Gripe

May 26th, 2009

Vim aqui apenas para justificar a infreqüência e, pricipalmente, a falta de resposta aos últimos comentários. Peguei uma gripe na sexta-feira. Senti o exato momento em que os sintomas começaram a se manifestar. À noite tomei um remédio vendido-sob-prescrição-médica-sem-prescrição-médica e passei o sábado inteiro meio acordado, meio dormindo. No domingo me ocupei de descansar de um sábado sonolento. Aproveitei para ler mais de 1/3 do “Armas, Germes e Aço” do Jared Diamond. Por coincidência, assim que comprei o livro, descobri uma trilha de links para uma polêmica entre antropólogos e o Diamond. E leituras que levam a leituras são sempre melhores do que leituras que não levam a nada.

Antes de escrever essas besteiras aqui, como não poderia deixar de ser, dei uma googlada. Descobri que não tive/tenho gripe, mas um reles resfriado. O fato é que o remédio me derrubou mais do que a suposta gripe. Afinal, como mostra o Diamond, não é um virus amigo qualquer que derruba um descendente de eurasianos. Mas estava mesmo precisando compensar o déficit semanal de sono.

Gripe no google é a suína. De todas as informações, as mais curiosas que vi desde o início dessa seqüência de notícias (que será, em breve, substituída por outra) são as que falam do “autocontágio“.  Isso prova que os humanos são meio doidos. Se em situações não muito graves aparecem idéias “interessantes”, imagine o que aconteceria numa verdadeira catástrofe mundial. Imagine uma pandemia definitivamente mortal. Não é, evidentemente, algo bom de se imaginar. Mas o que fariam diante do fim iminente – e ignorante das hierarquias de classe – os humanos atuais, especialmente aqueles mais seguros de sua identidade e de seu destino, supostamente garantidos por seu patrimônio material? Uma pista do que são capazes os “bípedes implumes” pode ser encontrada no “História do medo no ocidente“, de Jean Delumeau. No século XIV, o problema era a peste, sem dúvida pior que a nossa gripe do porco. Algo semelhante à peste na aldeia global? A sensatez não seria a regra.

Terminando: para informações sobre a gripe suína em português visite o Science Blogs Brasil. Clique aqui para ir diretamente aos links do portal.

Distribuição do conhecimento

May 22nd, 2009

Estava caminhando até o estacionamento, voltando para casa depois do trabalho, e vi/ouvi um rapaz explicando para umas moças, todos esperando o ônibus, a psicanálise. Pude ouvir apenas a introdução: “a psicanálise faz a transposição…” Bem, não quis parar e esperar o resto da explicação. Mas continuei o meu percurso pensando naquele mínimo fragmento de conversa.

É evidente que o acesso à informação é muito maior hoje do que já foi em outros tempos. Mas as mudanças podem não ser tão grandes. O rapaz tinha cara de tudo, menos de especialista em psicanálise. É bem possível que estivesse reproduzindo imperfeitamente alguma definição superficial de psicanálise mal-ouvida em sala de aula. Tinha uma informação que poucas pessoas tinham há poucas décadas. No entanto, estava usando esse pedaço mal-compreendido de informação a que teve acesso para fins absolutamente práticos. Impressionar as meninas enquanto esperavam o ônibus.

No episódio 6 da serie Evolução um pesquisador afirma que as pessoas falam muito, mas a maior parte das conversas trata de amenidades (gossips). Imagino que essa seja a regra desde que os humanos começaram a falar. No final das contas, o tempo passa e muda o conteúdo das amenidades, mas as amenidades continuam sendo o assunto principal.

Psicanálise virou assunto de espera de ônibus, mas essa psicanálise tem muito pouco a ver com aquela de Freud ou Lacan. Quantas pessoas conhecem a psicanálise em profundidade hoje? Imagino que muito poucas. Proporcionalmente, o número de conhecedores de algum assunto hoje e há 20 mil anos não deve ter mudado muito.

Assistindo aos programas de televisão, mesmo os que se apresentam como “educativos”, o que se vê é uma grande superficialidade. Por trás de uma suposta transmissão de conhecimento, o objetivo real é o mesmo passa-tempo de sempre. Quem assiste não vai, obviamente, se tornar conhecedor, mas vai conseguir alguns assuntos para impressionar um interlocutor incauto no dia seguinte.

Em tempo real: a moça que perde mais uma noite de sono para reler, pela enésima vez do dia, o teleprompter da Globo News diz: “Mais uma do presidente da Venezuela”. Nem sei qual é a “mais uma” do Chavez (ligo a tevê na Globo News, mas não presto atenção). O que importa não está no que eles falam, mas no que a gente entende. Essa manchete “Mais uma do Chavez” mostra a “vejanização” da imprensa e a “xuxanização” do entretenimento. Se noticiário e diversão não se diferenciam, é tudo uma coisa só.

Parece que a “mais uma” do Chavez (ouvi mais um fragmento do que a moça da Globo News está relendo) tem a ver com a nacionalização das mineradoras. Engraçado: aqui em Minas as mineradoras têm “autorização” para tudo o que quiserem fazer, mas isso não é “mais uma” do govenador de Minas. Nem é notícia. Pela manhã, alguém vai repetir: “Viu a última do Chavez”? E a pseudo-informação vai se disseminando.

Talvez seja o caso de rever a minha idéia inicial. Proporcionalmente, hoje, considerando todas as fontes de informação disponíveis, o conhecimento não seria menor do que no passado?

Violência no Brasil: tem solução?

May 16th, 2009

Não vou escrever sobre os 3 anos dos ataques do PCC em São Paulo. Já escreveram o Idelber e o Inagaki [UPDATE: Quando comecei o post não sabia que rolava uma blogagem coletiva. No Inagaki tem a lista dos participantes]. Mas uma conversa que estou desenvolvendo com os meus alunos  tem resvalado  no assunto da violência e do crime no Brasil. Acredito ser pertinente ligar as coisas.

Tenho discutido nas aulas, a partir de um artigo de Rita Laura Segato, o problema da universalização versus relativização dos Direitos Humanos. Como é sabido, os Direitos Humanos contidos nas declarações internacionais são originalmente um produto cultural e histórico do tal “mundo ocidental”. Começaram a ser escritos durante o processo de ascensão da burguesia e guardam até hoje as marcas (ainda que, às vezes, atenuadas, como no caso do direito de propriedade) do individualismo, do jusnaturalismo e do contratualismo. A implementação desses direitos em sociedades “não-ocidentais”  pode se chocar contra padrões culturais diferentes dos “ocidentais”.

O que fazer? Estabelecer e exportar a concepção de que existem certos direitos que são inegavelmente universais porque naturais e inerentes aos indivíduos humanos? Ou reconhecer que cada cultura é autômoma e que, portanto, suas práticas – por mais exóticas que possam parecer – devem ser compreendidas e aceitas como relativas a uma história cultural singular que as provê de sentido e legitimidade?

O  caso mais citado como exemplo e problema é o da “mutilação genital feminina“. Essa prática seria uma inequívoca violação do princípio “universal” da dignidade humana? Deveria, portanto, ser banida mesmo que ao custo de uma intervenção coercitiva promovida por agências supranacionais?  Ou deve ser compreendida de acordo com o contexto cultural singular que lhe dá sustentação? Nesse caso, o “fato” de ser “aceita” numa dada comunidade moral garantiria a sua legitimidade?

