, 2009

O mexicano Juan Rulfo (1917 – 1986) é mais conhecido como um dos maiores escritores latino-americanos. Mas foi também um grande fotógrafo. Em suas fotografias, Rulfo revela a mesma apreensão da realidade que caracteriza a sua literatura de poucas, porém valiosas, páginas.

Para Carlos Fuentes, “las fotografías de Juan Rulfo [...] parecieran atestiguar a primera vista, por más que retraten desiertos, pedregales y muros desnudos, una maravillosa transparencia líquida, como si fuesen retratos de agua. Es como si Rulfo se asomase fuera de las tumbas de Comala para descubrir la luminosidad de las sombras“.

Fotografia de Juan Rulfo

Fotografia de Juan Rulfo

Há a luz dura e transparente do sol, que deixa tudo quieto, como se “tudo estivesse à espera de alguma coisa“. Há também, conforme Fuentes, o fogo sombrio que vem das brasas da terra. Comala (a cidade de Pedro Páramo) fica bem na boca do inferno. O lugar é tão quente que “muitos dos que morrem por lá, quando chegam ao inferno voltam para buscar um cobertor“. Existe sempre alguma coisa oculta por trás da primeira aparência. A luminosidade mais clara  e esperançosa denuncia as sombras que podem capturar a felicidade dos moradores, que continuam andando por Comala, mesmo depois de mortos. Só há vida no mundo dos vivos, mesmo para os mortos, condenados às suas sepulturas.

Há “uma terra em que tudo se dá, graças à providência, mas tudo se dá com acidez“. Há um povo prisioneiro dos próprios sonhos que se revelam promessas incumpridas. As ilusões são perigosas. E o que seria a ilusão senão uma apreensão limitada da realidade? Somente luz ou somente sombra, quando a sombra nasce da luz e a luz pode ser sombria?

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Fotografia de Juan Rulfo

– Ilusão? Isso custa caro. A mim custou viver mais do que o devido. Paguei com isso a dívida de encontrar meu filho, que não foi, por assim dizer, nada além de uma ilusão a mais; porque nunca tive filho algum. Agora que estou morta me deu tempo para pensar e ficar sabendo de tudo. Nem mesmo o ninho para guardá-lo Deus me deu. Só esta longa vida arrastada que tive, levando daqui para lá meus olhos tristes que sempre olharam de viés, como buscando atrás das pessoas, suspeitando que alguém tivesse me escondido o meu menino. E tudo por culpa do maldido sonho. Tive dois: um deles eu chamo de ‘bendito’ e o outro de ‘maldito’. O primeiro foi o que me fez sonhar que tinha tido um filho. E, enquanto vivi, nunca deixei de acreditar que fosse verdade; porque o senti entre meus braços, novinho, terno, cheio de boca e de olhos e de mãos; durante muito tempo conservei em meus dedos a impressão de seus olhos adormecidos e o palpitar de seu coração. Como não ia pensar que aquilo fosse verdade? Eu o levava comigo aonde quer que fosse, envolto no meu xale, e de repente o perdi. No céu me disseram que tinham se enganado comigo. Que tinham me dado um coração de mãe, mas um seio de uma qualquer. Esse foi o outro sonho que tive. Cheguei ao céu e fui ver se entre os anjos reconhecia a cara de meu filho. E nada. Todas as caras eram iguais, feitas com a mesma fôrma. então perguntei. Um daqueles santos se aproximou de mim e, sem me dizer nada, afundou uma das mãos em meu estômago, como se a tivesse afundado num montão de cera. Ao tirá-la, mostrou algo assim como uma casca de noz: ‘Isto prova o que demonstra’.

Você sabe como eles falam esquisito lá em cima; mas dá para entender.  Quis dizer a eles que aquilo era só o meu estômago enrugado pelas fomes e pelo pouco que comi; mas outro daqueles santos me empurrou pelos ombros em mostrou a porta de saída: ‘Vai descançar um pouco mais na terra, filha, e procure ser boa para que seu purgatório não seja tão longo’.