Penso que essa prática não pode ser tolerada. Trata-se de uma gravíssima agressão às mulheres/crianças a ela submetidas.  No entanto, não é descabida a afirmação de que uma intervenção moldada a partir da legislação “internacional” de Direitos Humanos pode dar margem ao chamado “imperialismo cultural”. Em vez de ser um produto do diálogo intercultural, as medidas de banimento assim construídas seriam mais um episódio do longo monólogo que o mundo ocidental desenvolve em torno do direitos humanos desde, pelo menos, as revoluções burguesas.

O fato de serem ocidentais os autores históricos das declarações de direitos atualmente existentes embasa a reivindicação de “superioridade moral”  e da prerrogativa de apontar as violações de direitos ocorridas no “resto incivilizado” do mundo. A pretensa superioridade, no entanto, além de falsa, serve apenas para provocar uma conveniente cegueira em relação às violações muito freqüentemente praticadas pelos países orgulhosamente ocidentais.

De fato, se colocada em termos da dicotomia entre universalização ou relativização dos direitos humanos hoje existentes, os problemas semelhantes ao caso da “mutilação genital” não têm solução. Patinamos entre os dois lados da controvérsia na medida em que os argumentos de parte a parte se equilibram. No final das contas, não encontramos uma resposta suficientemente convincente (e se encontamos, é mais por temperamento pessoal do que por convencimento racional).

(Talvez o exemplo/caso da mutilação, por sua gravidade e violência, esconda mais do que revela. Rita Segato cita um encontro de mulheres indígenas em que foi apresentada a reivindicação da emancipação feminina. A emancipação das mulheres em uma comunidade cuja estrutura social se atrela profundamente à divisão sexual – e desigual – d0 trabalho pode gerar conseqüências desastrosas para o grupo. Nos vemos diante de uma situação em que valores igualmente importantes se contradizem. Vale mais garantir a dignidade das mulheres ou a integração da comunidade? Não há resposta, pois a opção por um não significa a realização do outro. De que adianta promover  a dignidade das mulheres no grupo se a mesma dignidade será ameaçada pelo fato de a própria existência do grupo ser colocada em risco pela emancipação?).

É preciso reconhecer que os direitos humanos listados nos documentos internacionais são incompletos e imperfeitos. Devem ser rediscutidos e aperfeiçoados. Para que a falsa polêmica da universalização versus relativização seja superada é imprescidível que a rediscussão ocorra em um contexto realmente intercultural em que todas as culturas possam falar e ser ouvidas. O “ocidente” tem que deixar de reivindicar uma inexistente superioridade moral e se abrir para o diálogo franco. A abertura para o olhar do outro é o remédio contra a cegueira referente às violações praticadas sistematicamente por aqueles que se querem moralmente superiores.

Não tenho nenhuma dúvida de que estamos muito longe de ver esse diálogo acontecer e não estou certo de que ele seja realmente possível. Mas acredito que seja importante discutir e considerar essa (ainda que remota) possibilidade. Essa discussão nos tira dos campos intrinsecamente conservadores da lei e da moral e nos leva ao campo inconformista da ética.

Para Segato, o pensamento ético, que desafia as convenções morais e/ou legais, pode nos ajudar a desligar os automatimos impostos pela socialização. Se a cultura, por um lado, nos prepara para o conformismo, por outro nos oferece as ferramentas necessárias para a crítica. A atitude ética é aquela que opta pela resistência, que rejeita a obediência automática aos preceitos, sejam eles morais ou legais. Esse entendimento é especialmente importante nos dias atuais. “Ética” se transformou em assunto de botequim e, na medida em que é entendida e apresentada como mera “listinha de mandamentos”, não se diferencia da moral. É muito importante retomar a atitude realmente ética avessa ao enjôo do pensamento moralizante.

Esse texto já se alonga e se você chegou até aqui deve estar se perguntando onde nessa pendenga entra o problema do crime/violência na sociedade brasileira. Primeiro, uma nota biográfica: estou nessa área do estudo e ensino sobre crime há uns 15 anos. Já lecionei em cursos de formação ou aperfeiçoamento/especialização policial de todos os níveis. Do soldado de 2ª classe ao tenente-coronel. Do detetive ao delegado em cargo de direção (sem contar as aulas de Sociologia Jurídica no curso de Direito). Invariavelmente, quando o assunto é violência e crime no Brasil, a pergunta inevitável atirada pelos alunos é: “qual é a solução? Como resolver o problema?” A pergunta, e o tom às vezes desafiador, reflete a inquietação tanto de alunos/profissionais da segurança pública como de alunos/cidadãos amedontrados.

Responder o que, honestamente? Especialmente para policiais muitas vezes acidamente céticos, depois de anos de trabalho pouco eficaz? Depois de conhecerem muito bem os intestinos da “segurança pública”.   Honestamente, sou obrigado a dizer que uma parte muito pequena da solução está nas mãos das forças policiais. A situação é sistêmica e estrutural. Da forma como o problema tem sido apresentado não há solução. Essa resposta, dada na lata, é frustrante. Mas a sua elaboração pode não ser.

A prática de crimes não é exclusividade de integrantes das classes baixas, nunca é demais esclarecer. Mas, em se tratando dos crimes praticados por pessoas de classe baixa, as soluções propostas sempre sugerem a repressão ou a reforma social. A “inteligência” mais recente diz que o caminho é combinar as duas estratégias. Truísmo e ineficácia.

O problema é que o jovem pobre envolvido ou em risco de se envolver com práticas criminosas não será dissuadido por propostas de integração subalterna à sociedade de consumo. E não é disso que se trata? Desde quando os cursos profissionalizantes para jovens de classe baixa oferecem uma real alternativa de ascensão social? Oferecem apenas a possibilidade da resignação a uma função despretigiada e mal remunerada. Por que alguém tem que aceitar essa oferta? Por que é o destino? Por que a “Loteria da Babilônia” assim decidiu? O fato é que, se deixamos de lado o pensamento moralizante, acabamos por perceber que a pergunta tem de ser invertida. A questão não é “por que há jovens pobres envolvidos com o crime”. A pergunta honesta é “por que são tão poucos”. “Por que a maioria ainda escolhe a resignação?”

Essa questão surgiu nas aulas sobre “universalização versus relativização” dos direitos humanos porque observamos que a oposição “nós versus eles” definidora do ponto de vista “ocidental” que indica a necessidade de levar aos incivilizados as preciosas realizações inscritas nas declarações internacionais de direitos se repete no interior da sociedade brasileira cada vez mais cindida em partes irreconciliáveis. O nosso “nós e eles” particular opõe a “elite” (na falta de palavra melhor) aos subalternos (em geral moradores das “favelas”).

Falando das “práticas culturais bárbaras”, que demandariam uma intervenção internacional, propus o seguinte exercício de imaginação: em um texto sobre direitos humanos lê-se que, em um país chamado Brasil, é comum a situação em que uma pessoa acusada de ter infringido regras locais (não referentes ao ordenamento jurídico nacional) é sumariamente condenada a ser colocada dentro de uma pilha de pneus que será regada com gasolina e incendiada. Essa modalidade de julgamento e punição é apresentada como típica da cultura brasileira. Será informado que o estado-nacional brasileiro tem sido historicamente incapaz de eliminar essa prática considerada apropriada por boa parte de sua população. Inclusive, alguns “radicais” teriam sugerido que tal prática deveria ser aceita já que se trata de legítimo “direito alternativo”.

Qual seria a reação, diante desse relato, de um leitor pertecente à “elite” brasileira típica? Imagino que ele diria o seguinte: “Há um equívoco nessa descrição”. “Essa prática não acontece no Brasil”. “Essa prática acontece nas favelas”. Mas as favelas não são o Brasil? Nesse raciocínio, as favelas, as classes perigosas, seriam uma excrescência a ser eliminada. Uma parte podre do Brasil causadora do nosso fracasso civilizatório. (É o mesmo raciocínio que diz: “A altíssima aprovação do governo Lula no Brasil tem de ser relativizada, é preciso descontar o peso do nordeste e dos pobres cooptados pelo Bolsa Família.”  Aos pobres e nordestinos é negada de antemão a autonomia na escolha política. São, por definição, cooptados pelas esmolas. É óbvio que nem todos os pobres e nordestinos fazem escolhas acertadas. Mas é igualmente óbvio que nem todos os “bem nascidos” o fazem. Escolha política acertada não é privilégio de classe.)

O paralelo entre a falsa polêmica da “universalização versus relativização” dos direitos humanos no plano internacional e a situação que ocorre no Brasil se evidencia na medida em que qualquer discurso do tipo “nós contra eles” (nós ocidentais contra eles não-ocidentais ou nós brasileiros de bem contra eles brasileiros favelados/marginais) é inadequado. Em termos de “nós contra eles” nunca haverá solução possível. Porque, desse ponto de vista, a única possibilidade seria a eliminação (eliminação cultural ou física, ou ambas) de uma das partes.

A verdadeira solução exige o reconhecimento de um nós sem eles, um nós integral. Os problemas são nossos e não deles, pois eles são parte do nós. Não existe uma superioridade que garanta a qualidade moral de “nós” em oposição aos desqualificados “eles”. No plano internacional, somos todos violadores dos direitos humanos. No plano nacional, o “traficante” do morro e suas armas de grosso calibre não existiriam sem a cumplicidade de “pessoas de bem”. Ou alguém já viu um “favelado” viajar ao exterior e voltar pelo aeroporto com uma mala cheia de fuzis? A mesma pessoa que aprova o “modelo Capitão Nascimento” de operações em favelas quer uma lei suficientemente elástica para que seus negócios não muito lícitos sejam possíveis.

A lógica do “nós e eles” prospera porque abriga o argumento de que “eles”, “infelizmente”, terão que se resignar às posições subalternas, pois esse é o seu destino. Mas por que uma parte dos brasileiros tem de se contentar com as sobras? Não tem. Simplesmente não tem.

A antropóloga Teresa Caldeira, estudando o processo de redução da idéia de direitos humanos á idéia de privilégios para bandidos, observa que a reação contra os direitos humanos começou quando os presos comuns e pobres começaram (depois da Lei da Anistia de 1979) a ser levados em consideração. Se os direitos não são acessíveis a todos, mas apenas a alguns, não são enfetivamente direitos. São privilégios. Os brasileiros entendem de privilégios. Se estão do lado de fora, podem lamentar ou invejar os que estão dentro, mas  tendem a aceitar resignados que é assim que a banda toca por aqui. Os que estão do lado de dentro acreditam que são merecedores de sua condição, pois a sua superioridade moral assim os qualifica.  Se o Brasil é o país dos “privilégios fundamentais”, exclusivos por definição,  por que dar a “eles”, os criminosos, essas vantagens? Na discussão nauseabunda sobre o artigo de Teresa Caldeira é comum surgir o argumento de que os presos não podem comer e beber de forma minimamente satisfatória na prisão porque os pobres não têm essa condição. É o raciocínio do “nós e eles” em operação. Eles, criminosos e pobres, são uma só massa. Alguns estão presos. Num argumento “igualitário esquizofrênico”, afirma-se que não seria “justo” para com os pobres que seus irmãos presos ganhassem privilégios.

Acredito que está longe a possibilidade de superação da cisão “nós e eles”.  Talvez acreditar no contrário seja mais mais razoável. O fato é que a cisão tende a aumentar cada vez mais. Por que, então, falar sobre a necessidade de integrar o “nós e eles” de modo que só exista o nós? Ouço com freqüência que esse discurso da integração é “coisa de intelectual sonhador”, que é hipócrita, que é preciso ser realista e enxergar que a cisão é inevitável e que qualquer proposta séria deve considerá-la como um dado natural. É exatamente para rejeitar essa afirmação que se faz necessário falar da integração como única possibilidade de solução do problema do crime e da violência (comum a todas as classes, lembre-se) no Brasil. O objetivo é neutralizar a “concepção atuarial da segurança pública” dominante nos últimos tempos. O niilismo ético de quem acredita na realidade inevitável da cisão é o principal fundamento da afirmação de que o bem comum em geral e segurança em particular podem ser alcançados por medidas meramente gerenciais.

A idéia de “pulsão ética” desenvolvida por Segato nos ajuda nesse empreendimento. Nos arma contra a acusação de sermos alheios à realidade. A realidade está aí, é óbvio. Mas se não queremos ser meros funcionários/burocratas da realidade, se queremos resgatar um saudável inconformismo diante do status quo, precisamos imaginar o que parece impossível. Precisamos falar de um outro mundo. Não se trata de crença ingênua de que seja fácil ou mesmo possível construir esse outro mundo. Trata-se de resistência, de insubordinação, de preservar o olhar crítico contra todas as evidências de sua inutilidade. Trata-se de uma escolha ética sobre como fazer parte desse mundo sem sentido.

Rádio Relógio (AM 580 Khz)

May 15th, 2009

Você se lembra DA Rádio Relógio? DA e não DO rádio relógio? Considerando que muitos entram na faculdade com 17 anos, no ano que vem terei alunos nascidos em 1993. Ano em que iniciei o mestrado! Para mim, a experiência do evelhecimento já começou. Estou neste planeta há longos 39 anos. Dia desses falei numa aula, advertindo por antecipação que se tratava de uma lembrança de tempos distantes, sobre a Rádio Relógio. Uma aluna respondeu que já tinha ouvido falar DO rádio relógio, sucessor moderno do velho relógio despertador. Quando me vi explicando que não falava de um dos gadgets comuns nos anos 90, mas de uma estação de rádio que se dedicava a transmitir a hora certa durante as 24 horas do dia, percebi que sou mesmo pré-histórico.

Os alunos arregalaram os olhos e duvidaram da existência de uma estação de rádio como a Rádio Relógio. Se você, leitor, já ouviu a Rádio Relógio, não se iluda. Jovem você não é.

Ultimamente, quandos os alunos me cobram uma promessa esquecida (enviar um email, entregar um texto, etc.) digo que minha memória foi uploudada para o google. “Só me lembro do que está no google”. “Um sociólogo francês que viveu entre o século dezenove e o início do vinte? O primeiro nome é Émile? Espere que vou ver no google”.  A Rádio Relógio CONFUNDE ATÉ O GOOGLE! Pesquisando por “rádio relógio”, os resultados são todos sobre um dos principais gadgets dos anos 1990 (lembra dos modelos que vinham com slot para uma bateria de 9 volts que evitava a parada do device por falta de energia elétrica?). Para achar a rádio no google, é preciso incluir alguma referência aos anos 1970.