Esse foi o sonho maldito que tive e do qual tirei a explicação de que nunca havia tido nenhum filho. Soube quando já era demasiado tarde, quando meu corpo tinha se desmedrado, quando a espinha saltou por cima da minha cabeça, quando já não podia caminhar. E de arremate, o povoado foi ficando sozinho; todos tomaram caminho para outros rumos e com eles foi-se embora também a caridade da qual eu vivia. Então me sentei para esperar a morte. Depois que encontramos você, meus ossos se revolveram e ficaram quietos. Ninguém me dará importância, pensei. Sou uma coisa que não estorva ninguém. Você vê, nem mesmo roubei espaço aqui na terra. Fui enterrada na sua própria sepultura e coube muito bem no oco dos seus braços. Aqui neste canto, onde você me vê agora. Só me ocorre que deveria ser eu que estivesse abraçando você. Está me ouvindo? Lá fora está chovendo. Você não sente o bater da chuva?

– Sinto como se alguém caminhasse em cima de nós.

– Deixe de ter medo. Ninguém mais pode botar medo em você. Faça por pensar em coisas agradáveis porque vamos estar muito tempo enterrados.

–> Trecho de “Pedro Páramo”. Edição da “Record”. Tradução de Eric Nepomuceno.

–> Post parcialmente inspirado pelo texto de Carlos Fuentes.

Cassação de Jackson Lago

Saturday, April 18th, 2009

Para não ficar apenas com a (DES)informação da grande mídia e dos blogueiros medalhões, leia no Biscoito Fino e a Massa o post sobre a cassação/golpe contra Jackson Lago, o adversário do coronel Sarney.

Xô, Sarney!

Xô, Sarney!

“Depois de quarenta anos de controle absoluto sobre o Palácio dos Leões, a oligarquia Sarney foi derrotada em eleições livres para o governo do Maranhão em outubro de 2006. Jackson Lago (PDT) recebeu 1.393.754 votos no segundo turno e venceu Roseana Sarney (PFL) com quase 100.000 votos de diferença. Ontem, aconteceu o desfecho esperado, que acelera a desmoralização dos tribunais superiores no Brasil. O TSE aceitou a representação da coligação da família dona do estado. Jackson Lago foi cassado por “abuso de poder econômico” durante a eleição. É quase uma piada pronta: um adversário de Sarney ser cassado no Maranhão por abuso de poder econômico”.

CLIQUE AQUI PARA LER O POST COMPLETO.

Lula, o crédito e o velho barbudo

Thursday, April 16th, 2009

Não faço parte da turma que gosta de repetir as críticas fáceis ao Lula e ao seu governo. Mas considero as ações e as falas presidenciais referentes ao crédito muito negativas. Penso que o crédito consignado para idosos foi uma das piores realizações da atual administração nacional. O incentivo à tomada de empréstimos para o consumo, principalmente no caso de um consumo tão fugaz como uma viagem à praia, é uma irresponsabilidade.

Karl Marx (1818 - 1883)

Karl Marx (1818 - 1883)

Agora, diante da crise econômica mundial, o presidente Lula tem falado insistentemente que é preciso restaurar o crédito para sustentar o consumo. Para Lula, é o crédito que vai fazer as pessoas voltarem a comprar.

E por que as pessoas não podem parar de comprar? Porque, como já dizia o velho e redivivo barbudo alemão, o feitiço capitalista só funciona com base no consumo desenfreado. Se os trabalhadores não recebem o suficiente para atender às elevadíssimas necessidades de consumo da máquina capitalista, que façam os seus empréstimos, pagáveis em dezenas de impagáveis prestações mensais.

Problema adiado é problema resolvido, pelo menos num mundo onde só existe o tempo presente.

A questão: É apropriado receitar como principal remédio para a crise o exato veneno que a produziu, ou seja, o crédito duvidoso? Acredito que não. No final da contas, o velho alemão barbudo parece estar, pelo menos parcialmente, certo. O capitalismo moderno é um feitiço que saiu do controle do feiticeiro. Apesar de de ser essencialmente contraditório, o sistema vai se reproduzir até que se realize a sua própria ruína. Infelizmente, não podemos concordar com a conclusão iluminista marxiana de que o futuro será melhor que o passado. O que nos reservaria, então, o futuro?

Feriado, ausência e retorno

Tuesday, April 14th, 2009

O retorno do feriado é, como sempre, marcado pelas notícias sobre as estatísticas de acidentes de trânsito, quilometragens de engarrafamentos e transtornos nas rodoviárias. Alguns criticam o fato de que a imprensa sempre repete o mesmo noticiário nas mesmas datas. Mas a falta de criatividade dos jornais não seria correspondente à falta de criatividade das pessoas, que se comportam de uma forma insistentemente regular?