E o resultado entristece. A outrora pública Rádio Relógio é hoje propriedade do Missionário R. R. Soares. Ouça um trecho das tramissões da Rádio Relógio.

Pois é. Depois que o Hermenauta nos apresentou o blog do bispo Macedo, ninguém pode me acusar de ser implicante com a religião (veja as idéias simpáticas do bispo sobre a Índia). Não implico apenas ou especificamente com a religião. Implico com os engolidores da pílula azul. A imaginação sociológica demanda a pílula vermelha. As religiões intitucionalizadas vendem a pílula azul (lembre-se fiel, o dízimo é sobre o bruto. Deus não tem culpa de o governo meter a mão primeiro no seu salário. Engraçado esse Deus onipotente que perde para a Receita Federal). O RR meter a mão na Rádio Relógio é apenas uma confirmação. É claro que a Rádio Relógio não tinha nenhum conteúdo emancipador, não é esse o ponto. O ponto é a sopa tomada pelas beiradas. Enquanto a maioria está atenta ao que não merece atenção.

O fato é que sou, cada vez mais, assembleista.

Algumas notas inconclusivas roubadas do tempo de sono

May 13th, 2009

Chego em casa às 11 da noite. Ligo o computador e a tevê, volume baixo, na Globo News. Vou para o Google Reader para saber do que interessa, enquanto escuto ao longe as abobrinhas de um programinha da Waldvogel. Parece que o tema tem a ver com reforma política. Como os ouvidos não têm tampa (daí o ditado “melhor ouvir do que ser surdo”) , escuto qualquer coisa como “o voto é a grande arma do cidadão”. Felizmente um dos convidados (Henrique Fontana – PT/RS) relativizou a afirmação. Essa é a “politização” que as Organizações Tabajara Globo esperam dos seus súditos: comparecer na data marcada numa seção eleitoral e digitar os números dos seus candidatos, que depois serão “denunciados” no Jornal Nacional. “Político é tudo ladrão”. Mas não tem problema. “O brasileiro não tem mesmo memória!” E tome chavões na cabeça. Padrão “Fauto Silva” de consciência política.

Vejo no Rainha Vermelha uma foto de um macaco sem pelos (o post é muito mais interessante do que a minha memória biográfica). É inevitável me lembrar de um dos muitos casos que meu avô contava. Certa vez foi convidado a participar de uma refeição cujo prato principal seria um pequeno macaco. Declinou quando viu o macaco despelado e notou a grande semelhança com uma criança humana. Não tenho idéia do que o meu avô pensaria sobre a teoria da evolução. Mas tenho certeza de que a experiência do macaco/criança o aproximava da conclusão de que somos mamíferos-primatas como quaisquer outros.

Essa lembrança me remete a uma conversa recente com meus alunos. Falávamos sobre o ditanciamento que se estabeleceu entre o consumidor moderno de carne e o animal que a oferece. Compramos as “peças” no supermercado, naquelas bandejas com cortes pré-definidos – e nos esquecemos convenientemente que são parte de animais que já foram vivos. Cresci na “roça”.  A carne à mesa, com freqüência, andava há pouco pelo quintal. Para os urbanos, essa informação pode ser estranha. Tem muita gente por aí que não liga o bife ao boi. Não sou e nem pretendo ser vegetetariano. Mas não deixa de ser interessante essa situação de que hoje as pessoas comem coisas cuja origem desconhecem completamente. Se soubessem, não comeriam.

Essas notas talvez seguissem por outros caminhos, mas para chegar até aqui tive que recorrer  a um “ponto de restauração do windows” e tive que escrever novamente alguns pedaços. Parece que isso foi obra de uma interação pouco amistosa entre o meu notebook e o windows-update. Moral da história: não legalize o seu windows por causa  das  vantagens que que a MICOsoft oferece. O windows é um programa pirata por essência. Não adianta a Microsoft oferecer agora as vantagens da legalização.  (Em tempo: estou escrevendo a partir de uma cópia perfeitamente legal do Vista).

Como digo aos meus alunos: só mais uma coisa, para concluir, SILÊNCIO, sigam a discussão sobre a conscientização ambiental  a partir do blog da Lúcia. Quero entrar na conversa, mas agora não posso.

Drogas

May 10th, 2009

O Daniel pediu a minha opinião sobre as “drogas”. Para começar a pensar no assunto, vale assistir ao vídeo do lêmure drogadicto:

Encontrei o vídeo no Rainha Vermelha. O Átila escreveu: “Já vi animais comerem presas venenosas por necessidade, mas esses lêmures não estão comendo os piolhos-de-cobra, estão apenas mordendo para ter contato com as toxinas que o animal libera. Quem diria, lêmures drogados!

Considerar a existência do fenômeno da drogadicção na natureza pode ser uma forma de identificar e mensurar com maior precisão as concepções morais presentes nos debates públicos sobre o “problema das drogas”.

Sou feliz por ser ateu (continuação) ou Entrando na briga!

May 9th, 2009

Continuando o post anterior, não quero me desviar da questão proposta. Terminei com a afirmação/pergunta: “Tenho me espantado com a quantidade de carros que exibem algum emblema religioso. ‘Sou feliz por ser católico’, ‘Deus é fiel’, logomarcas de igrejas, acrônimos religiosos diversos. Qual seria a explicação para tamanha necessidade de dizer publicamente ‘acredito nisso ou naquilo’?

De saída, é bom esclarecer que o problema não é especificamente a religião, mas a necessidade de fazer afirmações identitárias públicas e ostensivas. Tal necessidade parece denunciar a fraqueza das mesmas identidades anunciadas publicamente. Googlando sobre “adesivos religiosos automotivos” (não foi bem essa a minha busca, mas a expressão é engraçada), cheguei a um post que se refere à “guerra dos adesivos“. Não tinha pensado em competição, mas a idéia é interessante. É bem possível que a crescente “adesivação religiosa automotiva” tenha a ver com uma cisão religiosa na classe média brasileira (a disputa seria intra-classe na medida em que as batalhas se travam nos vidros e latarias de carros relativamente caros). Se no passado a classe média era quase totalmente católica, hoje existe um contingente evangélico cada vez mais numeroso. O conflito está posto.

Os evangélicos, por serem minoritários e, no interior da classe média, vistos com desconfiança, teriam partido para uma estratégia afirmativa de inversão do estigma: “Sou evangélico, SIM! Tenho orgulho disso, e estou ganhando dinheiro!” A estratégia afirmativa teria se materializado inicialmente no “adorno metálico” do peixe, tradicionalmente católico, conforme o post do Ronaldo, e que teria sido seqüestrado pelos evangélicos. Além do peixe, é muito freqüente o adesivo que informa: “Deus é fiel”.

Nunca entendi essa frase. Mas o google me diz que a frase completa é “Deus é fiel, mesmo quando não somos”. Assim faz mais sentido. Não obstante, a supressão da segunda parte não me parece casual. De fato, parece uma inversão de perspectiva. O humilde pecador, que confiava abolutamente em Deus, parece agora ameaçá-lo: “Seja fiel! Ou não conte comigo” (a classe média, especialmente a ascendente, é orgulhosa de suas conquistas materiais). Aqui em Belo Horizonte, vale destacar, um adesivo muito popular é o da extremamente bem sucedida “Igreja Batista da Lagoinha“, negócio muito bem administrado pela família Valadão. O uso desse adesivo no carro talvez esconda o anúncio público menos confessável e mais prosaico do sucesso material.