Bom, minha estatística de retorno do feriado se resume a um número. Dez dias sem postar. Meu feriado foi de trabalho. Correção de provas e exercícios. A internet ficou em segundo plano. Poucos dias de menor freqüência à internet tiveram como efeito mais notável a multiplicação de itens não lidos no Google Reader. Não vou escrever sobre a quantidade cada vez maior de informações que recebemos em intervalos de tempo cada vez menores porque seria chover no molhado. Vai longe o tempo em que um jornal impresso diário durava um dia inteiro. Antigamente, quando ainda assinava jornais, costuma chegar em casa no final da noite e levar o jornal do dia para ler na cama, antes de dormir. Não tenho mais esse hábito. Evito receber papel natimorto em casa há um bom tempo. Melhor seria levar o notebook ou o celular, mas não levo nenhum dos dois e tenho dormido desatualizado.

Hoje pela manhã, quando passava as folhas de um jornal impresso que circula em Minas Gerais, pensei na validade cada vez mais limitada das informações nos dias atuais. Folheava o “caderno de informática” e me surpreendi com a sobrevivência da velha e boa coluna de perguntas e respostas sobre problemas com computadores. Alguém perguntava: “Instalei o programa “x” e a minha máquina enlouqueceu, travou tudo, etc, etc.” O técnico dava uma resposta qualquer.

Quem, nessas alturas do campeonato, insiste em resolver dúvidas de informática por meio de cartas (emails, na verdade) para um jornal? O caderno de informática é semanal. Caso o freguês tenha sorte de ver a sua pergunta respondida, vai esperar vários dias. Considerando que a consulta tenha sido feita por email, o que explica a decisão de mandar uma mensagem, que talvez nem seja respondida, em vez de digitar a dúvida no Google? Será que alguma daquelas perguntas foi enviada por meio de uma obsoleta carta de papel, escrita com caneta esferográfica e com um selo postal colado com cuspe? Duvido.

Enfim, volto do feriado de trabalho com essa pergunta um tanto ociosa: quem são esse usuários de computadores que perguntam ao colunista do jornal porque o Windows deu mais um pau e ficam uma semana esperando pela resposta?

Quando o ator é vítima do personagem

Saturday, April 4th, 2009

Nas últimas eleições municipais, Belo Horizonte viveu uma situação inusitada. Havia um candidato duplamente chapa branca cujos apoiadores (Fernando Pimentel e Aécio Neves) acreditavam que ganharia no primeiro turno com 80% dos votos. Os eleitores belorizontinos demonstraram uma insuspeitada maturidade e não engoliram a “indicação”. Exigiram o segundo turno para decidir com maior independência.

No segundo turno, um candidato azarão de campanha errática – Leonardo Quintão – despontou na frente e levou o pânico ao QG do constructo eleitoral pimentécio. Arrisco afirmar que o Quintão perdeu para si próprio (e para os genes paternos). Seu personagem matuto teve vida curta quando precisou lidar com os infinitos 15 minutos do horário eleitoral gratuito do segundo turno. A ausência de substância da candidatura foi notada até mesmo por aqueles que se entusiasmaram com os bordões do primeiro turno. Quintão reproduziu a situação típica em que o excesso de esperteza se volta contra o esperto.

Algumas pessoas disseram que a última campanha para a prefeitura de Belo Horizonte representou mais uma decepção política, pois no segundo turno restou aos eleitores a escolha entre o ruim e o menos pior. Discordo. Há muito tempo não tínhamos uma campanha com tamanho envolvimento dos eleitores. O pleito foi discutido em todos os lugares, o tempo todo. Muita gente se posicionou como nunca. Eu mesmo tinha saído pela última vez às ruas para panfletar e fazer boca-de-urna em 1992, quando Patrus Ananias foi eleito. Em 2008 não fui às ruas, mas, estando desblogado, usei o velho e bom email para espamear o meu apoio ao menos pior Márcio Lacerda.

Na panfletagem eletrônica que tomou conta da internet belorizontina, uma imitação dos trejeitos do Leonardo Quintão, feita por Tom Cavalcante, ganhou destaque:

Tom Cavalcante não inventou nada. Usou os cacoetes que já eram piada na cidade inteira para ridicularizar o adversário do seu amigo Aécio Neves (os representantes de Quintão afirmam que o comediante recebeu 500 mil reais para fazer o vídeo). O caráter fictício do matuto apresentado por Quintão já era comentado por muita gente. Pessoas que tinham conhecido o Quintão em outras circunstâncias garantiam que ele não tinha o sotaque caipira carregado que empregou na campanha. Parece que o filho do Sebastião não atentou para uma lição sociológica elementar: não se deve, na apresentação social de um personagem, deixar que diferentes platéias se misturem. No final das contas, o azarão, que chegou a achar que ia ganhar, perdeu por causa da própria incompetência (e de seus marqueteiros, que, tudo indica, se deixaram contaminar pelo sucesso fácil do início da campanha).