Seguindo o raciocínio, os católicos, assustados com a perda de espaço, reagiram. Vieram com o “Sou feliz por ser católico”. Numa leitura contrária, o significado real pode ser: “apesar de católico, sou feliz (ainda que não esteja ganhando tanto dinheiro)”. Max Weber já dizia que os protestantes são mais adaptados ao capitalismo. Depois introduziram a imagem da Virgem Maria envolvida pelo terço. De acordo com o Ronaldo, a escolha teria sido proposital, já que os evangélicos não se entusiasmam muito com essa história de virgindade da mãe do Homem. Um pouco mais tarde apareceu a “Virgem de Aparecida” envolvida por um terço que forma o mapa do Brasil. Não é preciso lembrar do episódio mais explícito da guerra religiosa midiática no Brasil que teve seu clímax quando um pastor da Universal aplicou, em rede nacional, uns pontapés na imagem da “Nossa Senhora Aparecida”.

(Parêntesis: é também comum em Belo Horizonte um adesivo em que se lê a expressão “Mundo Novo“. Sabia que se tratava de alguma coisa relacionada à Canção Nova – uma espécie de braço evangélico do catolicismo. Não sabia que essa associação tinha como um dos membros de destaque o ex (e felizmente derrotado) candidato a vice-prefeito Eros Biondini).

Enfim, pensei em escrever essa continuação falando na fragilidade das identidades tradicionais no mundo contemporâneo, da modernidade líquida e até da anomia durkheimiana. Mas, ainda que o problema da “adesivação religiosa automotiva” tenha a ver com essas macro-questões, o fato é que estamos diante de uma pequena guerra religiosa travava no interior da classe média brasileira: católicos versus evangélicos.

E os ateus? Bem, pode não ser muito, mas na falta de soldados para esta causa, me apresento. Aproveitando uma dica do blog do Ronaldo, encomendei o meu adesivo. Assim que chegar, será colado na traseira do meu carro. Postarei uma foto no blog. Aguardem!

Adesivo vendido no site Sticker Giant

Adesivo vendido no site Sticker Giant

The Future

May 8th, 2009

I’ve seen the future, brother:
it is murder.

Andando a pé na rua, depois de ter dirigido muito, você já levantou os olhos procurando pelo espelho retrovisor para ver o que está acontecendo atrás? Eu já. Lendo um texto em papel, você já sentiu falta de um hiperlink? Eu já. Folheando um livro, também em papel, você já sentiu falta de uma ferramenta de busca por palavra ou frase? Eu já.

A integração organismo-máquina nos espera?

Dia desses estava pensando em como seria bom conectar o cérebro diretamente à internet via wireless. Essa possibilidade já não é tão absurda. E tudo começou assim.

Veja o vídeo:

Leia sobre o projeto aqui. Site oficial.

O que Damásio e Castells diriam sobre isso?

Via orgtheory.net.

Sou feliz por ser ateu

May 7th, 2009

Sobre o título do post (todas as definições – entre aspas – serão, por conveniência, retiradas do dicionário Houaiss): Se ateu é quem se identifica com a (1) “doutrina ou atitude de espírito que nega categoricamente a existência de Deus, asseverando a inconsistência de qualquer saber ou sentimento direta ou indiretamente religioso, seja aquele calcado na fé ou revelação, seja o que se propõe alcançar a divindade em uma perspectiva racional ou argumentativa”, sou, então, ateu. Se ateu é quem se identifica com a (2) “doutrina originada no enciclopedismo setecentista, esp. em Holbach (1723-1789), que recusa a existência de Deus, com base em uma concepção materialista e cientificista da realidade” ou quem se identifica com o (3) “pensamento fundamentado em um pessimismo radical que conclui pela descrença em Deus, cuja existência se mostra incompatível com o sofrimento humano (Schopenhauer), ou um instrumento de fuga diante da tragicidade (Nietzsche) e do absurdo (Sartre) da existência” não sou, então, ateu.

Não gosto da acepção (2) porque ela me parece envolver uma crença ou “contra-crença”. A crença em Deus é substituída pela crença no materialismo ou na ciência (bom que o Houaiss foi cuidadoso e se referiu ao “cientificismo”). Crença é crença (”atitude de quem se persuadiu de algo pelos caracteres de verdade que ali encontrou” – “convicção profunda e sem justificativas racionais em qualquer pessoa ou coisa”). Não vejo diferenças significativas.

Não gosto, também, da acepção (3). Há um sentido de orfandade, de desamparo, que, para mim, denuncia uma crença de fundo. Uma negação de Deus, não por sua simples inexistência, mas por sua falta ou negligência.

No entanto, os sentimentos da tragicidade e do absurdo da existência me acompanham o tempo todo. Esses sentimentos me aproximam da idéia de agnosticismo, ou seja, da “doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião (a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc.), na medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica”.

Sou cientista, ainda que estabelecido na periferia da periferia da ciência – um cientista social que se identifica com as metodologias qualitativas – e tenho em alta conta o método científico. É evidente que a idéia de “comprovação científica” deve ser relativizada. O critério da falseabilidade é muito mais adequado. De qualquer forma, penso que a realidade última nos é inacessível. Como Max Weber, penso que a realidade sempre será infinitamente mais complexa do que seremos capazes de compreender com o nosso intelecto limitado. A experiência religiosa (e a partir daqui não posso reivindicar o apoio de Weber, que não tratou disso), entendida como compreensão absoluta da EXISTÊNCIA (existência de tudo o que está diante de nossos sentidos), é a mais incompreensível de todas.

Para Joseph Campbell, as religiões institucionalizadas funcionam como anteparos à verdadeira experiência religiosa. A verdadeira experiência religiosa é disruptiva, caótica. Tem a ver com o contato com o inefável, com o incognoscível, com o completo absurdo da existência de tudo que existe. Para qualquer ordem estabelecida, a experiência religiosa autêntica é ameaçadora.

É por isso que me coloco contra qualquer religião da certeza, contra qualquer certeza. A certeza é a abdicação do conhecimento. O conhecimento é impossível? Nem sempre, mas o conhecimento último, para mim, é impossível.

Nós, animais humanos, evoluímos achando padrões e regularidades no mundo e a habilidade para reconhecer regularidades e padrões deve ter sido decisiva. Ficamos dependentes.

Tudo o que foi escrito até aqui é para dizer que me espanta (ou irrita) a necessidade atual que as pessoas têm de expor publicamente crenças meramente pessoais. Passo considerável tempo da minha vida no trânsito, me deslocando de carro de um lugar para outro. Entre as músicas do meu pendrive de 8 gigas e as abobrinhas da CBN, olho para os vizinhos de deslocamento motorizado mais ou menos lento. Tenho me espantado com a quantidade de carros que exibem algum emblema religioso. “Sou feliz por ser católico”, “Deus é fiel”, logomarcas de igrejas, acrônimos religiosos diversos. Qual seria a explicação para tamanha necessidade de dizer publicamente “acredito nisso ou naquilo”? Continua…

A imprevisibilidade do futuro

May 6th, 2009

[Já que o tempo me falta e ainda tenho que dormir, republico - com pequenas modificações - um texto escrito para o antigo blog. Os comentários dos posts anteriores serão respondidos em breve.]

O futuro desperta a imaginação das pessoas. Talvez porque seja muito fácil inventá-lo. Talvez o futuro imaginado seja o que nos resta, já que vivemos em um presente irremediavelmente absoluto. Mas será realmente possível prever o futuro?

No Banco de Dados da Folha de S. Paulo, encontra-se uma matéria publicada pela Folha da Manhã em janeiro de 1925. Um livro do professor A. M. Low é resenhado. O escritor não se intimidou e já foi logo apontando as suas previsões para o até hoje longínquo ano de 2925. Com toda essa antecedência, não é difícil liberar a criatividade.

Os que estiverem vivos no final do terceiro milênio terão a vantagem de não precisar mais dormir. Infelizmente, nós que já não nos contentamos com as 24 horas disponíveis diariamente não estaremos mais aqui para usufruir desse avanço.

O repórter da Folha da Manhã esclarece:

A energia vital, que conserva o funccionamento do corpo, é, não há de negar, uma fucção eletrica. Si se pudesse obter um systhema pelo qual o corpo absorvesse essa eletricidade da atmosphera, certo não seria necessario o somno para que se recuperassem as energias dispendidas e se continuasse a viver.

O professor Low acredita na proximidade dessa invenção, que evitaria ao homem, cançado pelo trabalho ou pelo prazer, a necessidade de um somno restaurador, effeito que elle obteria directamente do ether, por intermedio de suas vestes, perfeitamente apparelhadas com um metal conductor e ondas de radio que lhe proporcionariam a parte de energia necessaria para continuar de pé, por mais um dia.

Dess’arte, nas farras ou defronte á mesa de trabalho, receber-se-ia, através das vestes, a energia reparadora, sufficiente para que o prazer ou a tarefa continuassem por tempo indefinido, sem o menor cançaço.

Não é uma maravilha? Nossa estadia no planeta aumentaria em 30%.

No entanto, nem tudo será assim tão perfeito. Os homens e as mulheres do século XXX serão completamente carecas. As causas da calvície generalizada, devem ser vistas como uma advertência para os que abusam dos cortes, dos chapéus, dos bonés, das boinas e das toucas:

Referindo-se á queda do cabello, o professor Low affirma que, dentro de mil annos, a raça humana será absolutamente calva. E attribue estes effeitos aos constantes cortes de cabello, tanto nos homens como as mulheres e aos ajustados chapéos, que farão cahir a cabelleira que herdamos dos monos – doadores liberaes do abundante pêlo que nos cobre da cabeça aos pés, mas que a pressão occasionada pelos vestidos e calçados fará desapparecer totalmente.

Finalmente, em meio a várias previsões imprudentes, o professor Low dá uma quase dentro. Só não foi mais exato, porque a cautela o fez chutar a sua bola de cristal com tanta força que não só passou por cima do travessão, como ultrapassou os limites do estádio e foi cair no ano de 2925. Com a palavra o entusiasmado repórter:

O sabio inglez prevê ainda o desapparecimento dos grande diarios, que serão substituidos por livros, magazines illustrados e revistas especiaes, porque – continua Low, dentro de mil annos, pouco mais ou menos, com o premir de um simples botão electrico, receber-se-ão informações de todas as partes do mundo, o que não impedirá que, ao contacto de outro, se veja na tela-visão, que cada casa possuirá, ao mesmo tempo, uma corrida de cavallos em Belmont-Park, Longchamps ou Paris, ainda que se resida numa villa da America ou da Africa.

Delírios futuristas à parte, o fato é que, como mostra Alasdair MacIntyre [link trocado depois de advertência acertada do Gabriel], uma inovação conceitual radical é imprevisível porque, já na própria previsão, o conceito teria que ser, pelo menos, esboçado. Se é esboçado na previsão, não é um conceito do futuro, mas do presente. Por exemplo: antes da invenção da roda seria impossível alguém adiantá-la sem, ao mesmo tempo, inventá-la. Se alguém dissesse: “no futuro existirá a roda”. Alguém perguntaria: “O que é roda?” A explicação do futurólogo já seria a invenção da roda. Entre as previsões do professor Low não há nenhuma que mencione um conceito radicalmente novo. Nem poderia existir. Mesmo no caso da “tela-visão” não há muita novidade, considerando que a transmissão de sons por meio de ondas de rádio já era conhecida. O realmente novo é e sempre será imprevisível. É por isso que a história e a ciência nunca terão fim, como já quiseram afirmar.

Merval não tem cabimento

April 30th, 2009

Ontem, voltando do trabalho, liguei o rádio na CBN e pude ouvir (melhor ouvir do que ser surdo, não é?) o medonho comentário do Merval Pereira, em conversa com o Sardenberg, sobre a canalhice do Jungmann.

Ouça a pérola.

Até o Sardenberg ficou constrangido. Quase engasgou. Jungmann diz na propaganda do PPS que “agora o governo vai mexer na poupança, como fez o governo Collor“. Essa afirmação é simplesmente mentirosa. Collor CONFISCOU os depósitos bancários dos brasileiros. NÃO EXISTE a menor possibilidade de o atual governo (ou de qualquer outro governo minimamente sério) repetir esse absurdo.

Mas para Merval essa afirmação tem “cabimento político”, é do jogo. Ou seja, se é para chutar o governo, vale até a mais deslavada mentira. Notem o prazer mal contido com que ele repete que o governo está “enlouquecido” com a fala de Jungmann.

Tamanha cara-de-pau não deixa de ser um talento (pelo menos um talento o Merval Pereira tem).

O mito da ordem

April 28th, 2009

[Escrevi o texto abaixo como uma espécie de comentário ao post "Papéis sexuais, violência e castração química", da Cynthia Semíramis. O assunto é um tanto complicado. Espero ter sido minimamente claro.

Se quiser (e tiver estômago para) ver e ouvir um exemplo perfeito da "construção social do mito da ordem" em operação, indico uma entrevista de Alexandre Garcia com dois especialistas em segurança pública.]
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No livro “The Culture of Public Problems: Drinking-Driving and the Symbolic Order”, em que trata da construção do problema público de “dirigir sob efeito de álcool” (e de sua conversão no problema do “killer-drunk”), Joseph Gusfield, revela como se constitui a ordem moral pública nas sociedades complexas. Ao logo do estudo, Gusfield privilegia os aspectos comunicacionais e simbólicos da lei, entendida como encarnação de significados culturais, em detrimento de seus aspectos utilitários, relacionados ao estabelecimento de objetivos definidos instrumentalmente, como a dissuasão, por exemplo.

De acordo com Gusfield, a doutrina utilitarista que considera a intencionalidade da ação como requisito essencial do comportamento legalmente responsável apresenta uma imagem do ator humano como um indivíduo racional, capaz de fazer previsões sobre cursos de ação e, portanto, responsável pelas conseqüências racionalmente previsíveis de suas escolhas. Esse indivíduo pode ser significativamente influenciado em sua ação pelo medo da punição. Para a citada doutrina, as pessoas devem agir (e na maior parte das vezes agiriam) de acordo com os padrões derivados do modelo de ser humano racional e utilitário. Seriam, assim, responsáveis pela ação intencionalmente pretendida e, especialmente, pelas suas conseqüências danosas, que seriam decorrentes de falhas ou desvios em relação à reprodução dos padrões tidos como desejáveis.