Agora aparece a notícia de que Leonardo Quintão está processando Tom Cavalcante. O derrotado alega que o vídeo o prejudicou. Mas se a sátira não inventou nada, se usou apenas os bordões repetidos à exaustão por Quintão durante a campanha, quem prejudicou quem? Não sei, obviamente, o que a justiça vai decidir. No entanto, caso fosse eu o juiz, diria ao azarão que ele deveria processar o personagem por ele mesmo inventado.

Sexo impessoal em locais públicos

Friday, April 3rd, 2009

O texto a seguir foi escrito em 2004 para o meu antigo blog (como disse o Rafael, na pré-história da blogosfera). Republicado com pequenas alterações.

Alguns minutos depois das cinco horas da tarde de um dia de semana, quatro homens entram em um banheiro público, no Parque da Cidade. [...] O que levou esses homens a largar a companhia de tantos outros que a essa hora se dirigem para casa ao longo das estradas? Que interesse comum traz esses homens, com experiências de vida tão diferentes, a essa instalação pública? Eles não vieram pelas razões óbvias, mas sim em busca de sexo imediato. Muitos homens – casados ou solteiros, que se identificam como heterossexuais ou que apresentam uma auto-imagem homossexual – procuram pelo sexo impessoal e sem envolvimento que proporciona excitação sem compromisso. (…) O fenômeno do sexo impessoal permanece como uma forma comum, mas raramente estudada de interação humana.

O sociólogo americano Laud Humphreys (1930 – 1988) pesquisou o tema em sua tese de doutorado de 1968. Derivado da tese, o livro (de onde saiu o trecho transcrito acima) “Tearoom Trade: Impersonal Sex in Public Places“, foi publicado em 1970. As estratégias adotadas durante a investigação provocaram muitas discussões relacionadas à “ética na pesquisa”. [Outras informações]

Esse estudo, além do interesse natural por um assunto pouco conhecido, guarda um aspecto muito curioso. Como seria possível fazer uma pesquisa cujo campo é constituído por banheiros públicos onde vários homens têm encontros sexuais rápidos e anônimos? Se o pesquisador não pretende fazer parte das interações que se desenrolam nesses ambientes, a resposta é bastante difícil. E era exatamente esta a situação de Humphreys.

Uma das alternativas seria entrar no banheiro como se fosse fazer o uso convencional das instalações. O problema, nesse caso, é que o tempo do uso normal seria muito curto para fazer as observações necessárias. Se as visitas se multiplicassem, acabariam provocando suspeitas sobre as intenções do pesquisador, que poderia ser confundido com um policial. Outra alternativa seria simular a espera por alguém que ainda não havia chegado ou pela oportunidade de participar da “ação”. Mas, à medida que a espera se prolongasse, o pesquisador acabaria sendo convidado por alguém a interagir. A observação teria que ser interrompida. Uma terceira opção seria assumir o papel de masturbador, pois entre os freqüentadores havia aqueles que se satisfaziam dessa maneira enquanto observavam as atividades dos outros. Humphreys não se interessou.

Após algumas tentativas, o pesquisador encontrou a maneira ideal para passar mais tempo dentro dos banheiros sem ser incomodado. Descobriu que havia um papel social institucionalizado que era desempenhado por aqueles que apenas olhavam. Era o papel dos chamados voyeurs (watchqueen, na gíria interna). Os freqüentadores gostavam de sua presença porque eles avisavam quando a polícia estava chegando. Para um sociólogo, não podia ser melhor. A pesquisa tornou-se viável. Bastava ao pesquisador ocupar a posição que o grupo já havia moldado.

Humphreys observou e registrou detalhadamente 53 atos sexuais, principalmente felações. Nos dias mais movimentados, um homem chegava a fazer sexo oral com três parceiros em meia hora. Posteriormente, após ter conquistado a confiança dos freqüentadores com o seu papel de watchqueen, expôs sua condição de pesquisador e os objetivos de sua pesquisa a alguns homens, que se tornaram seus informantes.

Um ano após as observações nos banheiros, entrevistou 50 freqüentadores em suas próprias casas, ao lado de suas esposas, quando eram casados. Para conseguir essas entrevistas, anotou as placas dos carros estacionados nas proximidades dos banheiros e descobriu o endereço dos proprietários (contou com a ajuda de um amigo no departamento de trânsito). Para não prejudicar os entrevistados, foi até eles como se estivesse fazendo uma pesquisa sobre as condições sanitárias das moradias. O objetivo destas entrevistas era desenhar um perfil dos freqüentadores quanto à dimensão convencional de suas vidas. Não havia, obviamente, nenhuma pergunta sobre os banheiros.

O interesse propriamente sociológico do estudo reside na tentativa de compreender e descrever um tipo específico de interação social – o sexo impessoal – em uma sociedade onde essa prática é moralmente condenada. Uma relação sexual é uma ação coletiva que reúne, pelo menos, dois indivíduos. A maior parte das pessoas acredita que o sexo deve envolver algum relacionamento pessoal, alguma reciprocidade de sentimentos ou, até mesmo, o amor romântico. Nos banheiros públicos acontecia exatamente o oposto. Os freqüentadores buscavam satisfação imediata com o mínimo de custos, fossem eles materiais ou psicológicos.

Uma das principais regras descobertas por Humphreys nos banheiros públicos era a do silêncio. Como se tratava de um comportamento evidentemente “desviante” era preciso marcar a sua diferença em relação ao sexo convencional. Afinal de contas, todos que iam aos banheiros queriam impessoalidade e anonimato. E, como sabemos, quem muito fala, muito revela. As interações sempre aconteciam sem a troca de palavras. Outra regra importante era a de que somente aqueles que demonstrassem claramente sua intenção de participar deveriam ser abordados. Essas duas regras combinadas levavam os participantes a se entenderem por meio de sinais e gestos convencionados.

De um modo geral, os homens interessados em algum tipo de atividade sexual se colocavam a uma distância do mictório que deixava o órgão sexual à mostra. Os “ativos”, quando percebiam a presença de alguém “interessante”, manipulavam o pênis até que ficasse ereto. Os “passivos” interessados se tocavam e olhavam fixamente para o membro rijo do parceiro, encarando algumas vezes seus olhos. Estava estabelecida a comunicação.

A falta de envolvimento, a impessoalidade e o anonimato permitiam que homens com as mais diferentes características – raciais, sociais, educacionais e físicas – se encontrassem naqueles lugares conhecidos pelos freqüentadores como “salas de chá” (tearooms). Nestas circunstâncias, em que o envolvimento emocional não faz parte das regras do jogo, as preferências pessoais seriam menos restritivas.

Fica a pergunta: no sexo convencional essas “preferências pessoais” não seriam usadas, algumas vezes pelo menos, como uma estratégia (ainda que não-consciente) para reproduzir as condições moralmente requeridas para um relacionamento sexual considerado apropriado ou correto?

A polêmica

Deve-se principalmente às visitas às residências dos freqüentadores, feitas posteriormente, a enorme polêmica que se desenrolou após a publicação do livro. Até hoje, a pesquisa de Humphreys é tema de estudo nos cursos de ética em pesquisa. Se a observação nos banheiros é controvertida, a visita às casas dos freqüentadores é ainda mais complicada. Em ambos os casos ocorre invasão de privacidade e dissimulação de intenções. As pessoas foram enganadas. Há informações de que algumas das pessoas entrevistadas em casa acabaram se reconhecendo ou foram reconhecidas após a publicação do livro. O fato é que nos dias de hoje uma pesquisa como essa não seria aprovada pelos comitês de ética.

Esse é um dos tantos dramas da sociologia. O que há de mais interessante para ser estudado e conhecido é o que, de uma forma ou de outra, mais se esconde. Se os sociólogos pesquisadores puderem trabalhar apenas com dados oficiais e com as informações autorizadas pelas pessoas, muito pouco poderá ser desvendado sobre as características mais profundas das interações, dos grupos e das sociedades humanas. Não há uma saída fácil. Mesmo considerando válidos os princípios da privacidade e da observação consentida, há, por outro lado, a ética do saber, do conhecimento. Precisamos colocar em questão os nossos “tabus”. Discutir sobre quais são as dimensões sagradas e, portanto, invioláveis das nossas vidas e das sociedades a que pertencemos. A questão é: o sociólogo só pode entrar aonde é convidado?