Os “padrões desejáveis” se fundamentam em concepções morais que designam o que é repreensível e o que é desejável. Definem o que seria o comportamento dos “homens de bem” e justificam a punição daqueles que se desviam desse ideal. Nesse contexto, as noções de falha e negligência sustentam um argumento moral que se volta contra o caráter do ator incapaz de reproduzir os padrões da conduta considerada correta. Resulta que, na justiça, julga-se muito mais o caráter moral do indivíduo acusado do que a natureza do seu ato e do prejuízo que ele pode ter causado à vítima.

Por esse ângulo, a lei se mostra como um produto cultural auto-referenciado, como uma forma de comunicação – a fala dos dominantes, por que não dizer? – e não apenas como um instrumento utilizado para obtenção de conformidade por meio da dissuasão. A comunicação realizada por meio dos atos e cerimônias legais conta uma história, elabora um mito que se refere à pretendida existência de uma ordem normativa estável reproduzida regularmente nas condutas racionais da maioria dos membros da sociedade.

A lei e o processo legal dão origem ao mito de uma sociedade composta por um agregado de pessoas engajadas em um conjunto de relações pré-ordenadas e previsíveis. Por meio da enunciação pública da lei, que se dá de acordo com a retórica da aplicação certa e uniforme, se constitui a representação de um mundo de paz e consenso onde a transgressão de princípios morais é necessariamente acompanhada de perigo e ranger de dentes. Somos apresentados, assim, a uma realidade em que a maior parte das ações individuais é guiada por diretrizes morais pretensamente compartilhadas. As ameaças à ordem, perpetradas pelos suspeitos de sempre, têm de ser severamente combatidas para que se preserve o idílio.

O mito da transgressão – ou melhor, de um transgressor recalcitrante cujo comportamento é o sintoma de sua própria incapacidade de seguir os padrões morais compartilhados – produz a metáfora através da qual os “homens de bem” podem reconhecer o seu ambiente – apesar dos indícios contrários – como ordenado e previsível. A condenação regular de transgressores criteriosamente selecionados – que não deixam de ser “bodes expiatórios” – configura-se como um ritual em que a ficção de uma mundo social ordenado e convencional é persistentemente restabelecida como uma visão pública e compartilhada sobre o que é real.

Citando Durkheim, Gusfield afirma que a anomalia do crime (ou do desvio) ameaça a presunção de unanimidade indispensável para que normas tenham autoridade moral. A punição, ao caracterizar e anunciar o transgressor como a exceção que contraria os padrões consensualmente aceitos e reproduzidos pelos “cidadãos de bem”, restaura a autoridade das normas.

O mito da ordem social, ou do consenso moral, persiste por causa da “ignorância pluralística”, mais intensa nas sociedades complexas, que convivem com a diversidade/conflito cultural e com a segmentação dos grupos sociais. A “ignorância pluralística” faz com que cada indivíduo impute aos outros uma conduta virtuosa que ele mesmo não pratica com tanta convicção. Cada um, ignorante dos demais, acredita em um consenso moral muito maior do que aquele que realmente existe. A ignorância permite a fixação de um senso de ordem comum muito mais intenso do que do que a ordem realmente existente. Aquilo que as pessoas elaboram como sendo “o modo virtuoso como os outros pensam e agem” conduz ao reconhecimento da sociedade como um lugar de paz e harmonia (desde que os suspeitos de sempre sejam bem vigiados e, se preciso, exemplarmente punidos).

A dramatização pública da lei estabelece as expectativas e percepções do que é normal e aplaudido e do que é desviante e condenado, estabelece, enfim, o que é admitido publicamente. O comportamento desempenhado publicamente, por seu turno, põe em evidência as próprias bases da ordem moral comum (ainda que esta não seja, de fato, a ordem governante das relações interpessoais rotineiras). A conduta pública reproduz e reafirma a ficção legal. Ignorantes das transgressões uns dos outros, enganam-se todos reciprocamente e o mito da prevalência dos padrões consensuais se torna convincente.

Afirmando e reafirmando o modelo abstrato da transgressão em termos simultaneamente cognitivos e morais, o aparato da enunciação legal reforça a crença no mito da ordem moral pública. O mito transfigura-se, para a sua audiência, no “fato” objetivo da ordem social. Os rituais da lei promovem a impressão de que o entendimento da transgressão como falha moral não só é compartilhado por todos, mas é real. A declaração da lei na arena pública reforça as próprias pressuposições legais sobre aquilo que é reconhecido como a ordem social compartilhada. Dessa forma, a lei cria a nossa imagem da sociedade habitada pelos “cidadãos de bem”.

Propaganda enganada

April 24th, 2009

Não sei se é propaganda enganosa ou apenas propaganda enganada. Nem sei o que é pior: manipulação ou ignorância. O fato é que recebi recentemente um email das Lojas Americanas oferecendo uma “edição comemorativa” do livro 1984, de George Orwell. No texto, vinha a informação de que se tratava do livro que inspirou o programa televisivo “Big Brother”.

Bom, diria que inspirou o título do programa. Além do título, mais do que um programa inspirado no livro 1984, o programa do Bial é um exemplo de como a sociedade do “Grande Irmão” pode se estabelecer de uma forma mais sutil do que supunha Orwell. Nesse programa, ironicamente chamado de reality show, o que menos comparece é a realidade “como ela é”. Ainda mais no Brasil, em que as edições já se acumulam, o que mais se vê é a reprodução de uma realidade propriamente televisiva que se define pelos padrões criados pela teledramaturgia.

Se não bastassem os recursos de edição nas mãos dos produtores, os próprios participantes do “show” se inspiram nos personagens bem sucedidos das edições anteriores. O progama se transformou numa máquina auto-reprodutora. A realidade apresentada no Big Brother Brasil é o próprio Big Brother Brasil. Essa confusão entre ficção teledramatúrgica e realidade me parece muito mais a confirmação de uma (doce) alienação orwelliana do que a sua denúncia.

Quando os indivíduos já não sabem distinguir entre quem eles são de fato, como integrantes posicionados numa estrutura social concreta/determinada, e os personagens que podem representar (com conseqüências reais e não apenas imaginadas) nas interações sociais de que participam, a compreensão da realidade sócio-política que os rodeia está comprometida. Comprometida está também a possibilidade de agirem como atores sócio-políticos autônomos e conscientes dos constrangimentos sociais que precisam enfrentar.

O sucesso do BBB do Bial não estaria relacionado ao fato de que vivemos em uma sociedade acostumada a acreditar que a mobilidade social é fruto natural do resultado da mega-sena acumulada? Posso sonhar em ser o personagem que eu quiser, contra todas as evidências empíricas, pois estão ao meu lado os prêmios das várias loterias estatais, a possibilidade de entrar no BBB 10 por meio da revista do Faustão, o talento para o futebol de um familiar ou o sucesso inesperado no último modismo musical popular.

Numa “Morelliana” do “Jogo da Amarelinha“, Julio Cortázar escreve: “O reino será de matéria plástica, não resta dúvida. E não é que o mundo vá se converter num pesadelo orwelliano ou huxleiano; será muito pior, será um mundo delicioso, à medida dos seus habitantes, sem nenhum mosquito, sem nenhum analfabeto, com galinhas enormes e, provavelmente, dezoito patas, saborosíssimas todas elas, com banheiros telecomandados, água de cores diferentes, segundo o dia da semana, uma delicada atenção do serviço nacional de higiene,”

“com televisão em todos os quartos, por exemplo grandes paisagens tropicais para os habitantes de Reykjavik, vistas de iglus para a gente de Havana, compensações sutis que conformarão todas as rebeldias”,

“etcétera.”

[...]

“Whishiful thinking, talvez; mas essa é outra definição possível do bípede implume”.

Enfim, é certo que o programa televisivo “Big Brother” não se inspirou, além do título, no livro de Orwell. Mas o mundo em que esse programa faz sucesso pode ser um mundo orwelliano pior do aquele imaginado pelo próprio autor de “1984″. Não é preciso reprimir as manifestações individuais. O “indivíduo” de hoje não seria uma mera imagem teledramatúrgica, ou cinematográfica para os mais afortunados? O indivíduo ainda existe?

Literatura e Fotografia: Juan Rulfo

April 19th, 2009

O mexicano Juan Rulfo (1917 – 1986) é mais conhecido como um dos maiores escritores latino-americanos. Mas foi também um grande fotógrafo. Em suas fotografias, Rulfo revela a mesma apreensão da realidade que caracteriza a sua literatura de poucas, porém valiosas, páginas.

Para Carlos Fuentes, “las fotografías de Juan Rulfo [...] parecieran atestiguar a primera vista, por más que retraten desiertos, pedregales y muros desnudos, una maravillosa transparencia líquida, como si fuesen retratos de agua. Es como si Rulfo se asomase fuera de las tumbas de Comala para descubrir la luminosidad de las sombras“.

Fotografia de Juan Rulfo

Fotografia de Juan Rulfo

Há a luz dura e transparente do sol, que deixa tudo quieto, como se “tudo estivesse à espera de alguma coisa“. Há também, conforme Fuentes, o fogo sombrio que vem das brasas da terra. Comala (a cidade de Pedro Páramo) fica bem na boca do inferno. O lugar é tão quente que “muitos dos que morrem por lá, quando chegam ao inferno voltam para buscar um cobertor“. Existe sempre alguma coisa oculta por trás da primeira aparência. A luminosidade mais clara  e esperançosa denuncia as sombras que podem capturar a felicidade dos moradores, que continuam andando por Comala, mesmo depois de mortos. Só há vida no mundo dos vivos, mesmo para os mortos, condenados às suas sepulturas.

Há “uma terra em que tudo se dá, graças à providência, mas tudo se dá com acidez“. Há um povo prisioneiro dos próprios sonhos que se revelam promessas incumpridas. As ilusões são perigosas. E o que seria a ilusão senão uma apreensão limitada da realidade? Somente luz ou somente sombra, quando a sombra nasce da luz e a luz pode ser sombria?

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Fotografia de Juan Rulfo

– Ilusão? Isso custa caro. A mim custou viver mais do que o devido. Paguei com isso a dívida de encontrar meu filho, que não foi, por assim dizer, nada além de uma ilusão a mais; porque nunca tive filho algum. Agora que estou morta me deu tempo para pensar e ficar sabendo de tudo. Nem mesmo o ninho para guardá-lo Deus me deu. Só esta longa vida arrastada que tive, levando daqui para lá meus olhos tristes que sempre olharam de viés, como buscando atrás das pessoas, suspeitando que alguém tivesse me escondido o meu menino. E tudo por culpa do maldido sonho. Tive dois: um deles eu chamo de ‘bendito’ e o outro de ‘maldito’. O primeiro foi o que me fez sonhar que tinha tido um filho. E, enquanto vivi, nunca deixei de acreditar que fosse verdade; porque o senti entre meus braços, novinho, terno, cheio de boca e de olhos e de mãos; durante muito tempo conservei em meus dedos a impressão de seus olhos adormecidos e o palpitar de seu coração. Como não ia pensar que aquilo fosse verdade? Eu o levava comigo aonde quer que fosse, envolto no meu xale, e de repente o perdi. No céu me disseram que tinham se enganado comigo. Que tinham me dado um coração de mãe, mas um seio de uma qualquer. Esse foi o outro sonho que tive. Cheguei ao céu e fui ver se entre os anjos reconhecia a cara de meu filho. E nada. Todas as caras eram iguais, feitas com a mesma fôrma. então perguntei. Um daqueles santos se aproximou de mim e, sem me dizer nada, afundou uma das mãos em meu estômago, como se a tivesse afundado num montão de cera. Ao tirá-la, mostrou algo assim como uma casca de noz: ‘Isto prova o que demonstra’.

Você sabe como eles falam esquisito lá em cima; mas dá para entender.  Quis dizer a eles que aquilo era só o meu estômago enrugado pelas fomes e pelo pouco que comi; mas outro daqueles santos me empurrou pelos ombros em mostrou a porta de saída: ‘Vai descançar um pouco mais na terra, filha, e procure ser boa para que seu purgatório não seja tão longo’.

Esse foi o sonho maldito que tive e do qual tirei a explicação de que nunca havia tido nenhum filho. Soube quando já era demasiado tarde, quando meu corpo tinha se desmedrado, quando a espinha saltou por cima da minha cabeça, quando já não podia caminhar. E de arremate, o povoado foi ficando sozinho; todos tomaram caminho para outros rumos e com eles foi-se embora também a caridade da qual eu vivia. Então me sentei para esperar a morte. Depois que encontramos você, meus ossos se revolveram e ficaram quietos. Ninguém me dará importância, pensei. Sou uma coisa que não estorva ninguém. Você vê, nem mesmo roubei espaço aqui na terra. Fui enterrada na sua própria sepultura e coube muito bem no oco dos seus braços. Aqui neste canto, onde você me vê agora. Só me ocorre que deveria ser eu que estivesse abraçando você. Está me ouvindo? Lá fora está chovendo. Você não sente o bater da chuva?

– Sinto como se alguém caminhasse em cima de nós.

– Deixe de ter medo. Ninguém mais pode botar medo em você. Faça por pensar em coisas agradáveis porque vamos estar muito tempo enterrados.

–> Trecho de “Pedro Páramo”. Edição da “Record”. Tradução de Eric Nepomuceno.

–> Post parcialmente inspirado pelo texto de Carlos Fuentes.

Cassação de Jackson Lago

April 18th, 2009

Para não ficar apenas com a (DES)informação da grande mídia e dos blogueiros medalhões, leia no Biscoito Fino e a Massa o post sobre a cassação/golpe contra Jackson Lago, o adversário do coronel Sarney.

Xô, Sarney!

Xô, Sarney!

“Depois de quarenta anos de controle absoluto sobre o Palácio dos Leões, a oligarquia Sarney foi derrotada em eleições livres para o governo do Maranhão em outubro de 2006. Jackson Lago (PDT) recebeu 1.393.754 votos no segundo turno e venceu Roseana Sarney (PFL) com quase 100.000 votos de diferença. Ontem, aconteceu o desfecho esperado, que acelera a desmoralização dos tribunais superiores no Brasil. O TSE aceitou a representação da coligação da família dona do estado. Jackson Lago foi cassado por “abuso de poder econômico” durante a eleição. É quase uma piada pronta: um adversário de Sarney ser cassado no Maranhão por abuso de poder econômico”.

CLIQUE AQUI PARA LER O POST COMPLETO.